Getty/GOALA sensacional passagem de Raúl pelo Schalke após deixar o Real Madrid
Um ano depois de deixar o Schalke para acertar com o Al Sadd, no verão europeu de 2012, Raúl voltou à Veltins-Arena vestindo a camisa do clube do Qatar. Era apenas um amistoso, mas o estádio estava lotado. Do lado de fora, milhares de torcedores do Schalke se reuniram para acompanhar a partida em telões instalados especialmente para a ocasião.
O público impressionante se torna ainda mais significativo pelo fato de Raúl ter passado apenas duas temporadas em Gelsenkirchen antes de se transferir para o Al Sadd. Alcançar o status de ídolo em um clube já é algo raro, mas fazê-lo em tão pouco tempo é ainda mais especial. E o fato de o espanhol ter chegado ao Schalke sob a impressão de estar em declínio na carreira torna sua trajetória pelo clube ainda mais marcante.
"Eu precisava escapar"
AFPNo verão europeu de 2010, após 16 anos de uma trajetória de sucesso, mas também desgastante, no time principal do Madrid, Raúl precisava de uma mudança de ares
Raúl podia ser uma lenda viva do Real Madrid, mas havia acabado de completar 33 anos e já era considerado fora dos planos no Bernabéu por ninguém menos que José Mourinho. A temporada 2009/10 não havia sido das melhores para o atacante, que enfrentava dificuldades tanto de forma quanto físicas. Por isso, já havia perdido espaço e passado a ser visto como uma opção para mudar o rumo das partidas antes de ter sua temporada encerrada precocemente por uma lesão no tornozelo.
O Real Madrid já contava com Cristiano Ronaldo, Karim Benzema e Gonzalo Higuaín no elenco, e Raúl havia ficado atrás dos três companheiros de ataque na hierarquia. A situação não mudaria com a chegada de Mourinho.
Raúl conversou apenas uma vez com o português após sua nomeação como novo técnico do clube, mas aquilo foi suficiente para convencê-lo de que seu ciclo no Real havia chegado ao fim. Mourinho deixou claro ao maior artilheiro da história do clube que ele teria ainda menos minutos sob seu comando do que havia tido com Manuel Pellegrini. "A partir daquele momento, decidi procurar um novo desafio", admitiu Raúl posteriormente.
O espanhol já vinha avaliando seu futuro, mas a ideia de deixar o Real Madrid era difícil de assimilar. Raúl havia chegado ao time principal do Real Madrid aos 17 anos. Ao longo desse período, quebrou quase todos os recordes possíveis e se tornou capitão do clube. O time era parte dele, e ele era parte do Real.
Como disse o presidente Florentino Pérez: "Há muitos homens que fazem parte da lenda do Real Madrid, mas poucos são escolhidos para personificar o clube. Raúl é um deles."
Raúl estava cansado, porém. Ser o símbolo do "madridismo" estava cobrando seu preço, tanto profissional quanto pessoalmente. Ele já não sentia o mesmo prazer em jogar futebol. É claro que perder a condição de titular absoluto pesou, mas o atacante também estava desgastado pelo peso da braçadeira de capitão e por todas as responsabilidades que vinham com ela.
"No fim, isso drena sua energia", disse ele. "Eu precisava estar focado apenas em treinar e jogar. Cheguei a um ponto em que precisava escapar."
Mas para onde?
Muitos admiradores
AFPSir Alex Ferguson era um grande admirador de Raúl e chegou a cogitar uma investida pelo atacante em 2010
Havia muitas ofertas lucrativas sobre a mesa, incluindo a de um clube russo não identificado que, segundo relatos, chegou a dizer a Raúl para estipular seu próprio preço. Ainda assim, o atacante queria continuar atuando no mais alto nível e, no fim, a decisão ficou entre duas opções: a Premier League e a Bundesliga.
Raúl foi assistir ao ex-companheiro de Real Madrid Fernando Morientes jogar pelo Liverpool e se encantou com a atmosfera "especial" de Anfield, mas foi o Manchester United que realmente considerou a contratação do atacante.
"Em geral, preferimos contratar jogadores jovens, mas, quando surge a oportunidade de contratar um jogador com essa experiência, é preciso analisá-la", admitiu Sir Alex Ferguson posteriormente. "Você pode abrir exceções para certos jogadores, porque experiência é algo muito valioso. Pensamos da mesma forma quando contratamos Michael Owen, que foi um profissional fantástico para nós. Trazer Raúl teria sido parecido com quando contratamos Henrik Larsson por um curto período, alguns anos antes.
"Estava claro que o tempo dele no Real Madrid havia chegado ao fim, mas ele certamente não era velho demais para continuar sendo eficaz. Conversamos com seu agente sobre uma possível transferência, mas, naquela altura, já tínhamos Javier Hernández e, com Wayne Rooney, Dimitar Berbatov e Michael Owen disponíveis, achamos que poderíamos nos dar ao luxo de deixar a oportunidade passar.
"Mas, se não tivéssemos Michael no clube naquela época, eu provavelmente o teria contratado."
“Um profissional tão carismático”
AFPRaúl rapidamente se tornou um dos favoritos da torcida na Veltins-Arena, tanto pelo caráter quanto pela qualidade dentro de campo
Tottenham e Newcastle também ofereciam a Raúl a oportunidade de experimentar a intensidade do futebol inglês, mas o atacante se sentiu mais atraído pela Alemanha, e não apenas por causa dos torcedores. Ele também ficou "fascinado" com o quão "equilibrada" era a Bundesliga naquela época.
No fim das contas, porém, o fator decisivo foi o esforço do Schalke para "me fazer sentir desejado". E era exatamente disso que Raúl precisava. Depois de ser deixado de lado pelo Madrid, ele queria se sentir importante em um projeto esportivo, e o Schalke estava mais do que disposto a oferecer isso.
"É uma grande notícia para o FC Schalke 04", disse o técnico Felix Magath ao site do clube após a contratação de Raúl. "Estou muito feliz por termos conseguido convencer um futebolista tão excepcional e um atacante de nível mundial a se transferir para a Bundesliga e para o Schalke.
"As qualidades de Raúl vão nos ajudar a seguir em frente. Sua contratação representa um passo decisivo em nossos esforços para fortalecer e reestruturar o elenco para as tarefas que temos pela frente, e estou ansioso para trabalhar com um profissional tão agradável."
Raúl provaria ser um "profissional agradável" muito além do que os torcedores do Schalke poderiam imaginar. O espanhol era um ícone global, facilmente um dos rostos mais conhecidos do futebol naquela época e, ainda assim, não poderia ser mais simples.
Raúl era tão humilde quanto trabalhador, com um bônus que fazia toda a diferença: ainda sabia fazer gols. Ele havia perdido parte da velocidade que o tornara tão dominante no início da carreira, mas sua mente continuava tão rápida quanto sempre. Sua movimentação inteligente seguia sendo capaz de criar espaços para ele e para os companheiros.
Como disse seu companheiro de ataque Edu: "Raúl é um jogador que sempre pode fazer a diferença neste nível."
E foi exatamente isso que ele fez pelo Schalke. Repetidas vezes.
"Jogador incrível"
AFPRaúl marcou nos dois jogos da surpreendente vitória do Schalke sobre a então atual campeã Inter de Milão na Champions League
A temporada de estreia de Raúl no Schalke pode ter começado de forma lenta, mas, no Natal, ele já havia marcado dois hat-tricks na Bundesliga. Nem todos ao seu redor estavam no mesmo nível, porém, e Felix Magath acabou demitido em 16 de março. Embora o Schalke estivesse fazendo uma boa campanha na Europa, a equipe enfrentava dificuldades no cenário doméstico.
Nesse sentido, o sucessor de Magath, Ralf Rangnick, não conseguiu mudar muita coisa, e o time terminou a Bundesliga em 14º lugar. A posição, porém, também foi consequência da escolha de priorizar quase exclusivamente as copas na reta final da temporada, e havia um bom motivo para isso.
Depois de terminar na liderança de um grupo da Champions League que contava com Lyon e Benfica, o Schalke eliminou o Valencia nas oitavas de final, com uma vitória por 4 a 2 no placar agregado. Raúl marcou um gol importante no jogo de ida, ao balançar as redes no empate no Mestalla. O que veio nas quartas de final, porém, foi ainda mais impressionante.
A Inter havia começado a temporada de forma desastrosa sob o comando de Rafa Benítez, sucessor de José Mourinho, que acabou demitido pouco antes do Natal. Com Leonardo no comando, porém, a atual campeã europeia havia recuperado o bom futebol e chegava como franca favorita para o confronto com o Schalke no San Siro.
O time de Rangnick, no entanto, surpreendeu em Milão. Mesmo ficando duas vezes atrás no placar, o Schalke venceu por 5 a 2, com direito a mais um gol decisivo de Raúl, que marcou a virada pouco depois do intervalo. O ídolo espanhol também abriu o placar no jogo de volta, na Veltins-Arena, e a equipe alemã venceu por 2 a 1, garantindo a classificação com um impressionante 7 a 3 no agregado.
"Raúl marca nos treinos, marca nos jogos. Ele é simplesmente um jogador incrível", disse Edu.
'Azul e branco para a vida toda'
AFPRaúl marcou 40 gols em 98 jogos durante sua passagem pelo Schalke, em Gelsenkirchen
A histórica campanha do Schalke até a semifinal da Champions League terminou diante do Manchester United de Sir Alex Ferguson. Ainda assim, graças a um gol solitário de Raúl contra o Bayern de Munique, a equipe tinha mais uma final pela frente: a da DFB-Pokal, em seu último jogo da temporada.
Mais tarde, o veterano atacante definiu a goleada por 5 a 0 sobre o Duisburg, em Berlim, como "o ponto alto" de seus dois anos no Schalke, mas apenas do ponto de vista esportivo. Para Raúl, a forma como foi recebido pelo clube e pela torcida foi "melhor do que qualquer título".
"Quando cheguei aqui no verão de 2010", explicou, "eu havia deixado minha casa e meu clube para trás. Não sabia exatamente o que esperar. Por isso, só tenho a agradecer por tudo. Amo o Schalke como se fosse meu próprio filho. É um clube bem administrado, mas também uma família, e uma família da qual tenho muito orgulho de fazer parte."
Ele falava sério. Em sua última partida na Veltins-Arena, Raúl foi às lágrimas por causa de "emoções profundas dentro de você que nem dá para expressar em palavras".
O Schalke, de certa forma, devolveu o sorriso ao rosto de Raúl e fez com que ele se sentisse "como um garotinho de novo", jogando simplesmente pelo amor ao futebol.
"Esses dois anos foram absolutamente extraordinários", disse ele. "Nunca vou esquecê-los. E, talvez, os torcedores também não me esqueçam tão rápido."
Não havia qualquer risco de isso acontecer. Afinal, poucos jogadores conquistam um vínculo tão forte com uma torcida a ponto de, como Raúl, acabarem nas arquibancadas ao lado dos torcedores após uma vitória épica sobre a Inter. E, quando o Schalke foi rebaixado em 2021, o espanhol fez questão de enviar uma mensagem de apoio, declarando: "Azul e branco para a vida toda!"
E não é à toa. Raúl pode ter sido uma lenda viva em Madri, mas foi em Gelsenkirchen que ele realmente renasceu.

