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Entenda como o México pretende voltar à Libertadores

O futebol mexicano quer voltar a disputar a Libertadores. Dez anos depois da última participação de seus clubes, a Liga MX intensificou o lobby para encontrar uma forma de reinserir as equipes do país no principal torneio de clubes da América do Sul.

A movimentação ganhou força na última segunda-feira (24), quando Francisco Iturbide, presidente da Liga MX, revelou que a entidade formalizou um pedido à Concacaf e à Fifa para viabilizar o retorno dos mexicanos à competição. A proposta prevê, entre outras possibilidades, a concessão de vagas como convidados para a Libertadores e também para a Sul-Americana.

O primeiro movimento, porém, esbarrou na Fifa. A entidade rejeitou a solicitação inicial e mantém o entendimento de que clubes de diferentes confederações não devem disputar o mesmo torneio continental. Mesmo assim, Iturbide afirmou que a Liga MX pretende continuar trabalhando para encontrar uma solução.

  • Mexico v Iceland - International FriendlyGetty Images Sport

    Por que o México quer voltar?

    O principal argumento apresentado pela Liga MX é esportivo. Para os mexicanos, disputar a Libertadores elevaria o nível de competitividade de seus clubes, colocando-os novamente diante de equipes tradicionais do futebol sul-americano.

    A última participação mexicana aconteceu em 2016, quando Puebla, Pumas e Toluca representaram o país. Desde então, os clubes da Liga MX ficaram restritos às competições organizadas pela Concacaf.

    O México, entretanto, tem uma história relevante na Libertadores. Três clubes do país já chegaram à decisão, embora nenhum tenha conquistado o título.

    Em 2001, o Cruz Azul perdeu a final para o Boca Juniors. Em 2010, foi a vez de o Chivas Guadalajara ser derrotado pelo Internacional. A última presença mexicana em uma decisão ocorreu em 2015, quando o Tigres ficou com o vice-campeonato diante do River Plate.

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  • Mexico v Ecuador - CONMEBOL Copa America USA 2024Getty Images Sport

    A experiência do México com a Conmebol

    Outro ponto utilizado pela Liga MX é a longa relação da seleção mexicana com as competições sul-americanas. O país participou diversas vezes da Copa América e enfrentou algumas das principais seleções do continente.

    A estratégia é usar essa experiência como precedente para defender que a participação dos clubes também poderia ser viabilizada.

    A questão, no entanto, é mais complexa no âmbito institucional. Enquanto as seleções podem participar de competições organizadas por outras confederações por meio de convites e acordos específicos, a presença de clubes mexicanos na Libertadores exigiria um entendimento entre Fifa, Concacaf e Conmebol.

  • imago-sport-1077642051.jpgBrazil Photo Press

    O antigo problema do calendário

    O calendário foi um dos fatores que contribuíram para o afastamento dos clubes mexicanos das competições sul-americanas. Por isso, qualquer tentativa de retorno precisará solucionar a questão logística e conciliar os compromissos da Liga MX com as datas da Libertadores e da Sul-Americana.

    A Liga MX entende que o problema pode ser administrado. Para Rui Costa, diretor executivo de futebol com passagens por São Paulo, Grêmio, Atlético-MG, Chapecoense e Athletico-PR, os deslocamentos não deveriam ser um obstáculo intransponível.

    "A questão logística é um ponto de atenção, mas que pode ser resolvido pela Conmebol, já que os brasileiros enfrentam longos deslocamentos para jogar no interior do Equador e da Colômbia, por exemplo".

    A ideia, portanto, é construir um modelo que permita aos clubes mexicanos disputar as competições sul-americanas sem comprometer o calendário doméstico.

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  • Monterrey v Toluca - Playoffs Torneo Apertura 2025 Liga MXGetty Images Sport

    O peso financeiro dos clubes mexicanos

    Além do argumento esportivo, a Liga MX tem uma carta importante no aspecto econômico. Os clubes mexicanos são reconhecidos pelo poder de investimento e, em muitos casos, estão ligados a grandes grupos empresariais.

    Em 2023, segundo dados da Fifa citados no levantamento, a Liga MX tinha o segundo maior salário médio anual entre as principais ligas das Américas, atrás apenas do futebol brasileiro: US$ 402 mil, o equivalente a cerca de R$ 2,2 milhões pela cotação atual.

    Esse poder financeiro também aparece na capacidade de contratação e nos resultados contra clubes brasileiros em competições internacionais. Na Copa Intercontinental da Fifa, o Tigres eliminou o Palmeiras na semifinal da edição de 2021. Em 2024, o Pachuca derrotou o Botafogo nas quartas de final.

    Para Moises Assayag, especialista em finanças no futebol e sócio-diretor da Channel Associados, a presença mexicana poderia gerar impacto significativo para a Libertadores.

    "Se isso acontecer, o impacto econômico para a Libertadores pode ser muito relevante. A entrada de clubes mexicanos e americanos significa incorporar ao torneio mercados com uma capacidade financeira muito maior, aumentando o potencial de geração e distribuição de receitas".

  • imago-sport-1070842199.jpgLatin Sport Images

    Por que a Conmebol também pode se interessar?

    A possível volta dos mexicanos não envolve apenas o desejo esportivo da Liga MX. Existe também um forte componente comercial.

    O México possui um mercado consumidor relevante e uma grande audiência de futebol, inclusive entre a população mexicana e de origem mexicana nos Estados Unidos. Além disso, os principais clubes do país contam com estruturas empresariais e capacidade de investimento.

    "O futebol sempre foi o esporte mais popular no México e a economia do país cresceu muito nas últimas décadas. Além disso, muitos mexicanos enriqueceram nos Estados Unidos, gerando grande audiência por lá", explica Renato Martinez, vice-presidente da Roc Nation Sports.

    Na avaliação de Joaquim Lo Prete, general manager da Absolut Sport no Brasil, a eventual entrada de clubes da América do Norte poderia ampliar a dimensão comercial da Libertadores.

    A presença mexicana e americana, segundo ele, poderia aumentar a exposição internacional do torneio, atrair patrocinadores multinacionais e abrir novas oportunidades em direitos comerciais, ativações, hospitalidade e turismo esportivo.

  • Inter Miami CF v Toronto FCGetty Images Sport

    Os Estados Unidos entram na discussão

    O movimento não está restrito ao México. Em janeiro deste ano, Jorge Mas, um dos donos do Inter Miami, revelou ter conversado com Alejandro Domínguez, presidente da Conmebol, sobre a possibilidade de campeões dos Estados Unidos e do México participarem da Libertadores.

    A presença do Inter Miami acrescentaria ainda um elemento de enorme apelo comercial: Lionel Messi. Para Thales Rangel Mafia, gerente de Marketing da Multimarcas Consórcios, a participação do clube americano poderia transformar o torneio em um produto ainda mais atrativo para mercados nos quais a Conmebol possui menor penetração.

    A ideia de incluir equipes mexicanas e americanas, portanto, poderia unir tradição esportiva e potencial de entretenimento global, criando novas possibilidades comerciais para a competição.

  • FBL-LIBERTADORES-RIVERPLATE-TIGRESAFP

    O que falta para o retorno acontecer?

    Apesar dos argumentos esportivos e financeiros, o principal obstáculo continua sendo institucional. A Fifa rejeitou o pedido inicial da Liga MX e mantém a posição contrária à participação de clubes de diferentes confederações em um mesmo torneio continental.

    Para que o projeto avance, será necessário um acordo entre Fifa, Concacaf e Conmebol, além de uma solução para o calendário e para o formato da competição.

    A Liga MX, porém, não pretende desistir. A entidade mexicana aposta na experiência de sua seleção na Copa América, no histórico de seus clubes na Libertadores, no poder financeiro das equipes e no potencial comercial de um torneio com maior presença da América do Norte.

    Por enquanto, o retorno ainda está longe de ser uma realidade. Mas o movimento iniciado pelos mexicanos recoloca em discussão uma possibilidade que parecia encerrada desde 2016.