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Deportivo's rebirth_1-1_.jpgGetty/GOAL

O Super Depor está de volta! O renascimento do Deportivo La Coruña

James Westwood
Traduzido por
  • Em julho de 2020, o Deportivo La Coruña chegou ao fundo do poço. Depois de terminar em 19º lugar na Segunda Divisão espanhola, foi rebaixado para a terceira divisão pela primeira vez em 40 anos, e 20 anos depois de conquistar seu primeiro e único título da elite.

    Houve muita polêmica na época também. O último jogo do Deportivo foi adiado depois que vários jogadores do Fuenlabrada testaram positivo para Covid-19, e as vitórias de Lugo e Albacete selaram seu destino antes mesmo de a equipe entrar em campo. Dirigentes do Deportivo argumentaram que toda a rodada deveria ter sido remarcada para que os times pudessem jogar em condições iguais, mas acabaram vendo recursos à La Liga, à RFEF e à Corte Arbitral do Esporte serem rejeitados.

    O Deportivo havia caído de La Liga em 2011, 2014 e 2018, sempre lidando com dívidas sufocantes, mas este foi um golpe devastador do qual uma recuperação rápida seria impossível. Ainda assim, houve uma reconstrução gradual e bem planejada, com o Deportivismo - palavra usada para descrever a devoção inabalável da torcida do clube na comunidade galega local - ajudando a conduzir a equipe a uma empolgante nova era.

    Avançando para os dias atuais, o Deportivo não só está de volta a La Liga, como os primeiros sinais sugerem que pode brigar por uma vaga em competições europeias até o fim da temporada. O Deportivo vive à altura de sua reputação como um clube renascido, com uma nova geração de estrelas buscando seguir o exemplo dado pelas lendas que fizeram parte de seu inesquecível projeto 'Super Depor'.

  • Ascensão dos anos 1990

    Deportivo
    Getty

    O Depor viveu uma ascensão meteórica nos anos que antecederam a virada do século, antes de uma mudança de técnico levá-lo a conquistas ainda maiores

    Entre 1991 e 2004, o Deportivo foi um dos maiores clubes da Espanha. Sob o comando de Arsenio Iglesias, ex-atacante que passou seis anos como jogador no Riazor entre 1951 e 1957, o Deportivo voltou à primeira divisão após 18 anos longe dela e terminou em segundo lugar na temporada 1994-95, perdendo o título de forma agonizante no saldo de gols, além de conquistar seu primeiro grande troféu, a Copa del Rey.

    A estrela daquele time era o atacante brasileiro Bebeto, que marcou impressionantes 86 gols em 131 jogos pelo clube no total, enquanto a equipe também contava com o talentoso meio-campista espanhol Fran, o incansável camisa 6 Mauro Silva, o sólido zagueiro sérvio Miroslav Dukic e o seguro goleiro Francisco Liano.

    Iglesias se aposentou do futebol após o título da Copa conquistado pelo Deportivo, e então chegou John Toshack. O técnico galês conquistou a Supercopa da Espanha e foi responsável pelas contratações do ícone brasileiro Rivaldo e do defensor marroquino Noureddine Naybet, mas acabou renunciando em meio a tensões internas em fevereiro de 1997.

    O Deportivo recorreu a Carlos Alberto Silva para colocar a casa em ordem, e ele conseguiu isso inicialmente, levando o time ao terceiro lugar em La Liga. Rivaldo, porém, se transferiu para o Barcelona naquele verão, e houve uma grande regressão durante a campanha de 1997-98, com Silva sendo demitido no fim das contas quando o Depor caiu para a 12ª colocação na tabela.

    Era preciso uma atitude ousada para recolocar o Depor nos trilhos, e foi exatamente isso que aconteceu. O Deportivo agiu para tirar Javier Irueta de seu rival regional mais ferrenho, o Celta de Vigo, onde ele havia comandado uma empolgante campanha de classificação europeia e implementado um estilo de jogo amplamente elogiado. O retorno foi dez vezes maior, já que Irueta acabaria se tornando o verdadeiro sucessor de Iglesias.

  • Conquistando La Liga

    Roy Makaay, Francisco Caceres
    Getty Images Sport

    O Deportivo conseguiu vencer uma das corridas pelo título mais emocionantes da história de La Liga em 2000

    Irueta era um técnico meticuloso e sereno, que adaptava suas táticas de acordo com cada adversário, mas exigia disciplina defensiva e controle no meio-campo. Ele também escolhia cuidadosamente contratações que se encaixassem em sua filosofia, muitas das quais se tornaram ídolos cultuados, incluindo Diego Tristan, Roy Makaay, Juan Carlos Valeron, Joan Capdevilla e Jorge Andrade.

    Ele também melhorou vários nomes já estabelecidos, de Naybet ao meia-atacante brasileiro Djalminha, e o Deportivo se tornou uma das equipes mais temidas do continente. Isso não aconteceu da noite para o dia, porém.

    O Deportivo terminou em sexto na La Liga no primeiro ano de Irueta no comando, 16 pontos atrás do campeão Barcelona. A equipe não foi consistente o suficiente para brigar pelo título ou se classificar para a Champions League, mas voltou à Copa da Uefa, e Irueta implementou uma formação em 4-2-3-1 que deu uma base de estabilidade.

    Antes da temporada 1999-2000, Irueta trouxe seis novos reforços, incluindo Makaay, vindo do Tenerife, por € 8,6 milhões, e o ponta do Racing Santander Victor Sanchez, por € 7,6 milhões. Esses dois jogadores foram especialmente vitais para o Deportivo alcançar outro patamar.

    O Los Herculinos melhorou sua pontuação de 1998-99 em apenas seis pontos, mas isso foi suficiente para vencer a La Liga depois de uma das disputas mais abertas da história da competição, com Barcelona, Valencia, Real Zaragoza e Real Madrid todos na briga. O Barcelona foi quem mais pressionou o Depor, mas só conseguiu empatar seus dois jogos finais, e o time de Irueta conquistou o título após uma vitória sobre o Espanyol na última rodada.

    O impiedoso atacante holandês Makaay foi o herói ao marcar 22 gols, mas Djalminha e Sanchez deram apoio de altíssimo nível no ataque, Maurco Silva e Flavio Conceicao foram colossais na dupla de volantes, e Donato liderou pelo exemplo na defesa.

    "Concluímos o trabalho do time de 1994", declarou Irureta depois de o título ser assegurado.

  • Heroísmo na Liga dos Campeões

    Deportivo La Coruna v AC Milan
    Getty Images Sport

    O Depor causou um enorme impacto na Europa no início dos anos 2000 e protagonizou uma das maiores viradas de todos os tempos

    Sem se contentar em descansar sobre os louros, o Deportivo gastou € 40 milhões em novos jogadores naquele verão, contratando Valeron, Tristan, Aldo Duscher, Walter Pandiani, Jose Molina, Capdevila e Emerson. Irueta não conseguiu exatamente arquitetar uma defesa de título bem-sucedida em 2000-01, mas o Deportivo ainda terminou em segundo, atrás do Real Madrid, e fez uma campanha memorável até as quartas de final da Liga dos Campeões.

    O Deportivo repetiu os dois feitos na temporada seguinte e conquistou mais um troféu, estragando as comemorações do 100º aniversário do Real Madrid no Bernabéu com uma vitória por 2 a 1 na final da Copa do Rei. Irueta havia moldado um time capaz de lutar pelos maiores títulos ano após ano.

    Depois de mais uma campanha entre os três primeiros de La Liga em 2002-03, o Deportivo mirou a glória na Liga dos Campeões. O time voltou a chegar às quartas de final, e em seu caminho para uma inédita vaga na semifinal estava o atual campeão Milan, que ainda nem havia sofrido um gol na competição até aquele momento.

    Liderado por Kaka, o Milan desmontou o Depor por 4 a 1 no jogo de ida, em San Siro, levando a maioria dos observadores a acreditar que o confronto estava decidido. No entanto, o time de Irueta protagonizou uma reação incrível diante de um Riazor lotado, abrindo três gols de vantagem antes do intervalo graças aos gols de Pandiani, Valeron e Albert Luque.

    O veterano Fran, que saiu do banco, fez 4 a 0 com um chute desviado no fim, enquanto o Deportivo resistia para se tornar o primeiro time da era moderna da Liga dos Campeões a reverter uma desvantagem de três gols do jogo de ida de um mata-mata. A vitória representou o auge da geração de ouro do Depor, com Irueta declarando: "Produzimos um milagre aqui... Este é um resultado histórico. Somos heróis."

    O meio-campista do Milan Andrea Pirlo refletiria mais tarde sobre a intensidade intimidadora do Depor em sua autobiografia: "O que mais me impressionou foi como eles continuavam correndo no intervalo. Todos: sem exceção... Eles não conseguiam ficar parados nem naquele período de 15 minutos pensado especificamente para que você recuperasse o fôlego."

    A trajetória do Deportivo acabou na fase seguinte, quando sofreu uma derrota por 1 a 0 no placar agregado para o Porto, de Jose Mourinho, com apenas um pênalti de Derlei separando os dois times. Irueta sugeriu que "o destino foi contra nós", o que se provou quando o Porto acabou conquistando a Copa da Europa ao bater o Monaco na final.

  • Fim do ciclo

    Javier Irueta Deportivo La Coruna
    Getty Images

    O Depor mergulhou em uma crise financeira pouco depois de Irueta decidir deixar o cargo de treinador

    Era um prazer ver o Deportivo naquele período. Valeron era um mágico que deslizava pelo campo e tinha a capacidade de desmontar qualquer defesa com sua variedade de passes, Tristan jogava com a postura de um toureiro, Makaay era a personificação da eficiência e Silva era o guardião estoico que lhes dava espaço para correr soltos. Djalminha também era um espetáculo antes de perder seu lugar para Valeron. Como meia armador agressivo e com um repertório enorme de dribles e recursos, pouquíssimos defensores conseguiam pará-lo quando estava em plena forma.

    Tudo que é bom chega ao fim, porém, e o envelhecido elenco de Irueta não conseguiu manter seu alto padrão em 2004-05, caindo para o oitavo lugar em La Liga e sendo eliminado da Champions League na fase de grupos. "Como um velho casal, a rotina está aos poucos nos matando", disse o goleiro do Depor, Jose Molina, ao admitir que o time havia estagnado.

    Irueta também reconheceu que o ciclo havia chegado ao fim. "É o momento certo para uma mudança, tanto para o clube quanto para mim", admitiu ao deixar o cargo no fim da campanha.

    Um recomeço, porém, não levou a um ressurgimento. À medida que o Depor continuava em declínio e a premiação europeia secava, o presidente Augusto Cesar Lendoiro passou anos financiando o clube por meio de enormes empréstimos bancários, e eles foram forçados a vender seus melhores jogadores para amenizar os danos. O Deportivo entrou oficialmente em recuperação judicial em 2013 com uma dívida de € 156 milhões, dando início ao seu longo período de "ioiô" entre divisões, que durou uma década.

  • Em ascensão

    Deportivo
    Getty

    O caminho de volta à La Liga foi desgastante, mas o Depor deu o passo final após nomear Antonio Hidalgo em 2025

    Depois de cair para a terceira divisão não profissional em 2020, que reunia 102 times em cinco ligas regionais, havia a expectativa de que o Deportivo retornasse imediatamente. No entanto, o clube acabou preso no limbo por dois anos, perdendo o acesso nos play-offs em temporadas consecutivas.

    Houve boas notícias, porém, com a aquisição por parte do gigante bancário galego Abanca, que conduziu a recuperação financeira do clube ao se afastar da cobrança tradicional de dívidas corporativas, optando, em vez disso, por usar trocas de dívida por participação acionária e aumentos estratégicos de capital. O ex-treinador de Real Zaragoza e Leganes Imanol Idiakez então assumiu o comando em julho de 2023, e o time começou a subir novamente.

    Idiakez levou o Depor ao título da Primera Federacion logo na primeira tentativa, terminando na liderança do Grupo 1 (Norte) depois de vencer o Barcelona B na rodada final, graças a uma dramática cobrança de falta do ex-atacante do Arsenal Lucas Perez. A campanha de 2024-25 na Segunda trouxe mais baixos do que altos, mas foi principalmente de consolidação, e uma colocação no meio da tabela preparou o terreno para uma verdadeira briga pelo acesso.

    Houve mais mudanças no banco de reservas, com Idiakez dando lugar a Oscar Gilsanz, antes de Antonio Hidalgo receber um contrato de um ano no Riazor no verão passado. Hidalgo, que passou pela famosa academia La Masia, do Barcelona, e também teve passagens por Tenerife e Malaga, conseguiu encontrar o mesmo equilíbrio entre pragmatismo estrutural e liberdade ofensiva que Irueta havia aplicado com tanta eficiência, transformando o Depor em uma máquina de contra-pressão.

    O Depor garantiu a segunda colocação na Segunda espanhola, atrás do Racing Santander, em 2025-26, com o acesso confirmado após a vitória por 2 a 0 sobre o Real Valladolid, em um jogo no qual o atacante camaronês Bil Nsongo marcou os dois gols. As comemorações em A Coruna foram intensas, mas o alívio foi o sentimento predominante.

    "Estou aqui há três desses longos oito anos, e esse era o objetivo, que agora alcançamos. Mas, quando você está aqui, entende o quanto é importante para a cidade que o Depor esteja em La Liga", disse o CEO do Depor, Massimo Benassi, à La Gazetta Dello Sport. "Havia uma pressão saudável que era palpável todos os dias: cada dia sem La Liga parecia mais um dia em que algo estava faltando."

  • Verão forte

    Villarreal CF v RC Deportivo de A Coruna - LaLiga EA Sports 2026/27
    Getty Images Sport

    O Depor fez mudanças radicais no elenco para se preparar para a volta à elite do futebol espanhol, incluindo a contratação do meio-campista do Barcelona Marc Casado

    Em uma tentativa de garantir outra longa permanência na elite, o Deportivo executou uma ambiciosa estratégia de transferências no verão, buscando tanto estrelas de renome quanto grandes jovens talentos europeus com cláusulas de rescisão. O clube conseguiu trazer 10 novos jogadores com um investimento de apenas € 25 milhões, sendo a maior parte desse valor gasta no goleiro do Mallorca Leonardo Román Riquelme (€ 9 milhões).

    O Depor também contratou Jonathan Asp Jensen, do Bayern de Munique, e Lorenzo Amatucci, da Fiorentina, respectivamente por € 6 milhões cada, e concretizou uma das grandes tacadas de toda a janela ao tirar Pierre Emerick Aubameyang do Marseille por apenas € 1,5 milhão. Aubameyang já está bem longe do auge aos 37 anos, mas o ex-atacante de Arsenal e Borussia Dortmund marcou 10 gols na Ligue 1 na última temporada, provando que seu faro de gol na área continua afiado.

    Adama Traore, por sua vez, chegou sem custos após deixar o West Ham, acrescentando mais experiência crucial de alto nível ao elenco de Hidalgo, e o Deportivo também recebeu três contratações por empréstimo bastante acertadas no último dia da janela: Jose Maria Gimenez, Angelino e Marc Casado. O Depor também tem uma opção de compra por Casado, e o meio-campista do Barcelona tem potencial para ser o mais impactante entre os reforços como um ditador de ritmo com ética de trabalho incansável.

    Hidalgo ficou satisfeito com os negócios do clube, mas ressaltou a importância de manter a identidade da equipe antes do início da temporada 2026-27. "As chegadas de jogadores como Aubameyang e Adama Traore mudam o perfil técnico deste time, mas não alteram o projeto central que nos levou de volta à La Liga. Estamos nos apoiando fortemente na experiência de elite de líderes como Aubameyang e Gimenez para orientar nossos jogadores mais jovens diante das exigências desta divisão."

  • Super Depor 2.0

    Aubameyang
    Getty Images

    O Depor fez um início de temporada soberbo, liderado pelo veterano atacante Aubameyang

    Gimenez teve um início encorajador de trajetória no Riazor, mas disputou apenas três partidas até agora depois de ter chegado tarde. Aubameyang, por sua vez, aparentemente levou as palavras de Hidalgo a sério e tem desafiado o tempo de forma impressionante.

    O time já foi apelidado de 'Super Depor 2.0' depois de passar invicto pelos seus cinco primeiros jogos de La Liga, com empates por 1 a 1 contra Elche, Malaga e Getafe, intercalados por vitórias empolgantes sobre Valencia e Villarreal, antes de finalmente conhecer a derrota diante do Sevilla na quarta-feira.

    Aubemayang tem sido prolífico e se tornou o primeiro jogador desde Zlatan Ibrahimovic, em 2009-10, pelo Barcelona, a marcar em cada uma das cinco rodadas iniciais, com sua atuação de destaque vindo contra o Villarreal. Depois de dar assistências para Luismi Cruz e Zakaria Eddahchouri, Aubameyang marcou o terceiro gol do Depor aos 89 minutos para garantir uma vitória por 3 a 2 no El Madrigal.

    "O que Aubameyang está fazendo é absolutamente incrível", disse Hidalgo sobre o impacto dele. "Ele não perde um único treino e trabalha mais do que qualquer outra pessoa. Ele tem um talento especial."

    O Depor está atualmente em sétimo lugar na tabela e pode sonhar ao menos em seguir na metade de cima se Aubameyang conseguir manter sua forma notável. Em outros setores, Cruz retomou de onde parou na última temporada como o motor criativo da equipe, Amatucci se adaptou rapidamente para dominar o meio-campo, e Roman está provando ser uma opção segura como o novo camisa 1. Assim como Gimenez, Casado também tem impressionado em suas duas primeiras partidas pelo clube.

    Os torcedores votaram para mudar o nome do time de Deportivo de 'La Coruña' para a versão galega 'A Coruna' durante o verão, mas o novo grupo de jogadores está resgatando os valores que levaram o clube a tanto sucesso entre os anos 1990 e o início dos anos 2000. Eles também contam com um técnico seguro, que vai garantir que o foco não diminua.

    "Entramos toda semana com essa intenção, sabendo da dificuldade, com muita humildade, sabendo que esta [temporada] é muito longa e que você sempre precisa manter os pés no chão. Mas, a partir daí, também jogamos com muita confiança", disse Hidalgo.

    Este pode ser o começo de outra jornada especial. O Deportivo está de volta, e isso só pode ser uma boa notícia para os puristas de La Liga.