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De Vinícius a Bondarenko: como as vaias do Bernabéu chegaram ao Campeonato Saudita?

Segundo a lógica do futebol, a torcida desempenha um papel que alguns consideram o mais importante de todos, ao apoiar seus jogadores e municiá-los de uma força extra que lhes dá a capacidade de superar seus adversários. No entanto, nem sempre é assim.

Os últimos anos testemunharam uma situação diferente, depois que a torcida, em alguns momentos, tornou-se uma arma que pode travar o time em vez de impulsioná-lo para frente, enfraquecendo as capacidades de seus jogadores em vez de fortalecê-las.

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  • Al Ahli vs Al Riyadh - Saudi Pro LeagueGetty Images Sport

    Artem Bondarenko: a mais recente vítima

    A última vítima desse fenômeno foi o ucraniano Artem Bondarenko, o novo meia do Al-Ahli vindo do Shakhtar Donetsk, que viveu uma situação extremamente difícil durante o confronto com o Al-Riyadh, pela liga Roshn.

    O Al-Ahli venceu o Al-Riyadh por 5 a 0, na partida que reuniu as duas equipes na noite da última sexta-feira, no estádio da Cidade Esportiva Príncipe Abdullah Al-Faisal, pela quinta rodada da liga Roshn saudita.

    O confronto testemunhou um episódio excepcional, já que a torcida do Al-Ahli lançou vaias contra o jogador ucraniano, sem parar desde o início até o fim da partida.

    Isso ocorre porque a torcida do Al-Ahli havia lançado, anteriormente, uma campanha para impedir a contratação de Bondarenko, sob a alegação de que era necessário um jogador melhor no meio-campo, antes que o clube insistisse em contratá-lo no fim das contas.

    Essa negociação provocou a ira da torcida, especialmente contra o ex-diretor esportivo português Rui Pedro Braz, antes que fosse emitida a decisão de sua saída do cargo na última quinta-feira.

    No entanto, o comportamento da torcida do Al-Ahli também provocou um estado de indignação entre os jogadores do time, encabeçados pelo zagueiro brasileiro Roger Ibañez, pelo goleiro senegalês Édouard Mendy e pelo atacante inglês Ivan Toney, além do técnico holandês Marino Pusic.

    A indignação chegou a alguns ídolos do clube, como Hussein Abdulghani, com todos exigindo que a torcida apoie os jogadores do time enquanto estiverem vestindo o escudo do clube, a fim de obter o melhor rendimento deles.

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  • Manchester-City-vs-Al-Hilal-16th-Round-FIFA-Club-World-Cup-2025AFP

    Ali Al-Bulaihi: o pioneiro das vaias

    O fenômeno das torcidas emitindo vaias contra seus próprios jogadores não era comum no Campeonato Saudita, e Ali Al-Bulaihi, atual zagueiro do Al-Shabab, é considerado o primeiro a sofrer com isso nos últimos anos, quando era jogador do Al-Hilal.

    Isso aconteceu no início do ano passado, com a queda nos resultados do Al-Hilal sob o comando do técnico português Jorge Jesus, e com Al-Bulaihi não apresentando o seu melhor nível naquele momento.

    A torcida do "Líder" emitiu vaias contra o zagueiro internacional em mais de uma partida, apesar de ele ser um dos capitães da equipe e estar cumprindo seu oitavo ano no clube, mas isso não o salvou da onda de fúria.

    Jesus, assim como alguns ídolos do Al-Hilal, a exemplo de Sami Al-Jaber, pediram à torcida do time que parasse com esse fenômeno e apoiasse os jogadores de qualquer maneira.

  • Al Riyadh vs Al Nassr: Saudi Pro LeagueGetty Images Sport

    Abdulilah Al-Amri: do rancor à admiração

    A situação se repetiu no início da última temporada, mas desta vez no Al-Nassr, ainda que também sob os olhos de Jesus, após ele assumir o comando do "Al-Alami".

    A vítima desta vez foi o zagueiro saudita Abdulelah Al-Amri, que enfrentou uma ampla revolta da torcida por sua insistência em se transferir para o rival tradicional Al-Ittihad antes do início da última temporada.

    A situação não parou por aí, já que Al-Amri se recusou a comemorar os gols marcados pela equipe, num sinal de sua contrariedade por permanecer nela contra a sua vontade.

    A torcida do Al-Nassr reagiu às atitudes de Al-Amri com vaias, o que provocou a ira de Jesus, que se exaltou fortemente com os torcedores e os exigiu que parassem com esse tipo de comportamento, algo que de fato ocorreu em seguida.

    Depois de iniciar a última temporada como um inimigo da torcida do Al-Nassr, Al-Amri se tornou um dos líderes da equipe e um dos queridinhos daquela torcida, após se dedicar por completo à defesa de sua camisa e contribuir para a conquista do título da Saudi Pro League.

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  • Real Betis Balompie v Real Madrid - LaLiga EA Sports 2026/27Getty Images Sport

    Do Bernabéu para o Campeonato Saudita

    As vaias aos jogadores de uma equipe podem acontecer em qualquer estádio do mundo, mas sua maior notoriedade está ligada ao estádio Santiago Bernabéu, casa do Real Madrid, que testemunhou muitas delas ao longo dos tempos.

    A temporada passada foi um exemplo dessas vaias de forma inédita, sobretudo porque o time merengue fracassou na conquista de qualquer título e sofreu com uma série de resultados negativos ao longo da temporada.

    A torcida do Real Madrid mirou seus jogadores com essas vaias, seja de forma coletiva ou individual, e a vítima mais notória delas foi o ponta brasileiro Vinícius Júnior, além do astro francês Kylian Mbappé e de seu compatriota Aurélien Tchouaméni.

    Essas vaias provocaram a ira de Florentino Pérez, presidente do Real Madrid, que afirmou serem ilógicas e pediu que a torcida deixasse de fazê-las, sobretudo depois que passaram a atingi-lo pessoalmente.

  • Por que as vaias chegaram ao Campeonato Saudita?

    Pode-se dizer que a principal razão para a chegada do fenômeno das vaias ao Campeonato Saudita é o sentimento das torcidas de que não são valorizadas ou de que suas opiniões e sentimentos não são levados em consideração de forma alguma.

    A torcida do Al-Hilal só passou a vaiar Ali Al-Bulaihi após várias partidas nas quais o zagueiro saudita teve atuações péssimas, sendo responsável por diversos gols que balançaram as redes do time.

    Durante esse período, a torcida do Al-Hilal promoveu diversas campanhas exigindo a escalação do outro zagueiro da seleção, Hassan Tambakti, ao lado do senegalês Kalidou Koulibaly, no lugar de Al-Bulaihi, especialmente porque ele havia provado seu valor nas poucas oportunidades em que atuou.

    No entanto, Jesus não atendeu a esses apelos e, com a persistência dos erros de Al-Bulaihi, a torcida não teve outra alternativa senão vaiá-lo, pressionando o técnico português e forçando-o a recuar de suas convicções, e não sossegou até conseguir o que queria.

    O mesmo ocorreu com Al-Amri, pois a torcida só o atacou com dureza depois de perceber que ele se recusava a comemorar os gols do time, deixando claro a todos que vestia aquela camisa contrariado e que se recusava a jogar em favor dessa torcida.

    E assim que o zagueiro saudita recuou de sua posição e pediu desculpas à torcida do Al-Nassr, as coisas se acalmaram entre as duas partes, e ele posteriormente até se tornou um dos líderes do time e um de seus elementos mais influentes.

    Já quanto a Bondarenko, embora ele não tivesse culpa em sua crise, a razão foi a mesma dos casos anteriores, já que a diretoria do Al-Ahli ignorou as opiniões da torcida e insistiu em trazer um jogador que ela não aprovava para o time.

    Diante dessa insistência da diretoria, a torcida não encontrou outra saída para expressar sua raiva e recusa senão vaiar o jogador, que se viu vítima de um conflito do qual nunca foi uma das partes.