Sorte, coração e na tática: a diferença feita por Pochettino no épico do Tottenham

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(C)Getty Images
Escolhas na última contratação feita pelo clube e na primeira substituição contra o Ajax explicam, um pouco, o caminho até a final da Champions League

Em meio a mais uma noite catártica na qual a classificação para a final da Champions League também foi decidida, assim como havia acontecido nos 4 a 0 do Liverpool sobre o Barcelona, de forma aparentemente milagrosa, com o Tottenham batendo o Ajax por 3 a 2 no último minuto, as declarações do lado vencedor seguiram uma linha em comum: a exaltação do emocional acima de qualquer coisa, até mesmo anulando o lado racional representado pela estratégia.

Afinal de contas, após terem sido derrotados por 1 a 0 em casa, no duelo de ida das semifinais, os Spurs desceram para o intervalo, nesta quarta-feira (08), derrotados por 2 a 0. Seriam necessários três gols para avançar a uma inédita decisão, e o goleador Harry Kane, ainda lesionado, não deixaria os camarotes da Johan Cruyff Arena.  Mas o brasileiro Lucas Moura apareceu como grande salvador da noite: destro, ele arrematou com a perna canhota três vezes para o fundo das redes defendidas por Onana. Jamais um hat-trick havia transformado derrota em vitória nas semifinais de Champions League, e o gol de classificação mais tardio na história do torneio, marcado aos 96’, impedia qualquer leitura analítica mais equilibrada. Normal.

Até mesmo o técnico Mauricio Pochettino exaltou o coração acima da estratégia: "O espírito do time foi incrível. Nunca desistiu. A crença e fé foram os princípios para esta vitória. Não foram as táticas, as substituições ou como mudamos a forma de jogar. Foi a crença e a fé. É uma sensação espetacular", disse após o término da partida. Em jogos épicos, como este ou como a goleada do Liverpool que, um dia antes, reverteu a vantagem de 3 a 0 do Barcelona, o emocional decide. A confiança, a fé, a crença de que não existe o impossível são elementos presentes no esporte e na vida. Mas também precisamos falar sobre a base que ajuda a potencializar este lado emocional, e as escolhas de Mauricio Pochettino – ao contrário do que ele mesmo falou – foram essenciais para levar os Spurs à sua primeira final de Champions League.

Pochettino está em sua quinta temporada como treinador do Tottenham e seus resultados são espetaculares, especialmente quando levamos em consideração a expectativa do clube. Desde então, ainda que não tenha refletido isso com títulos, os Spurs mudaram de patamar na Premier League. Mas é nesta atual temporada em que o trabalho do argentino mais salta aos olhos. Afinal de contas, se não perdeu seus grandes destaques – como acontecia em um passado recente – a equipe londrina também não contratou ninguém. Disputa o exigente calendário inglês com um elenco reduzido. Uma consequência disto são as lesões, como a que tirou Harry Kane de combate talvez até o final desta temporada.

Para remediar esta dificuldade, Pochettino teve dois trunfos em seu trabalho: a busca para dar à sua equipe uma grande gama de variações táticas ao longo da temporada e a polivalência em alguns de seus jogadores – especialmente os de ataque. Apenas nesta campanha, o Tottenham já entrou em campo com os mais variados esquemas táticos: 4-2-3-1, 3-5-2, 4-4-2 e suas variantes. No primeiro encontro contra o Ajax, em seu novo estádio, os Spurs foram escalados com três zagueiros. Nesta quarta-feira (08), começaram em um 4-4-2 losango que no primeiro tempo teve até um desenho semelhante ao 4-2-2-2 muito utilizado no Brasil especialmente nos anos 90.

A ausência de David Neres, por causa de estiramento muscular, também ajudou. O Ajax perdeu na capacidade de aumentar a sua velocidade e decidir através do drible. O técnico Erik Ten Hag precisou deslocar Tadic, o seu jogador mais avançado nos melhores momentos desta campanha, para a ponta-esquerda onde deveria estar o brasileiro. Dolberg foi para o ataque e os holandeses ficaram menos imprevisíveis. O zagueiro De Ligt abriu a contagem em cabeçada desferida após escanteio e Ziyech ampliou. Precisando de gols desesperadamente, Pochettino tirou Wanyama, o seu volante mais recuado, e colocou o centroavante Fernando Llorente – que deu maior profundidade aos ingleses, atraindo e segurando os zagueiros adversários.

Lucas Moura e Heung-min Son recuaram um pouco, sem perder a agressividade. Em campo, algo parecido a um 4-1-2-3 (com Eriksen da direita para o centro e Dele Alli fazendo papel semelhante do outro lado). Se Neres estivesse em campo até poderia aproveitar os espaços que apareciam pelos lados do campo no time de Pochettino, mas o “se” não ganha jogo. Em seu primeiro e terceiro gols, Lucas entrou na área como um raio, aproveitando os espaços que Llorente abria. O segundo teve um quê de sorte ao conseguir fazer a bola passar por uma dezenas de pernas que estavam no meio do caminho. A sorte também esteve presente quando uma finalização de Ziyech acertou a trave do goleiro Lloris.

Talvez quando duas equipes tão bem treinadas se enfrentem, estes fatores possam decidir mais do que os nossos olhos possam perceber. Mas a importância no trabalho e nas decisões tomadas por Mauricio Pochettino nos últimos confrontos do Tottenham na Champions League fizeram a diferença. A entrada de Llorente catalisou a melhora da performance da equipe, que triplicou o seu número de finalizações (saltou de 6 para 18) no segundo tempo e conseguiu fazer juntar o histórico com o épico. Tudo isso graças aos gols da última contratação feita pelo clube que não contratou na atual temporada: Lucas Moura decidiu.

"Estamos falando sobre destino. Mas eu não acredito nisso só porque é uma palavra bonita. Eu acredito, em primeiro lugar, quando você trabalha muito duro. Depois que você faz isso, e se você for honesto, acho que você será recompensado. Cedo ou tarde a recompensa chega", lembrou também Pochettino.

A recompensa chegou, mas pode ser ainda maior após a finalíssima europeia contra o Liverpool.

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