Falar da vitória do Arsenal como uma mera "remontada" diminui o valor do trabalho tático que a antecedeu. Arteta tomou várias decisões interligadas: escalou Havertz na posição de centroavante, deu a Ødegaard maior liberdade, avançou Lewis-Skelly no meio-campo, optou por Zubimendi na ponta e apostou em Konsa na defesa.
Cada decisão teve influência sobre a outra. A liberdade de Ødegaard não teria sido possível na mesma medida sem o equilíbrio proporcionado pelo meio-campo. E as movimentações de Havertz tornaram-se mais eficazes porque Ødegaard conseguia chegar à área. Já Zubimendi ajudou a criar ângulos de passe adicionais que deixaram a defesa do Chelsea diante de mais de uma opção. E este é o ponto mais importante na leitura da partida: Arteta não venceu por causa de uma única decisão, mas porque suas decisões se complementaram entre si.
No fim, o placar diz que o Arsenal venceu por 2 a 1, mas a partida diz algo maior: o time sofreu um gol por volta do segundo minuto e, mesmo assim, não perdeu sua estrutura. Ficou atrás, depois empatou, depois virou e, em seguida, suportou a pressão dos minutos finais. Essa sequência é muito importante para um time que defende um título. A temporada não se decide nas partidas em que o time está em seu melhor momento, mas nas partidas em que as coisas se complicam. Por isso, a vitória sobre o Chelsea carrega um valor que vai além dos três pontos.
O Arsenal não fez uma partida perfeita; deu chances ao Chelsea, não decidiu o confronto cedo e poderia ter pagado o preço por alguns deslizes no final. Mas teve algo mais importante do que a perfeição: a flexibilidade — flexibilidade na formação, flexibilidade nas funções e flexibilidade ao lidar com o roteiro da partida. E foi exatamente isso que fez as apostas de Arteta darem certo.
Havertz provou que é capaz de liderar o ataque, Ødegaard aproveitou o espaço que o plano lhe proporcionou, Zubimendi provou que sua escalação não foi uma aventura e Lewis-Skelly ajudou a redistribuir as funções no meio-campo, enquanto Raya manteve a vantagem de seu time no momento em que o erro passou a ser proibido.
Já o Chelsea, apesar da derrota, confirmou que tem o suficiente para incomodar os grandes, mas perdeu a partida na qual precisava aproveitar seus momentos com o máximo de eficiência. Por isso, pode-se dizer que o dérbi de Londres não foi um confronto decidido pelos grandes nomes, mas uma partida decidida pela qualidade dos detalhes.
O Chelsea teve o início. O Arsenal teve a partida. E a diferença entre os dois esteve na capacidade de Arteta e seus jogadores de transformar o plano em realidade e, depois, de lidar com as mudanças da partida sem perder sua identidade. Além disso, as apostas de Arteta deram certo, mas o mais importante é que o Arsenal provou que tem a personalidade do time que sabe como vencer mesmo quando as coisas não começam a seu favor.