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Messi's battle to convince Argentina_1-1.jpgGetty/GOAL

Como convencer a Argentina de sua grandeza se tornou a batalha mais difícil de Lionel Messi

O capitão da Argentina encerra sua notável carreira internacional como herói em sua terra natal, mas precisou passar pelo inferno para conquistar o amor de seu povo

James Westwood
  • O dia que todo purista do futebol temeu por tanto tempo finalmente chegou. Depois de 21 anos, e de um recorde pela seleção de 207 jogos e 127 gols, Lionel Messi se aposentou oficialmente da Argentina.

    "É uma decisão que machuca a minha alma, mas eu sei que chegou a hora", disse o jogador de 39 anos em um comunicado emocionante. "Posso dizer com certeza que sempre dei tudo, não só nos últimos anos, quando ganhamos tudo, [mas] antes também, e sempre lutei e dei tudo pela camisa, para dar alegria a vocês e fazê-los sentir orgulho de serem argentinos por meio do futebol. Levo comigo memórias e momentos inesquecíveis. Saio com a satisfação e o orgulho de ter, junto com meus companheiros, dado a vocês momentos com os quais sonhamos. Amo vocês! Agradeço a Deus por me fazer argentino."

    Messi também confirmou que escreveu o comunicado dois dias depois da derrota da Argentina para a Espanha na final da Copa do Mundo de 2026, e disse que a morte de seu pai, Jorge, em 8 de agosto, o fez se sentir "mais convencido do que antes". Depois da morte de Jorge, Messi admitiu que tinha "sérias dúvidas" sobre seguir jogando por "muito mais tempo", então esta não é uma notícia inesperada, mas ainda assim pesa bastante.

    Este é o fim de uma carreira internacional realmente singular. Messi capitaneou a Argentina ao título da Copa do Mundo em 2022 e aos títulos consecutivos da Copa América em 2021 e 2024, fazendo jus ao legado de Diego Maradona no processo. A maioria das pessoas considerava Messi o maior jogador de futebol de todos os tempos antes da virada da década por causa de suas façanhas sobre-humanas no Barcelona, mas, desde então, ele também conquistou seus críticos mais ferrenhos com atuações colossais com a histórica camisa da Argentina.

    De forma espantosa, uma parcela muito grande deles vinha do próprio país dele. Os torcedores da Argentina não acolheram Messi plenamente até ele chegar aos seus anos mais veteranos, e até ficaram perto de levá-lo a uma aposentadoria muito mais precoce. A relação entre eles acabou se tornando simbiótica, mas os argentinos foram os últimos a enxergá-lo como o gênio inimitável que ele sempre foi.

  • Contra o Barcelona

    Olympics Day 15 - Football
    Getty Images Sport

    Messi inicialmente se tornou um favorito da torcida por seu papel na campanha da medalha de ouro da Argentina nos Jogos Olímpicos de 2008

    Messi fez sua estreia internacional em 2005, como um jovem de 18 anos de cara limpa, em um amistoso contra a Hungria, e foi expulso de forma célebre instantes depois de entrar em campo por acertar um adversário com um braço involuntário. Foi um começo extraordinariamente frustrante, mas isso não fez nada para frear a ascensão de Messi ao topo, já que ele se tornou o jogador mais jovem a representar e marcar pela Argentina em uma Copa do Mundo, na Alemanha, no ano seguinte. Na Copa América de 2007, Messi ganhou o prêmio de Jogador Jovem do Torneio por seu papel na campanha da Argentina até a final, na qual acabou derrotada por 3 a 0 pelo arquirrival Brasil.

    O primeiro gosto de sucesso do diminuto atacante com a Argentina veio então nos Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, mas só depois de uma longa saga sobre sua participação. O calendário dos Jogos colidia com as eliminatórias da Champions League do Barcelona, gerando tensão entre o clube e a Associação do Futebol Argentino (AFA), que só se dissipou após a intervenção do novo técnico no Camp Nou: Pep Guardiola.

    "Pep foi fenomenal comigo, porque ninguém queria que eu fosse para as Olimpíadas com a seleção, mas eu queria ir. Foi ele quem me deu a permissão", disse Messi. "Lembro que estávamos na pré-temporada na Itália e, depois de um amistoso contra a Fiorentina, ele me chamou e disse: ‘Você quer ir, não quer?’. Eu disse que sim."

    A paixão de Messi por seu país apareceu desde o primeiro jogo, quando ele marcou um belo gol na vitória por 2 a 1 sobre a Costa do Marfim, aproveitando um lançamento de Juan Roman Riquelme e disparando para passar pelo seu marcador antes de tocar para o gol. Depois, ele produziu mais um momento de magia nas quartas de final da Argentina contra a Holanda, finalizando com calma de perto após interceptar um passe errado e deixando dois defensores e o goleiro holandês para trás.

    A Argentina acabou vencendo aquele confronto por 2 a 1 após a prorrogação e conseguiu uma doce revanche sobre o Brasil pela derrota na Copa América do ano anterior, com uma vitória por 3 a 0 na semifinal, para marcar uma final contra a surpreendente Nigéria. Messi voltou a ter impacto decisivo, girando com inteligência no meio-campo antes de deixar Angel Di Maria na cara do gol, e o ex-jogador do Real Madrid fez o resto com uma linda cavadinha, que acabou sendo suficiente para garantir as medalhas de ouro para a Argentina.

    Messi brilhou no torneio e o público argentino demonstrou profunda gratidão por sua decisão de ir contra os desejos de quem pagava seus salários no Barça e assumir um papel de liderança nos Jogos. Naquele momento, havia grande confiança no país sul-americano de que Messi se tornaria o herdeiro definitivo de Maradona, mas a dinâmica mudou drasticamente nos oito anos seguintes.

  • Fracasso sob Maradona

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    AFP

    Messi levou a maior parte da culpa pelo fracasso da Argentina na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul

    Em novembro daquele ano, Messi e Maradona se tornaram jogador e treinador. A AFA recorreu ao ícone da Copa do Mundo de 1986 para conduzir a seleção adiante após a renúncia de Carlos Bilardo, apenas dois meses depois de ele ter criticado publicamente Messi por sua suposta atitude individualista no Barcelona.

    Maradona disse: "Às vezes, Messi joga para Messi. Ele se sente tão superior que esquece os companheiros de equipe." Messi tentou apaziguar a situação em uma entrevista posterior à La Gazzetta dello Sport, insistindo que "foram coisas ditas no calor do momento" e que se sentia "valorizado" por Maradona. Mas o dano estava feito; Maradona havia plantado uma semente de dúvida sobre a mentalidade de Messi na cabeça dos torcedores da Argentina.

    Riquelme passou a camisa 10 para Messi após sua aposentadoria em março do ano seguinte, e Maradona montou a Argentina em torno da superestrela do Barcelona, que conquistou a primeira de suas oito Bolas de Ouro mais tarde naquele ano, antes da Copa do Mundo de 2010. Messi estava no auge de seu talento inicial quando o torneio começou na América do Sul, cheio de confiança após uma campanha de 47 gols pelo Barça, mas a sorte o abandonou.

    A Argentina venceu todos os jogos da fase de grupos, marcou sete gols e sofreu apenas um, antes de bater o México por 3 a 1 nas oitavas de final, e Messi esteve no centro de tudo em uma função de falso 9. Ele teve média de seis dribles certos por jogo e abasteceu Gonzalo Higuain e Carlos Tevez com constância e qualidade de classe mundial, sendo eleito o melhor em campo por uma atuação especialmente brilhante na vitória por 2 a 0 sobre a Grécia, partida em que usou a braçadeira de capitão da Argentina pela primeira vez.

    No entanto, as falhas gritantes do plano de jogo de Maradona foram expostas pela Alemanha nas quartas de final. A Argentina foi completamente dominada em uma humilhante derrota por 4 a 0, na qual Messi ficou preso mais atrás e foi anulado pela marcação enquanto a Alemanha dominava a batalha no meio-campo.

    Maradona escalou de forma bizarra Nicolas Otamendi como lateral-direito, e Lukas Podolski e Thomas Muller previsivelmente exploraram sua falta de velocidade, enquanto Javier Mascherano teve de cobrir toda a largura do campo como o único volante da Argentina. Foi um desastre que escancarou a experiência praticamente inexistente de Maradona como treinador, e a AFA se separou do amado ex-atacante após a eliminação da equipe.

    E, ainda assim, apesar de criar 16 chances, somar 29 finalizações e acertar a trave quatro vezes, foi Messi quem recebeu a maior parte da culpa pelo fracasso da Argentina. Como não marcou, alguns torcedores o viram como um alvo fácil, a ponto de apelidá-lo de 'El Catalan', insinuando que sua lealdade pertencia ao Barcelona, e não à Argentina, e apontaram o fato de ele não cantar o hino nacional antes das partidas como prova de seu distanciamento no cenário internacional. Tudo isso foi profundamente injusto, mas a situação só pioraria.

  • 'Destruído' em casa

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    AFP

    A Argentina sofreu uma eliminação precoce como anfitriã da Copa América em 2011, com Messi transformado em bode expiatório mais uma vez

    Messi também não marcou um único gol na Copa América de 2011. A Argentina decepcionou como anfitriã do torneio desde o início sob o comando do novo técnico Sergio Batista, primeiro ao ficar no empate por 1 a 1 com a Bolívia, antes de empatar sem gols com a Colômbia. Messi e seus companheiros deixaram o gramado sob vaias após esta última partida, no Estádio Estanislao López, em Santa Fe.

    De forma reveladora, antes do apito inicial, o locutor do estádio encerrou as apresentações da equipe da Argentina dizendo: "Com a camisa 10, o melhor do mundo, Lionel Messi. E com a camisa 11, o jogador do povo, Carlos Tevez." Não importava o quanto Messi fosse talentoso, ele ainda não havia conquistado a aceitação do seu povo.

    O revelado em La Masia foi o arquiteto da vitória da Argentina por 3 a 0 sobre a Costa Rica em seu último jogo da fase de grupos, com duas assistências, mas isso logo foi esquecido. A equipe de Batista ficou no empate por 1 a 1 após a prorrogação com o Uruguai nas quartas de final e acabou perdendo por 5 a 4 nos pênaltis. Messi deu tudo de si, preparando o gol de empate de Higuain com um cruzamento soberbo e convertendo sua cobrança na disputa; ele apenas não conseguiu esconder a fragilidade coletiva da Argentina.

    Isso já era visto pelos nativos como uma crise total e, mais uma vez, Messi foi o principal bode expiatório. Isso cobrou seu preço, como revelou o ex-goleiro de Argentina e Getafe Oscar Ustari, que perdeu o torneio por lesão, depois de visitar o centro de treinamento da equipe em Ezeiza para consolar o elenco.

    "Eu o vi como nunca tinha visto antes, destruído", disse Ustari ao Mundo Deportivo. "Questionar Messi é um absurdo, as coisas podem dar certo ou não para você, mas posso dizer que o vi chorando como um bebê por causa do que estava acontecendo na seleção."

  • 'Muita raiva'

    Germany v Argentina: 2014 FIFA World Cup Brazil Final
    Getty Images Sport

    A Argentina chegou à final da Copa do Mundo de 2014 no Brasil, mas perdeu para a Alemanha, enquanto Messi decepcionou

    Alejandro Sabella assumiu o comando pouco depois da Copa América e deu a Messi um impulso imediato ao nomeá-lo novo capitão permanente da Argentina. O ídolo do Barcelona marcou 23 gols em suas primeiras 25 partidas como capitão, incluindo 12 em 2012, o que o fez igualar o recorde de Gabriel Batistuta de mais gols em um único ano-calendário pela Argentina, com um impressionante hat-trick na vitória por 4 a 3 sobre o Brasil em um amistoso como a atuação de maior destaque.

    Sabella deslocou Messi de uma posição aberta para uma função de armador em "liberdade" atrás de Higuaín e Sergio Aguero, permitindo que ele organizasse e concluísse os ataques à vontade, ao mesmo tempo em que implementava um sistema agressivo de contra-ataque que fez da Argentina uma força a ser reconhecida rumo à Copa do Mundo de 2014, no Brasil.

    Messi começou o torneio como um homem possuído, marcando quatro dos seis gols da Argentina na fase de grupos e dando a assistência para o gol da vitória de Di Maria na prorrogação contra a Suíça, nas oitavas de final. Ele também foi o homem-chave nas vitórias sobre Bélgica e Holanda, enquanto a Argentina avançava à sua primeira final de Copa do Mundo desde 1990, mas parou diante da Alemanha de Joachim Low.

    A Alemanha conquistou o troféu graças ao gol da vitória de Mario Gotze na prorrogação, deixando Messi arrasado. Ele recebeu o prêmio de consolação da Bola de Ouro como melhor jogador do torneio, mas não foi uma escolha popular porque não marcou nas fases eliminatórias, com até o próprio Maradona se manifestando para questionar a decisão.

    "Não está certo quando alguém ganha algo que não deveria ter ganhado só por causa de algum plano de marketing", disse ele. Aquela foi uma acusação absurda que não soava verdadeira. Embora qualquer um entre Muller, James Rodriguez ou Arjen Robben também merecesse o prêmio, Messi foi um vencedor merecido porque carregou a Argentina com sua criatividade de tirar o fôlego.

    Foco demais foi colocado em sua atuação decepcionante na final e em sua incapacidade de converter uma chance de ouro no início do segundo tempo. Messi estava inconsolável, como disse ao Diario AS: "Neste momento, não me importo com nada. Eu queria levar a Argentina à Copa do Mundo por todas as pessoas. Chegamos à final, enquanto outros argentinos não passaram das quartas de final. Mas estamos decepcionados por não termos vencido este jogo. Há muita raiva."

  • Ponto de ruptura

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    AFP

    Após três derrotas consecutivas em finais, Messi decidiu deixar a seleção nacional

    Messi deu a volta por cima de forma espetacular em nível de clube, conquistando sua segunda tríplice coroa de La Liga, Champions League e Copa do Rei pelo Barcelona. Formando um terço de um trio de ataque imparável ao lado de Luis Suarez e Neymar, Messi somou 86 gols e assistências em todas as competições, levando o então técnico do Barça, Luis Enrique, a afirmar que o argentino é "de outra dimensão".

    Essas conquistas impressionantes, porém, deixaram Messi muito exposto a críticas na Copa América de 2015. Ele levou a Argentina a mais uma final, mas o Chile protagonizou uma zebra histórica para conquistar o título após uma disputa de pênaltis e, embora Messi tenha recebido outra indicação ao prêmio de melhor jogador do torneio, marcou apenas uma vez em seis partidas.

    Maradona apareceu novamente para aumentar ainda mais sua dor. "É lógico que ele tenha sido criticado, é fácil explicar", disse ao Ole. "Temos o melhor jogador do mundo, que vai lá e faz quatro gols contra a Real Sociedad, e depois vem aqui e não toca na bola. Você acaba dizendo para si mesmo: 'Droga, você é argentino ou sueco?'"

    Messi também foi criticado pelo próprio avô, Antonio Cuccitini, que disse à Radio Casilda: "Uma parte dele estava lá. Mas nos últimos três jogos ele foi mal. Foi preguiçoso." Ele e a Argentina, comandados por Gerardo 'Tata' Martino na época, tiveram a oportunidade de uma redenção quase imediata no ano seguinte, porém, já que a Copa América foi disputada novamente como uma exceção pontual ao ciclo habitual de quatro anos para celebrar o 100º aniversário da CONMEBOL e a criação do torneio em 1916.

    Não que Maradona estivesse entre aqueles que esperavam um desfecho diferente. "Ele é uma pessoa muito boa, mas não tem personalidade", disse Maradona poucos dias antes do pontapé inicial no Chile. "Falta a ele o caráter para ser um líder." Apesar de mais palavras desnecessariamente duras de seu ídolo de longa data, a Argentina chegou à sua terceira final em tantos anos ao vencer todos os seus cinco primeiros jogos, incluindo uma goleada por 4 a 0 sobre a seleção dos Estados Unidos na semifinal, na qual Messi balançou as redes com uma cobrança de falta impressionante de 27 metros para se tornar o maior artilheiro da história de sua seleção.

    Esse foi um dos cinco gols que Messi marcou no torneio, mas o time de Martino voltaria a sucumbir diante do Chile, anfitrião da competição, novamente na decisão. Assim como em 2015, Argentina e Chile empataram por 0 a 0 após 120 minutos, e La Roja levou a melhor nos pênaltis. Desta vez, porém, Messi não converteu sua cobrança como primeiro batedor da Argentina na disputa, mandando a bola muito por cima do travessão.

    O capitão chorou de forma incontrolável ao apito final, em cenas difíceis de assistir. Ele havia chegado ao limite, e um anúncio bombástico veio em seguida. "Para mim, a seleção acabou. Fiz tudo o que podia. Dói não ser campeão", disse Messi a um grupo de repórteres. "Acho que isso é melhor para todos."

  • campanha nacional

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    AFP

    Torcedores da Argentina deram uma reviravolta e se uniram para pedir que Messi reconsiderasse

    Mas algo ainda mais inesperado aconteceu depois disso. Ao longo das seis semanas seguintes, a realidade da vida sem Messi caiu a ficha para o público argentino.

    A Argentina não tinha um time cheio de superestrelas. Além de Aguero e Di Maria, faltava brilho ao elenco, e tirar Messi da equação gerava visões de um futuro sombrio.

    O anúncio dele também colocou em perspectiva o quanto a Argentina havia alcançado em tão pouco tempo. A seleção chegou agonizantemente perto de um terceiro título da Copa do Mundo e disputou finais consecutivas da Copa América, passando longos períodos no topo do ranking da Fifa em 2015 e 2016. Ficou por muito pouco de recapturar a grandeza da era de 1978 a 1990, e foi Messi quem inspirou o time a atingir tais alturas.

    À medida que os níveis de ansiedade aumentavam, começou uma campanha nacional para fazer Messi mudar de ideia. O então presidente da Argentina, Mauricio Macri, ligou pessoalmente para Messi. O prefeito de Buenos Aires inaugurou uma estátua do atacante do Barcelona na cidade. Painéis digitais de trânsito em toda a rede de metrô e nas ruas foram alterados para exibir a mensagem: "No te vayas, Lio" ("Não vá embora, Leo"). Milhares de torcedores foram ao monumento do Obelisco, na cidade, para pedir o retorno de Messi debaixo de chuva torrencial.

    Foi um movimento que uniu o país inteiro. Messi também recebeu uma carta de uma estrela de base de 15 anos do River Plate chamada Enzo Fernandez. O jovem, que desde então se tornou uma parte importante da história de Messi, implorou para que ele reconsiderasse, mas também desabafou sua fúria diante das expectativas "ridículas" que haviam sido colocadas sobre seus ombros.

    Fernandez estava absolutamente certo. Messi também havia sido desrespeitado e abatido por aqueles que se recusavam cegamente a reconhecer sua devoção e incrível consistência. Edgardo Bauza substituiu Martino como técnico em agosto e voou para se encontrar com Messi em Barcelona, cara a cara, para deixar claro que queria que ele continuasse sendo o rosto da seleção e que o próximo capítulo de sua trajetória pela Argentina poderia ser muito mais brilhante.

  • Sem ressurgimento imediato

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    AFP

    Apesar do otimismo que o retorno de Messi gerou inicialmente, a Argentina deu um grande passo para trás na Copa do Mundo de 2018


    No fim das contas, porém, Bauza não precisou ser persuasivo demais, porque Messi já vinha tendo dúvidas. Ele voltou atrás na aposentadoria após a reunião, dizendo em comunicado divulgado pelo La Nacion: "Vejo que há muitos problemas no futebol argentino e não pretendo criar mais um. Não quero causar nenhum dano, sempre tentei fazer justamente o contrário, ajudar em tudo o que puder.

    "Precisamos consertar muitas coisas no futebol argentino, mas prefiro fazer isso por dentro e não criticar de fora. Muitas coisas passaram pela minha cabeça no dia da última final e pensei seriamente em sair, mas amo demais este país e esta camisa. Sou grato a todas as pessoas que quiseram que eu continuasse jogando pela Argentina, tomara que possamos lhes dar algo para comemorar em breve."

    Messi finalmente sentiu o carinho que sempre mereceu dos torcedores da Argentina. No entanto, seu retorno não trouxe de imediato o sucesso que eles tanto queriam. Bauza foi demitido em abril de 2017 depois de conseguir apenas três vitórias em oito jogos das Eliminatórias da Copa do Mundo. Jorge Sampaoli chegou para tentar arrumar a casa, mas o time ainda não tinha uma identidade clara, e talvez nem tivesse ido à Rússia 2018 se não fosse por uma atuação milagrosa de Messi contra o Equador, com o rosarino marcando os três gols na tensa vitória por 3 a 1.

    As comparações com Maradona também continuaram acompanhando Messi. Na preparação para a Copa do Mundo de 2018, o ex-atacante da Argentina Gabriel Batistuta explicou por que nunca colocaria Messi no mesmo patamar. Ele disse ao Corriere dello Sport: "Diego foi o maior de todos. Ele representa um argentino em muitas coisas, não só no futebol. Tem carisma. Tem talento raro e fantasia. Messi, mesmo que tecnicamente seja igual ou mais, não tem mais carisma do que Maradona tinha. Diego podia dar vida ao estádio inteiro."

    A Argentina foi surpreendentemente mal na Rússia, avançando apenas com dificuldade na fase de grupos depois de um empate por 1 a 1 com a Islândia e de uma derrota arrasadora por 3 a 0 para a Croácia, e acabou do lado derrotado no placar de 4 a 3 contra a França nas oitavas de final. Messi deu duas assistências no jogo contra a França e marcou um golaço na única vitória da Argentina no torneio, diante da Nigéria, mas, no geral, parecia fora de sintonia, com o ex-companheiro de seleção Pablo Zabaleta dizendo à BBC Sport: "Ver Leo tão estressado e infeliz nesta Copa do Mundo foi realmente preocupante. Ele é meu amigo e eu senti muito por ele. É muito incomum vê-lo assim, mas era um sinal do que estava acontecendo na cabeça dele. Há uma enorme pressão sobre ele porque as pessoas esperam demais."

  • A transformação começa

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    AFP

    A Argentina voltou a entrar em trajetória de alta depois que Scaloni assumiu como técnico

    Naturalmente, Maradona também se viu obrigado a opinar sobre o mais recente capítulo frustrante da trajetória de Messi pela Argentina. "Não deveríamos mais deificar Messi", disse ele à Fox Sports naquele outubro. "Ele é Messi quando joga pelo Barcelona. Messi é Messi quando veste essa camisa, e é outro Messi com a Argentina. Ele é um grande jogador, mas não é um líder. É inútil tentar fazer de um líder um homem que vai ao banheiro 20 vezes antes de um jogo."

    Maradona voltou atrás dias depois, chamando Messi novamente de "o melhor do mundo" e afirmando que "a amizade que tenho com Lionel é muito maior do que tudo o que vocês [jornalistas] podem escrever", no que foi uma fraca tentativa de pedido de desculpas. O 'Golden Boy' da Albiceleste morreu em 2020 e, assim, nunca precisou engolir suas palavras originais. Mas Messi provou que ele estava errado.

    Sampaoli foi demitido de forma nada elegante depois da Copa do Mundo de 2018 em meio a relatos de uma revolta no vestiário, e seu auxiliar, Lionel Scaloni, assumiu, inicialmente de forma interina. Houve certa resistência à nomeação de Scaloni porque ele nunca havia trabalhado antes como treinador principal e o elenco precisava de uma sacudida séria.

    Mas Scaloni logo calaria os críticos e criaria laços profundos com os jogadores que levariam a uma transformação sem precedentes. Totalmente ciente de sua importância, ele dedicou um tempo extra a Messi, ligando imediatamente para o capitão da Argentina para expor seus planos. Ele também incluiu Pablo Aimar na ligação de forma inteligente, sabendo que o ex-meio-campista de River e Valencia era o ídolo de Messi na infância.

    Enquanto técnicos anteriores pareciam exigir que Messi fizesse tudo pela Argentina, Scaloni montou uma estrutura que lhe permitia conservar energia. Ele armou um bloco médio compacto em vez de uma pressão de alta intensidade e adaptava a formação de acordo com o adversário.

    Foi uma abordagem flexível que transformou a Argentina em um time de verdade. Scaloni não conseguiu ir até o fim em seu primeiro torneio, a Copa América de 2019, mas a Argentina terminou em terceiro, e houve sinais mais do que suficientes para convencer a AFA a lhe dar um contrato permanente no outono.

  • Superando o bloqueio mental

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    AFP

    Messi finalmente encontrou uma "tranquilidade" após liderar a campanha da Argentina rumo à Copa América de 2021

    Tudo mudou para Messi na Copa América de 2021, no Brasil. A Argentina conquistou seu primeiro grande título em 28 anos, com Messi terminando como artilheiro, empatado com quatro gols, e dando mais assistências do que qualquer outro jogador (cinco). Ele também dividiu o prêmio de Melhor Jogador com Neymar, que acabou do lado derrotado apesar de uma atuação hipnotizante na final pelo Brasil.

    Foi nesse momento que Messi, e a seleção argentina como um todo, rompeu a barreira psicológica. "Tenho a tranquilidade de ter realizado o sonho que me foi negado tantas vezes", disse ele em uma entrevista posterior à ESPN. "Foi como um sonho, um momento espetacular.

    Messi também falou de forma franca sobre o barulho externo que havia atormentado sua trajetória pela Argentina até então. "Uma parte da mídia nos tratava como fracassados, dizendo que não sentíamos a [responsabilidade] de vestir a camisa, que não deveríamos estar na seleção", afirmou.

    "Tentamos ser campeões antes, fomos os primeiros a querer isso. É muito difícil ganhar uma Copa do Mundo ou uma Copa América. Na época, eles não valorizavam o que fazíamos, só colocavam ênfase no fato de que não atingíamos o objetivo. O importante é se sentir satisfeito por ter dado tudo de si... felizmente, da última vez [na final] foi diferente."

    A Argentina seguiu embalada com uma campanha tranquila nas Eliminatórias da Copa do Mundo, garantindo vaga no Catar 2022 com cinco jogos de antecedência, e atropelou a campeã da Euro 2020, a Itália, na Finalissima em Wembley, com Messi e Di Maria deitando e rolando.

    Sua incrível sequência de 36 jogos de invencibilidade terminou na estreia da Copa do Mundo, em uma sensacional derrota por 2 a 1 para a Arábia Saudita, mas essa nova e melhorada versão da Argentina estava equipada para lidar com contratempos e, mais importante ainda, o país se uniu em torno dela em vez de cair em cima. O que veio depois transformou Messi e seus coadjuvantes em imortais.

  • Saindo da sombra de Maradona

    메시 월드컵 우승 Messi World Cup Trophy
    Getty Images

    O debate sobre o GOAT terminou de uma vez por todas depois que Messi levantou a Copa do Mundo no Catar

    Aos 34 anos, Messi simplesmente já não conseguia percorrer tantos quilômetros quanto antes. Mas tudo bem, porque nomes como Rodrigo De Paul, Alexis Mac Allister e Enzo Fernandez dobraram a intensidade no meio-campo para que Messi pudesse explodir quando mais importava.

    Simplesmente não havia como parar Messi nesses momentos: do gol da vitória de longa distância contra o México às assistências candidatas a melhores do século contra Holanda e Croácia, ele brindou os torcedores com uma aula magna em cada um dos cinco jogos da Argentina após a derrota para a Arábia Saudita. Ele guardou o melhor para a final, porém, marcando dois gols no eletrizante empate por 3 a 3 com a França após a prorrogação e convertendo um pênalti vital na disputa seguinte, vencida pela Argentina por 4 a 2.

    Messi recebeu sua segunda Bola de Ouro, uma recompensa justa por suas 10 participações em gols, e encerrou de vez o debate sobre o GOAT. Ele completou o futebol.

    A mudança perceptível em seu comportamento na Copa América também se manteve no Catar. Antes mais fechado, Messi se tornou um companheiro de equipe mais sociável e um impressionante motivador antes dos maiores jogos da Argentina. O resto do vestiário o idolatrava e estava disposto a ir à guerra em seu nome.

    Essa nova mentalidade de "nós contra o mundo" também chegou às arquibancadas. Já não havia motivo para questionar o envolvimento emocional de Messi ou sua disposição para lutar. Maradona ainda é visto por muitos que viveram seus anos de auge como o único verdadeiro "Deus" da Argentina, mas Messi havia saído de sua sombra para sempre.

    Seu status como um dos filhos prediletos da Argentina cresceu novamente após a defesa bem-sucedida do título da Copa América pela equipe em 2024 e sua emocionante campanha até a final da Copa do Mundo deste verão. Messi completou 39 anos na América do Norte, mas ainda assim marcou oito gols e deu mais quatro assistências, e deveria ter recebido sua terceira Bola de Ouro em vez do eventual vencedor Rodri.

    A Argentina se desmoralizou com uma horrível demonstração de antifutebol na derrota por 1 a 0 para a Espanha na final, e Messi nunca entrou no jogo. Foi uma forma triste de se despedir do futebol internacional, mas as memórias dele destruindo a Inglaterra na semifinal, seu hat-trick contra a Argélia e seu gol especial contra o Egito vão durar muito mais.

  • "Agora eu serei apenas um de vocês"

    Messi
    Getty Images

    Messi consolidou um lugar especial no coração dos torcedores da Argentina, e seu legado vai perdurar

    Convencer os torcedores da Argentina de sua grandeza foi a batalha mais difícil de Messi. Mas a forma como ele chegou lá, e o vínculo incondicional que construiu com eles no fim, lhe trará tanta satisfação quanto qualquer um dos troféus que conquistou.

    "Obrigado por todo o carinho ao longo dos últimos 20 anos", acrescentou Messi em sua mensagem de aposentadoria. "Vou sentir muita falta de ouvir vocês do gramado. Agora serei apenas mais um de vocês, sempre torcendo e apoiando do lado de fora." Ele sempre será um deles.

    Um período de luto será agora observado em toda a Argentina enquanto o país tenta assimilar a perda de sua figura de proa dos tempos modernos. Sua ausência afetará jovens e idosos, como informou o The Guardian, que compartilhou uma reação particularmente comovente de um torcedor argentino de 86 anos: "Você me deu as maiores alegrias da minha vida. Você estará no meu coração até o dia em que eu morrer."

    A torcida da Argentina agora será a maior admiradora de Messi à distância enquanto ele encerra seus dias como jogador na MLS com o Inter Miami. Foi fascinante ver essa relação evoluir e um privilégio testemunhar por tanto tempo a magia incomparável de Messi com a camisa da Argentina.

    "Obrigado por absolutamente tudo", disse Leandro Paredes em resposta ao anúncio de Messi. "Você é e sempre será o maior de todos os tempos." Seria difícil encontrar qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, que não compartilhe desse sentimento, especialmente na Argentina.