+18 | Conteúdo Comercial | Aplicam-se termos e condições | Jogue com responsabilidade | Princípios editoriais
Garrincha e GarrinshaGOAL/Montagem feita com I.A.

Um Garrinsha haitiano, do Bangu, nos lembra do que jamais deveria ser esquecido

Gualicho? Quem é aquele? Lá no iniciozinho, seu nome causava confusão. Mas o “ponteiro espetacular” surgido no Botafogo no início dos anos 1950 foi quem, dentro de campo, confundia – como ninguém, antes ou depois dele – seus adversários. E quando começou a ficar famoso por causa de seus dribles, escrevendo com pernas tortas o destino mais do que certo do futebol brasileiro, ninguém mais errava o seu nome. Ou melhor, seu apelido: Garrincha. Mané Garrincha.

Em jogo válido pela primeira rodada do Campeonato Carioca de 2026, um déjà-vu aconteceu.  “Garrincha esperto!”, narrou Gustavo Villani, na TV Globo, depois que o camisa 7 deu uma bela assistência para o primeiro gol. “Tá esperto no jogo, Garrincha! Lateral da grande área... [ele] vai invadir! Pode até bater no goo..LAAAAAÇO”. Depois de 60 anos, o nome Garrincha voltava a fazer uma das coisas que mais fazia: decidir um jogo contra o Flamengo. Um Flamengo sub-alguma coisa, enquanto o poderoso time principal não estreia? Sim, mas ainda assim o Flamengo.

Ah, e o nome é Garrinsha. Com “s”. Falado, soa igual. Mas a diferença também serve para mostrar que estamos falando de outro jogador. O Bangu não vencia o Rubro-Negro fazia quase 24 anos. E, muito além de ter decidido com gol e assistência na vitória alvirrubra, Garrinsha já crava sua bandeira como primeira grande história do futebol em 2026 simplesmente porque fez jus a seu nome. Um nome, aliás, que há tempos vem sendo muito injus... injustiçado.

Leia as últimas do mercado no WhatsApp! 🟢📱
  • q6b0f5jtm8hy1s80s0mtr6lvk

    O original

    Mané Garrincha é vítima de uma espécie de crime. O do esquecimento. Brasileiros que exaltam, com orgulho, as cinco estrelas bordadas acima do escudo da seleção estão esquecendo, ou escolhem ignorar, um dos maiores protagonistas em dois dos títulos de Copa do Mundo do Brasil.

    Em 1958, Garrincha decidiu ao lado de Pelé. Foi decisivo na final contra a Suécia, participando diretamente de gols na hora mais importante do tenso duelo. Quatro anos depois, foi o primeiro astro a “ganhar sozinho” um mundial. Em 1962, ele fez de tudo em uma seleção sem Pelé para dar o bicampeonato aos brasileiros.

    Agora, pegue listas feitas até mesmo por brasileiros sobre maiores jogadores da história, ou da história da seleção, e você não verá, em muitos casos, o nome de Garrincha ali. Será que estes mesmos se importariam de apagar, de descosturar, duas das cinco estrelas do escudo? 

  • Publicidade
  • Esquecimento institucionalizado

    O esquecimento de Garrincha atingiu níveis tão absurdos que até mesmo a CBF, em maio de 2025, ignorou o seu maior camisa 7 ao fazer um post nas suas redes sociais para exaltar camisas 7 da seleção: a postagem, que segue ativa por aí, mostra fotos de Adriano Imperador, David Neres, Jairzinho, Neymar, Bebeto, Lucas Paquetá, Vinícius Júnior, Hulk, Gabriel Martinelli, Richarlison, Ronaldinho Gaúcho, Elano, Rodrygo e Douglas Costa em looping, em repetição através de um gif.

    Ou seja, o esquecimento de Garrincha é algo institucionalizado no futebol brasileiro. É oficial, não é conversa de boteco ou teoria da conspiração. Quando nem mesmo o país ou a entidade que toca a seleção honram um dos que mais a honrou, é difícil esperar que o mundo faça o mesmo. Relembrar Garrincha e saber quem ele era, o que fez e o que representou, hoje parece ser coisa para quem gosta MUITO, de verdade, de futebol e de história do futebol. Dá a impressão de ser tão Resistência quanto Memória.

  • Pelé Garrincha Santos BotafogoDivulgação/Botafogo

    Craque global antes do futebol globalizado

    E aí, neste cenário, nos aparece um haitiano nascido em 2001, 18 anos após a morte de Mané, para, através da curiosidade por ter decidido contra o Flamengo, nos ajudar a relembrar um pouco o tamanho de Garrincha. Não por causa do seu futebol. O próprio Garrinsha, com “s”, fez questão de destacar isso após a vitória: “Eu não gosto muito de comparar, porque a gente sabe como que foi a história dele. O cara foi um gênio. Mas posso dizer que eu tive sorte, a sorte dele. Foi uma noite gratificante mesmo, pelo gol e a assistência”, disse em aspas publicadas pelo Jornal O Globo.

    Apesar dos esforços para apagar Garrincha (ou da falta de ação para relembrar seu legado), o maior camisa 7 da história do futebol brasileiro continua sendo homenageado por aí. Quem poderia esperar que um craque da época pré-internet, pré-redes sociais, seria homenageado, quase duas décadas após sua morte, dando nome a um menino nascido no Haiti? Dizem que ídolos do passado estão perdendo espaço porque “não engajam” nessa loucura meio nociva que são as redes sociais. Quer algo mais engajador do que ter seu nome homenageado no filho de completos desconhecidos a quilômetros de distância de seu país?

    Cada geração gosta de contar sua história dizendo ter sido a primeira a ter alcançado diversos feitos. No mundo espetaculoso de hoje, por exemplo, costuma-se citar David Beckham como o “primeiro astro global” do futebol. Esquecem que Garrincha e Pelé foram astros globais. E não apenas eles: László Kubala, ídolo do Barcelona, fazia filmes em 1955. Ver alguém chamado Garrinsha, em homenagem a Mané, não é uma homenagem qualquer. É um lembrete poderoso de uma história que não pode se apagar.

  • Garrinsha Bangu 2026João Gama/Bangu

    A contribuição de Garrinsha

    Garrinsha vai carregar consigo mais atenção, depois da ótima atuação contra os jovens do Flamengo alternativo. Só os deuses da bola sabem do seu futuro e não cabe aqui adivinhações. Mas em um início de 2026 marcado ainda por extenuantes novelas de transferências, e pela letargia de sair da inércia para dar os primeiros passos de uma temporada, ele já deu uma excelente contribuição: escrevendo sua própria história, sem pernas tortas, foi o primeiro grande personagem do futebol no ano e ajudou a relembrar de quem não pode ser esquecido.

0