“Me chamou, abraçou e pediu para que aliviassem comigo”.
André Catimba guarda com carinho quando Diego Maradona, aos 19 anos, se revoltou com os gritos racistas durante uma partida contra o River Plate, em Buenos Aires, e resolveu defendê-lo dentro de campo.
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Já veterano, com 34 anos, o ex-atacante de Vitória, Bahia, Grêmio e Guarani foi o primeiro brasileiro a jogar ao lado do craque argentino. Estiveram juntos no Argentinos Juniors em 1980. Sofreram e comemoram muito.
“O racismo na Argentina era pesado, não foi nada fácil. Ouvi muito ‘macaco’, ‘preto’, ‘urubu’, ‘volta para o Brasil’…”, recordou.
“Mas eu não deixava por menos. Respondia: ‘O meu país tem praia, tem mulher bonita, tem samba. Vocês saem daqui para irem lá curtir o nosso Carnaval. O Diego [Maradona] dava sempre risada”, completou, em entrevista à Goal.
A admiração por Maradona, na verdade, surgiu logo no primeiro treino. O brasileiro, que carrega no currículo títulos estaduais (baiano e gaúcho), rapidamente ficou encantado com a personalidade do jovem companheiro, que, no ano seguinte, acabou sendo negociado com o Boca Juniors.
“Vi ele a primeira vez com a bola nos pés e pensei: ‘Esse menino está de brincadeira! Tudo isso é mentira!’. Não dava para saber qual era a posição dele, corria o campo todo. Pegava a bola do nosso goleiro e driblava a equipe toda, de um gol até o outro. Era o dono do time, resolvia tudo sozinho”, destacou.
“Olha, vou te contar, recebi várias assistências do Diego. Passava fácil por todo mundo, inclusive o goleiro, parava na linha do gol e rolava a bola para trás: 'É sua!'. Fazia todo o trabalho sujo. Eu ficava até com vergonha de fazer o gol [risos]”, reforçou.
Curiosamente, André Catimba e Diego Maradona nasceram no mesmo dia: 30 de outubro. O baiano natural de Salvador chegou ao mundo em 1946, enquanto o argentino de Lanús, que chocou o mundo ao falecer na última quarta-feira, em 1960.
“Comemoramos um aniversário juntos em Guayaquil, durante uma excursão no Equador. Saímos e, por coincidência, conhecemos duas garotas da Bahia no bar. Ele, como sempre, pagou a conta toda. Tinha esse defeito danado, pagava tudo para todo mundo. Depois, no hotel, me deu ainda um relógio, um presente que guardo até hoje. Virou herança de família, vai ficar para o meu filho”, contou.
Aposentado e afastado do futebol, André Catimba, hoje com 74 anos, vive na capital baiana e tem um orgulho enorme de ter participado no processo de amadurecimento de Maradona.
“Ensinei o Diego a sambar [risos]. Tentei passar, acima de tudo, a importância do respeito, de respeitar o próximo. Até agora não estou acreditando que ele morreu... Que seja muito bem tratado por Deus, porque ele merece. Foi um lutador. O problema dele, talvez, foi ter sido muito alegre”, finalizou, com um nó na garganta.
