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Curacao World Cup qualify 2026Getty

Como Curaçao conseguiu se classificar para a sua primeira Copa do Mundo

Alguns descreveram a classificação de Curaçao para a Copa do Mundo como um milagre — algo que realmente exige acreditar em algum tipo de força superior. E, de fato, havia algo maior do que a vida naquela noite em Kingston, duas semanas atrás, quando a Onda Azul garantiu um empate contra a Jamaica e avançou ao torneio de 2026.

Presidente da federação, Gilbert Martina entende por que essa palavra continua surgindo. Os jogadores de Curaçao rezam antes de cada treino e de cada partida — não para uma fé ou tradição específica, mas como um gesto de união. Para eles, a crença é o ponto de partida.

“Começamos com uma oração: agradecendo por estarmos vivos. Agradecendo pela jornada à nossa frente. Espiritualidade, religião, seja qual for o nome, isso é uma parte essencial da equipe”, disse Martina à GOAL.

E funcionou. Não só isso, é claro. Há várias dinâmicas que moldam uma equipe vencedora: tática, desempenho no dia do jogo e, talvez, um pouco de sorte ao longo dos 90 minutos. Para Curaçao, a oração era um ato de união, uma forma de um grupo de 26 jogadores — representando uma nação de apenas 155 mil habitantes — expressar coesão enquanto enfrentavam cada novo desafio.

E a classificação, de maneira mais ampla, exigiu um pouco de tudo. Oração? Certamente. Mas também um senso de propósito, uma crença genuína e o investimento certo, aplicado na medida necessária, para impulsionar uma pequena nação rumo à Copa do Mundo de 2026.

“Eu chamo isso de uma jornada divina. É mágico. Quando tudo se alinha — quando o universo se alinha ao seu objetivo — é aí que a mágica acontece.”

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  • Gilbert Martina Getty

    "Adoro grandes sonhos"

    Curaçao garantiu a classificação no dia 18 de novembro. Mas, para Martina, o processo começou muito antes, em 2002. Foi naquele ano que ele foi contratado, principalmente em um papel consultivo.

    Na época, sua chegada soou estranha. Ele não tinha um histórico verdadeiro no futebol. Era empresário e CEO de uma grande companhia de seguros. Formado em engenharia química e com pós-graduação em recursos humanos, Martina não era o candidato típico. Mas era curaçauense de corpo e alma — de um jeito que muitos outros não eram. Nasceu e cresceu na ilha, estudou na Universidade de Groningen, na Holanda, e depois voltou para casa. Essa trajetória acabaria refletindo a de tantos jogadores que, mais tarde, representariam o país.

    Ele também estava bem colocado para levantar recursos. Em 2002, Curaçao praticamente não tinha uma federação de futebol funcional. Havia uma cultura do esporte, em certa medida, mas a ilha não produzia muitos talentos de alto nível. E os poucos que surgiam? Iam embora jovens e acabavam defendendo seus países adotivos.

    Como consequência, Curaçao era apenas uma nota de rodapé no cenário global. Mas, para Martina, aquilo era uma chance de sonhar grande. Ele começou a buscar patrocínios e ajudou a financiar a federação. Queria ver o país disputar uma Copa do Mundo — por mais distante que esse objetivo parecesse.

    "A partir daquele momento, eu acreditei, porque adoro grandes sonhos. Adoro grandes planos. Meu avô costumava dizer: ‘Todo cemitério está cheio de excelentes planos.’ E este não seria mais um deles. Tínhamos que fazê-lo acontecer", disse. 

    Mesmo assim, aquilo tudo era apenas um trabalho de meio período. Curaçao ainda não era um país independente e permanecia sob administração holandesa. E, para cada centavo arrecadado, havia inúmeros obstáculos: campos em má condição, um grupo reduzido de jogadores e até a dificuldade de encontrar adversários.

    Enquanto isso, Martina seguia em seu emprego principal em uma empresa de seguro de saúde. Chegou a investir em piscicultura. Atuou como consultor hospitalar. Escreveu, ministrou palestras, investiu. No próximo ano, lançará um livro.

    Mas, nos bastidores, seu trabalho era incansável. Conseguia um pouco de dinheiro aqui, investia outro tanto ali. Aos poucos, alguma coisa começava a tomar forma.

    "Não temos recursos enormes como a Holanda, a Alemanha ou o Brasil. Mas tamanho e recursos não importam quando você está perseguindo um objetivo maior", afirmou Martina.

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  • Curacao Gold Cup celebrationsGetty

    Provando seu valor no continente

    A grande virada veio no campo político. Em 2010, Curaçao se tornou um país autônomo dentro do Reino dos Países Baixos. Embora ainda dependa da Holanda em áreas como defesa e relações exteriores, Curaçao é, na prática, uma nação própria.

    As implicações foram muito maiores do que apenas futebol, claro, mas a mudança abriu portas importantes — sobretudo o reconhecimento oficial da FIFA para a seleção nacional. O país passou a ser membro da entidade em 2011, estreando no ranking em 151º lugar. A filiação à CONCACAF, agora sob o novo nome pós-independência, veio logo depois e, em agosto daquele ano, essa nação de 150 mil habitantes já estava disputando partidas oficiais.

    Não que o início tenha sido animador. A infraestrutura era frágil e, mesmo com Martina e uma federação em crescimento, competir dentro de campo era um desafio enorme. Entre 2011 e 2014, o time venceu apenas seis jogos. Em 2013, disputou só duas partidas. Uma vitória sobre Cuba, nas Eliminatórias da Copa Ouro — garantida graças aos gols fora de casa — era, até pouco tempo, o maior feito futebolístico da história do país.

    Mesmo assim, o trabalho estrutural continuou. A federação conseguiu atrair talentos europeus, sul-americanos e africanos que tinham elegibilidade para defender Curaçao. Em 2020, a seleção já contava com jogadores atuando na elite da Holanda, Bélgica e Turquia.

    "Nossos jogadores foram todos formados na Holanda e na Europa", afirmou Martina.

    E, aos poucos, os resultados vieram. Curaçao venceu a Jamaica na Copa do Caribe de 2017 — um torneio que reúne as melhores seleções da região — e garantiu vaga na Copa Ouro daquele ano. O desempenho foi modesto, com três derrotas na fase de grupos, mas, em 2019, o time mostrou evolução: venceu Honduras e Jamaica na primeira fase e só caiu para os Estados Unidos nas quartas de final.

    Àquela altura, já estava claro: Curaçao havia se tornado uma força legítima.

  • Curacao fans Getty

    "Foi uma grande festa"

    Se classificar para a Copa do Mundo está, globalmente, mais fácil do que nunca. É simples matemática: agora são 48 seleções no torneio, o que significa mais vagas. Alguns criticam a mudança — na CONMEBOL, por exemplo, a disputa ficou bem menos rígida, com até três vagas adicionais dependendo da posição. Mas em outras regiões, o desafio continua tão grande quanto antes.

    De todo modo, nada disso deveria colocar Curaçao sequer perto da classificação. Ainda assim, alguns fatores jogaram a favor da equipe. O fato de três países da CONCACAF — México, Canadá e Estados Unidos — estarem automaticamente garantidos como anfitriões deixou a fase de grupos mais acessível. E o próprio grupo de Curaçao foi particularmente favorável, com uma Jamaica em crise como seu principal obstáculo.

    Mas eles ainda precisavam fazer a parte deles. Para concretizar a ambição, Curaçao contratou Dick Advocaat, um treinador holandês experiente, com passagens pelo futebol de seu país local, Escócia e Alemanha.

    E quando Martina assumiu como presidente da federação em abril de 2025, tornou prioridade agendar o maior número possível de jogos nas fases preliminares de qualificação no segundo semestre.

    “O financiamento é crucial, porque tudo isso é muito caro, e a federação não tem dinheiro suficiente para bancar todos os custos. Por isso, atrair patrocinadores foi fundamental. Jogamos 10 partidas este ano, e a maior parte desses custos foi coberta por dois dos nossos patrocinadores — um deles, uma companhia aérea”, disse Martina.

    A sorte no sorteio também ajudou: Curaçao teria dois jogos consecutivos em casa em outubro. Eles sabiam que dois bons resultados contra Jamaica e Trinidad & Tobago os colocariam em excelente posição.

    O dia 10 de outubro foi especial. É o dia da independência de Curaçao e, neste ano, marcou os 15 anos de autonomia do país. Uma vitória diante dos Reggae Boyz bastaria para colocá-los na liderança do grupo. Era uma daquelas coincidências cósmicas — a mesma espiritualidade que a equipe cultiva — prestes a se materializar. A empolgação na ilha era enorme, contou Martina. Ele sabia que os torcedores apareceriam, mas não imaginava o quão avassaladora seria a adesão.

    O Estádio Ergilio Hato ficou lotado. Muitos torcedores sequer conseguiram entrar. E quando Livano Comenencia, ex-jogador das categorias de base da Juventus, acertou um chute de muito longe no primeiro tempo, a multidão — que ultrapassava com folga a capacidade oficial de 10 mil pessoas — explodiu. Curaçao marcou o segundo gol e segurou a vitória por 2 a 0.

    “Foi uma grande festa, um presente magnífico”, disse Martina.

  • Curacao World Cup qualify 2026Getty

    Fazendo a 'mágica' acontecer

    Sete é um número de sorte — e, em Curaçao, tem um significado ainda mais especial, contou Martina. Então, quando a equipe abriu a data Fifa de novembro goleando Bermudas por 7 a 0, ele soube que a classificação estava encaminhada. Sentiu isso imediatamente — por mais improvável que parecesse.

    E estava certo. Trinidad & Tobago deu uma enorme ajuda ao segurar a Jamaica em um empate jogando em casa, e Curaçao chegou à última partida da fase de grupos precisando apenas de um empate para se classificar. Eles poderiam ter optado por jogar com cautela, ainda mais depois de Advocaat deixar a concentração por motivos pessoais. Sem um técnico em tempo integral, teria sido natural adotar uma postura mais conservadora.

    Mas fizeram o oposto: foram para cima. E arrancaram um empate sem gols — embora tivessem tido chances de sair de Kingston com uma vitória. Ainda assim, o 0 a 0 bastou para garantir a vaga. Um grupo de torcedores invadiu a pista de atletismo ao redor do campo. Os jogadores se abraçaram, choraram. A internet explodiu. Curaçao terminou as Eliminatórias invicto e se tornou o menor país — tanto em área quanto em população — a se classificar para uma Copa do Mundo.

    Duas semanas depois, Martina ainda se emociona ao lembrar daquele instante. Foi simplesmente mágico, ele repete.

    “Quando você persegue um objetivo maior, com a mentalidade e a atitude certas, e realmente se conecta com aquela força invisível que está à sua volta, então a magia acontece”, afirmou.

    E quanto ao torneio em si? Eles não pretendem participar apenas como figurantes. A classificação já foi algo considerado impossível, mas a jornada não termina aqui, garante Martina. Ele quer que o time seja testado — e acredita em milagres, afinal.

    Na verdade, ele ora todos os dias por isso.

    “Não seremos turistas. Posso garantir. Espero que peguemos um bom grupo, com adversários fortes. Estou dizendo: todo grande oponente — Alemanha, Brasil, quem você quiser — que fique atento com Curaçao”, disse.

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