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John Halls Arsenal fashion 1:1Getty/GOAL

De representar o Arsenal a conquistar a indústria da moda como modelo da Armani

Chris Burton
Traduzido por
  • A maioria das pessoas se consideraria sortuda se tivesse a chance de viver um sonho. Para milhões de meninos e meninas cheios de estrelas nos olhos ao redor do mundo, a vida como atleta profissional representa o auge da realização pessoal. Outras passariam os dias felizes brincando de se produzir e fazendo pose diante das câmeras depois de entrar para a indústria da moda.

    Os dois setores são notoriamente difíceis de entrar, já que há apenas um número limitado de pessoas que podem brilhar nas pistas, nos campos ou nas passarelas em qualquer momento. Chamar a atenção de quem toma as decisões nunca é fácil, com treinadores sempre em busca da perfeição, enquanto “o diabo veste Prada” quando o assunto são diretores criativos e editores impiedosos.

    Alguns parecem ter toda a sorte do mundo, conseguindo apagar fronteiras e desfilar com naturalidade dos campos de futebol de Londres e Paris para as passarelas de Nova York e Milão. John Halls, ao longo de duas carreiras muito diferentes, conseguiu marcar todos esses itens.

    Como zagueiro considerado bom o bastante para receber reconhecimento internacional com a Inglaterra no nível sub-20, ele conviveu com Thierry Henry, Patrick Vieira e Dennis Bergkamp como parte do icônico elenco dos “Invincibles” do Arsenal. Halls saiu do lendário sistema de base de Hale End para fazer três partidas pelo time principal dos Gunners, antes de defender outros 10 clubes que lhe permitiram vivenciar os quatro níveis da English Football League.

    Quando seus dias como jogador chegaram ao fim, com uma lesão forçando Halls a pendurar as chuteiras aos 30 anos, ele passou menos de uma semana se lamentando antes de trocar a existência como modelo no sentido esportivo da função por aquela que fez seu rosto abrir portas na Giorgio Armani e na Dolce & Gabbana.

    Então, como esse processo aconteceu? O próprio protagonista abriu o jogo para a GOAL...

  • Acesso ao centro comercial

    John Halls of Arsenal
    Getty Images Sport

    Halls se formou nas categorias de base do Arsenal e fez três aparições pela equipe principal antes de migrar para a carreira de modelo

    O destino certamente sorriu para Halls, com o agora ex-jogador de 44 anos, que falou com exclusividade à GOAL por cortesia de BritishGambler.co.uk, explicando uma mudança para a carreira de modelo que aparentemente estava destinada a acontecer. “Essa coisa de ser modelo é estranha, porque eu trabalhei como modelo quando era criança. Eu era modelo infantil. Então fiz isso desde, acho que dos oito, nove, 10, 11 anos”, disse. “E depois assinei com o Arsenal e falei para a minha mãe: ‘Escuta, não quero mais fazer esse negócio de modelo’. Mas isso acabou dando muito certo para mim.

    “Eu apareci em um dos vídeos da Kylie Minogue, um dos videoclipes dela. Eu deveria ter uma cena de dança nele, mas foi até umas 4h da manhã em Camden. Estávamos gravando em Camden e acho que minha cena de dança ia acontecer por volta das 5h da manhã, e eu disse: ‘Pai, quero ir para casa’. Eu era só uma criança. Meu pai disse: ‘Tudo bem, vamos para casa’. Mas eu apareço no começo do vídeo da Kylie Minogue.

    “Mas depois, de forma estranha, mais para o fim da minha carreira, as lesões começaram a aparecer e todo o resto, acho que eu tinha uns 28 anos, e havia algo dentro de mim que era um pouco egocêntrico, então eu pensava: ‘Vou virar modelo se tudo isso der errado’. E então minha irmã começou a insistir nisso. Quando eu tive a lesão no tendão de Aquiles, parecia que aquilo ia dar em alguma coisa, e ela disse: ‘Vá para Londres e passe em todas as agências, entre lá’. Então eu entrei em todas as agências, fui às oito grandes de Londres, e todas disseram não, exceto a última. A última disse: ‘Ah, talvez, mas qual é a sua situação?’ E eu disse: ‘Bem, ainda tenho um ano de contrato no futebol’. Ela disse: ‘Volte em um ano, talvez a gente converse’.

    “Então, no fim, o tendão de Aquiles acabou comigo e me aposentou. Então eu me aposentei e, literalmente, tive cinco dias até chegar ao último pagamento, e eu estava naquela choradeira. Aí eu estava andando no shopping Westfields e a mulher de lá veio falar comigo, Sarah Vickery, que ainda é minha agente hoje. Ela disse: ‘Eu te conheço? Você é modelo?’ E eu respondi: ‘Não, mas acho que passei na sua agência há um tempo’. E ela disse: ‘Certo, legal, apareça amanhã, vamos fazer um ensaio teste e depois ver o que acontece’.

    “Então fui lá no dia seguinte. Fizemos um ensaio teste em Shoreditch, em que tiram algumas fotos suas e te colocam em uma roupa bacana. Depois, um fotógrafo descolado tira as fotos. E então, quando elas voltam, eles dão uma olhada e te avaliam. E foi isso. Eles disseram: ‘Legal, queremos contratar você no dia seguinte’. Foi isso. Então assinei. E, de repente, eu era modelo seis dias depois de me aposentar.”

  • A confiança de um jogador de futebol

    John Halls
    Details magazine. Shot by Robbie Fammano

    A vida como jogador profissional de futebol permitiu a Halls construir o tipo de confiança que o fez prosperar como modelo

    Halls concluiu sua transição de jogador de futebol para fashionista com extrema facilidade e, ao ser questionado se havia habilidades transferíveis que alguém acostumado à vida sob os holofotes do esporte poderia levar para os ensaios fotográficos, disse: “Com certeza. A confiança de um jogador de futebol, você acredita que pode fazer qualquer coisa de qualquer forma. Quer dizer, a maioria dos jogadores de futebol acha que provavelmente pode jogar golfe, jogar basquete, jogar tênis. Sabe o que quero dizer? Nós somos meio assim. Isso foi incutido em você. Então essa confiança ajudou.

    “Eu meio que já sabia modelar, digamos, desde os meus tempos de criança. Eu meio que achava que podia fazer isso. Quer dizer, o lado adulto disso era um pouco mais novo e tipo: ‘Nossa, isso é diferente’. Mas a confiança sempre esteve lá. E acho que entrei nisso um pouco cru, no sentido de que eu não conhecia nenhum fotógrafo. Eu não conhecia nada disso nem daquilo. Então esses grandes nomes que fui ver não eram grandes nomes para mim. Eram só um qualquer. Então eu simplesmente aparecia, sendo eu mesmo e confiante.

    “E você vai para o set e se senta na frente de 20, 50 pessoas, mas não era diferente de estar diante das multidões e tudo mais. A parte assustadora era entrar em campo diante de 30 mil torcedores, não de 15 pessoas atrás da câmera. Não era tão ruim. Então isso foi meio legal. E então acho que, como esportista, ter controle do seu corpo e saber como ficar em pé e jogar o quadril para um lado ou o que seja, era meio a mesma coisa. Então algumas coisas eram transferíveis.”

    Ficar ali parado usando uma sunga pequena deve, no entanto, ter sido um pouco estranho e assustador na primeira vez: “Isso sempre foi um pouco estranho. Quando você está só de cueca, especialmente se não te dão uma proteção, mas obviamente, se você não tem uma proteção e ainda há umas 20 pessoas olhando para você de cueca, isso é um pouco assustador. Mas, obviamente, também, felizmente como jogadores de futebol, você meio que está sempre em forma. E isso acabou indo também para o meu lado de modelo. Eu me mantive em forma. Então você está sempre confiante em relação ao seu corpo. Mas, sim, a velha sunga cavada sempre foi uma coisa meio estranha.”

  • Corrida nos portões da Armani

    John Halls Giorgio Armani
    Shot by Giampaolo Sgura

    Tendo brilhado na Premier League como jogador de futebol, Halls pôde representar algumas das principais marcas de moda do mundo.


    Halls fez apenas uma partida na Premier League como jogador, pelo Reading, em 2007, mas trabalhou para marcas como Armani e D&G como modelo. Questionado se conseguir esses trabalhos é semelhante a chegar à elite, o natural de Islington disse: “Sim, isso é meio que o auge, o auge mesmo.

    “Lembro quando fui pela primeira vez a um casting da Armani. Se você já viu um casting da Armani em Milão, é uma loucura. Havia centenas, talvez milhares de rapazes esperando do lado de fora desses portões em que só estava escrito Giorgio Armani. E então, de repente, depois de duas ou três horas esperando, esses portões meio que se abrem lentamente. E aí foi tipo, eu fiquei muito confuso, pensando no que estava acontecendo. E, quando esses portões se abriram, esses rapazes todos saíram correndo, porque é como uma corrida de 100 metros até o começo da fila. Então, se você está no fim da fila, vai ficar lá por mais três horas até conseguir entrar e passar na frente do Sr. Armani. Então os rapazes começaram todos a correr. E eu pensando: o que está acontecendo? Aí já era para mim, acabou, eu ia ficar no fim da fila. Então comecei a abrir caminho com os cotovelos para tentar passar e chegar à frente.

    “Mas, obviamente, esse é o auge, desfilar para aquele cara e entrar primeiro é meio que o auge do mundo da moda. Obviamente há alguns trabalhos, como anúncios de perfume e campanhas desse lado, e fragrâncias, mas entrar primeiro numa semana de moda ou fechar o desfile, ou seja, entrar por último também, isso é meio que a prateleira mais alta, a mais alta de todas. E, obviamente, venho fazendo Armani, felizmente, há 15 anos. E não preciso mais passar por esse casting, felizmente.

    “Mas hoje você vê isso nas redes sociais e nesses modelos novos, eles só querem fazer isso. É esse o trabalho que eles querem fazer. E, felizmente para mim, estou lá há uma eternidade. E também é meio que uma família. Eles são muito leais, e não há muita lealdade na moda, assim como no futebol. Mas, sim, nesse caso houve um pouco de lealdade. E tem um pouco de clima de família.”

  • Viajando pelo mundo

    John Halls Man of the World
    Shot by Robbie Fammano

    Depois de já ter feito parte de um grande elenco, Halls precisou se adaptar rapidamente às exigências da vida solo na estrada

    Há muitas semelhanças entre o esporte e a moda, como viajar pelo mundo. Os modelos, porém, trabalham por conta própria, em vez de fazer parte de uma equipe. Ao falar sobre essa mudança, Halls disse: “Foi muito, muito assustador quando comecei a fazer isso. Lembro de entrar em um avião pela primeira vez sozinho, de ir a aeroportos sozinho. E, na verdade, eu me sentia muito solitário e sentia que todo mundo estava olhando para mim. Foi algo estranho. Porque normalmente a gente ia em grupos de 20, 30 pessoas, e éramos nós, a gente ia para todo lugar. Era uma bolha juntos, era uma equipe, tudo o que a gente fazia era junto.

    “Então, de repente, estou sozinho. Estou em um país diferente. Estou solitário pra caramba. Tenho que ir conhecer 15 pessoas novas no dia seguinte. E aí posso ficar lá por mais alguns dias. Quero dizer, tivemos períodos assim como modelos novos. O que acontece é que dizem: ‘Certo, legal, vamos te colocar em Paris por seis semanas para você ir ver todo mundo, vamos te colocar em Nova York por seis semanas para que você possa ver todo mundo, para que eles te vejam, para que você conheça os clientes, o restante da equipe e os bookers’. E foi um período muito, muito solitário.

    “E foi estranho porque eu também não tinha muitos amigos. Era tudo muito solitário. Eu não tinha ninguém a quem recorrer. Eu não recorria a ninguém. Era meio o jeito como fomos criados. E foi um período realmente, realmente difícil.

    “Lentamente, mas com certeza, fui me acostumando e comecei a gostar. Mas com certeza houve um momento, acho que uns três anos depois, em que algo simplesmente me atingiu como uma parede de tijolos: ‘Meu Deus, estou indo muito bem em Londres, mas não sei o que está acontecendo aqui porque estou tão solitário, estou tão deprimido’. E, por fim, fui procurar um psiquiatra e resolvemos tudo isso. Mas, sim, na época foi algo realmente assustador e desconhecido.”

  • Indústria assustadora

    John Halls England
    Getty

    Jogadores de futebol recebem salário semanal mesmo quando estão lesionados ou ficam no banco, mas modelos precisam encontrar trabalho para ganhar dinheiro

    Halls também precisou adotar uma mentalidade diferente quando se trata de ganhar dinheiro. Como jogadora de futebol, você recebe independentemente de jogar ou não. Na indústria da moda, se você não está sendo contratada, então não entra nada.

    “Eu sempre digo que a vida de modelo, a de uma modelo em atividade, é uma vida muito, muito boa. A de uma modelo sem trabalho não é uma vida tão legal assim. E, aconteça o que acontecer, mesmo como uma boa modelo em atividade, você ainda está a duas semanas de ser uma modelo sem trabalho, porque ficamos sabendo dos trabalhos talvez com duas semanas de antecedência, três semanas de antecedência se você tiver sorte”, explicou Halls.

    “Então, basicamente, na semana que vem eu estou desempregada a partir da semana que vem. É quando eu tenho outro trabalho, dois trabalhos chegando, e só. Então você está sempre meio perto disso. É um sinal de que ‘isso não vai durar para sempre’. É uma indústria bastante assustadora para ser autônoma e ficar esperando o telefone tocar ou seu agente ligar e dizer: ‘Escuta, quero que você consiga um trabalho’.”

  • Quanto os modelos recebem

    John Halls
    Shot by Robbie Fammano

    Modelos recebem o cachê acertado antes de aceitar qualquer trabalho, com as estruturas de pagamento de certas campanhas e ensaios variando drasticamente


    Assim como no futebol, há uma escala variável de pagamento no mundo da moda. Ao ser convidado a explicar um pouco como isso funciona, com certas campanhas, ensaios e eventos gerando mais dinheiro do que outros, Halls disse: “Sim, é uma escala bem ampla. E acho que seu agente faz muito do trabalho por você. Mas obviamente existe um calibre diferente de modelo. Eu posso exigir esta taxa ou este modelo pode exigir aquela taxa. E, no fim das contas, quando chega o e-mail ou a ligação, aquilo que você concordou é aquilo que você concordou. Então, se eu concordei com um trabalho de 10 mil e um modelo diferente diria: ‘Não, eu vou aceitar 20’, é isso que você recebe. Você tem que estar satisfeito com isso, vai concordar e vai fazer o trabalho.

    “Mas temos o e-com, que paga uma certa taxa. Temos o lookbook, em que exigimos um pouco mais. Temos as campanhas, em que exigimos muito mais. A passarela e depois o editorial. O editorial é meio que de graça. Você vai fazer um editorial de graça. Vai estar em uma revista, mas recebe um pouco do hype e da atenção.

    “Num trabalho de e-com, os valores realmente caíram muito desde que eu comecei, porque há uma entrada enorme de modelos agora. Muitos modelos e não tanta demanda por cada modelo, porque existem muitas opções. Mas hoje você pode facilmente estar fazendo um trabalho de e-com por £ 500 ou pode fazê-lo por £ 7 mil. Então isso é o e-com, é o que você vê quando entra na internet e vê as Zaras e coisas do tipo, você só vê o cara na pose básica e parado na foto.

    “Então pode haver uma diferença desse tamanho e, obviamente, queremos exigir mais pelos lookbooks. Queremos exigir mais pelas campanhas e depois depende de quanto tempo a campanha vai ficar no ar. Pode ser um uso de 12 meses. Pode ser um uso de 18 meses e, se reutilizarem, têm que pagar de novo. Então há uma diferença enorme em tudo o que fazemos.

    “A passarela é meio assim: os meninos vão e fazem passarela. Se receberem por passarela, têm sorte. Se saírem de Milão, onde ficaram uma semana, talvez para fazer os castings, a passarela, hotel, se saírem no zero a zero, têm sorte. Vão ter sorte. Certos meninos vão sair com alguns bons milhares no bolso, ou até mais no caso dos meninos exclusivos. Mas, às vezes, se você sai de eventos de passarela, mesmo sendo um garoto jovem, tem muita sorte.

    “E depois, obviamente, há a fragrância. A fragrância normalmente era a principal. Esse é o grandão, grandão. Se você quer dinheiro, quer uma fragrância. Então, se você vir alguém nos aeroportos e eles estiverem fazendo uma fragrância, vão ter ganhado algum dinheiro.”

    Halls ainda espera conseguir esse grande pagamento, mas, dado como sua carreira se desenvolveu até aqui, do Arsenal à Armani, não seria nenhuma surpresa se ele atingisse outro objetivo e oferecesse mais uma prova de que nenhum sonho deve ser considerado fora de alcance.