Conte foi avisado: é Ramos quem comanda os bastidores do Real Madrid

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Getty / Goal
Ao longo dos anos no Real Madrid, o capitão dos Blancos demonstrou que é melhor estar do seu lado do que contra ele

Nos momentos finais do curto “reinado” de Julen Lopetegui no Real Madrid, o capitão do time (e um dos jogadores mais influentes do grupo) Sergio Ramos foi questionado sobre seu apoio ao antigo comandante. Foi uma tentativa de apaziguar os ânimos em meio a um dos momentos mais turbulentos do clube em anos recentes.

"Se me pedem uma opinião, eu dou", respondeu o zagueiro. "Mas não acho que uma opinião minha possa influenciar em uma decisão tão importante quanto a continuidade do técnico."

De certo modo, ele mostrou estar certo, já que a demissão de Lopetegui após a goleada sofrida no clássico contra o Barcelona se concretizou mesmo após a demonstração pública de apoio por parte dos jogadores, incluindo alguns nomes de confiança do treinador mesmo antes, quando comandava a seleção espanhola.

Mas Ramos não estava enganando ninguém ao insinuar que sua voz não é uma das mais influentes no Santiago Bernabéu. 

Antonio Conte and Sergio Ramos, Real Madrid
(Foto: Getty Images)

Os rumores que surgiram na última semana de que o defensor poderia “barrar” a contratação de Antonio Conte como o substituto de Lopetegui pareciam perfeitamente plausíveis. Afinal, Ramos já havia demonstrado o que muitos interpretaram como um alerta contra a abordagem notoriamente autoritária do técnico italiano - e que ela não vingaria no Real.

"Respeito é ganho, não imposto", ironizou o zagueiro após a derrota no Camp Nou, que completou, "há treinadores com quem ganhamos títulos e a capacidade de um treinador para gerenciar o vestiário é mais importante do que o conhecimento deles".

De certa forma, a declaração de Ramos é inegavelmente verdadeira quando se trata do Bernabéu, onde Zinedine Zidane seguiu no comando do time impondo seus próprios termos sem autoritarismo. Antes dele, o badalado José Mourinho havia partido em meio a um ambiente de amargura e descontentamento com alguns dos grandes nomes do clube.

Zidane conquistou respeito e destaque pois proporcionou, aos jogadores, a liberdade que ele próprio desfrutou durante a era dos Galácticos. Em contrapartida, Mourinho, mais conflituoso, acabou pagando o preço ao fazer muitos inimigos poderosos no vestiário, entre eles ninguém mais ninguém menos que Cristiano Ronaldo, com quem teve recorrentes desentendimentos.

Na ocasião, Ramos demonstrou publicamente sua insatisfação, já que ele e outros companheiros estavam sendo criticados publicamente pelo 'difícil' profissional português: Mourinho teria repreendido Ramos por uma jogada contra o Barcelona, e o defensor não pensou duas vezes em questionar os conhecimentos do chefe sobre os caprichos da marcação em campo, dado que o técnico nunca jogou futebol profissional de alto nível.

A situação de Mourinho se tornou insuportável no Real, ao ponto do então capitão Iker Casillas e Sergio Ramos pedirem uma conversa franca com o presidente Florentino Pérez, em 2013, e afirmarem: “ele sai, ou nós vamos”. Ninguém confirmou os rumores, e tampouco os desmentiu até os dias atuais.

Mas o que se sabe é que Ramos ainda é uma figura muito influente nos bastidores, e sua força só aumentou desde a saída do lendário Iker Casillas, em 2015. Há 13 anos defendendo as cores do Real, o zagueiro está no clube há mais tempo que Florentino Pérez, ao ponto de se tornar o elo entre o presidente e o vestiário para todo tipo de consulta.

O espanhol se tornou um líder dentro e fora dos campos, o homem que negocia os pagamentos dos prêmios com a diretoria, o defensor mais imponente quando se trata de parar os adversários ou encarar a implacável imprensa de Madrid. Se alguém atacar o Real, Ramos é o primeiro a responder. Também é o primeiro jogador a receber as novas contratações ou jogadores da base promovidos à primeira equipe, principalmente, para deixar claro a eles o que significa jogar pelo Real.

Sergio Ramos Real Madrid Champions League
(Foto: Getty Images)

A torcida do Bernabéu é tão implacável quanto um dos desarmes de espanhol. Mesmo os melhores jogadores podem ser vaiados, e Ramos não apenas sabe, mas aceita a natureza volúvel dos fãs. Foi ele quem defendeu os torcedores por terem como alvo, por vezes, um dos maiores jogadores de todos os tempos do Real: ninguém menos que Cristiano Ronaldo.

"Eu posso entender por que eles vaiam Cristiano. Por que não? Eles também me vaiaram. Eles vaiaram Manolo Sanchís, José Antonio Camacho, Ronaldo, Zinedine Zidane. Os torcedores vaiam todos", declarou Ramos à época.

E os fãs vaiaram, novamente, antes e durante a vitória do último sábado (03) sobre o Valladolid, por várias razões.

A reação dos torcedores será um forte desafio também para o lateral-esquerdo de 21 anos, Sergio Reguilón, que recentemente se desentendeu com Sergio Ramos no treinamento da equipe. Feito que o próprio defensor esclareceu ter superado, em suas redes sociais.

Não é surpreende que alguns fãs tenham uma visão obscura de sua aparente oposição à contratação de Conte, um técnico renomado por sua abordagem autoritária, disciplinada e organizada.

Na vitória deste sábado (03), Ramos recebeu aplausos dos torcedores ao marcar o segundo e último gol do time durante a vitória crucial e moral. Não é que o defensor seja imune as críticas: como o 'vilão número um' do futebol na atualidade, o zagueiro é mais capaz de lidar com elas do que a maioria.

Ramos é respeitado por sempre enfrentar a imprensa depois de um mau resultado. Sempre tem muito a dizer, o que por vezes o levou a se envolver em algumas disputas públicas ao longo dos anos - em geral, com o ex-companheiro de seleção, Gerard Piqué.

Pique FC Barcelona Sergio Ramos Real Madrid El Clasico 23122017
(Foto: Getty Images)

As declarações de Ramos nunca foram bem recebidas em Barcelona, ​​principalmente, quando se tratava de escolher um novo capitão para a Espanha. E entre Ramos e Piqué, o novo técnico da Fúria, Luis Enrique, não teve problemas em dar a braçadeira de capitão para o atleta do Real. 

"Ramos é um grande líder em qualquer situação, uma pessoa que joga a equipe para frente. Estou muito feliz com ele. Eu esperava um nível muito alto, mas, neste caso, ele superou minhas expectativas", disse Enrique na ocasião.

Ramos pode ser um personagem rigoroso em campo, mas está disposto a fazer as pazes para o bem da equipe.

Ele pode ser contra a nomeação de Conte, já que foi favorável a Lopetegui, cuja demissão como treinador da Espanha também o enfureceu, mas não significa que Ramos tornaria a vida do italianos difícil caso assumisse o cargo.

As contratações dos treinadores anteriores podem não terem sido do agrado de Ramos, mas o zagueiro seguiu firme para ajudá-los a ter sucesso no clube.

Essencialmente, ele é o mesmo tipo de capitão como é de jogador: um vencedor em série, mas um mau perdedor. Assim, é sempre muito melhor tê-lo ao seu lado do que contra você. E Antonio Conte foi avisado - agora, pelo próprio Sergio Ramos.

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