Por que os Estados Unidos são tão dominantes no futebol feminino? A resposta pronta aponta para o trabalho de base. Mais de 1,5 milhão de jogadoras com menos de 18 anos são registradas no país, valor correspondente a 0,4% da população. A estimativa da Fifa é que 9,5 milhões de mulheres joguem futebol na região. O país tão celebrado na modalidade, no entanto, já apresenta suas mazelas: baixo investimento na liga, resultados insatisfatórios na base e dúvidas a respeito do futuro da seleção.
Sem respostas honestas para a questão que abre o texto, o melhor mesmo é trabalhar apenas com perguntas: quando os EUA serão superados no futebol?
A base
Os EUA detêm a maior quantidade de títulos do sub-20, empatados com a Alemanha. Foram três conquistas (2002, 2008 e 2012), um terceiro lugar (2004) e duas quartas colocações (2006 e 2016). No entanto, mesmo com seleções de base desde o sub-14, a seleção sub-17 ainda não conquistou nenhum título mundial — bateu na trave em 2008, com um vice.
Sem conquistas recentes, o sub-20 caiu na fase de grupos do Mundial de 2018. O pódio colocou em destaque o campeão Japão, a vice Espanha, França em terceiro lugar e Inglaterra em quarto. Curiosamente, as seleções principais dos últimos três países foram adversárias dos EUA no mata-mata da Copa do Mundo. Todas caíram pelo placar de 2 a 1.
Os EUA podem ser superados pela Europa em alguns anos? O campo da especulação é aberto, mas possível, sim. A começar pela convocação da seleção que atua neste Mundial, mesclando veteranas e novatas, mas com média de idade de 29 anos. Do elenco atual, apenas 11 das 23 convocadas têm menos de 30 anos.
Doze jogadoras estiveram na Copa de 2015 e sete delas também atuaram em 2011, sendo alguns dos nomes mais relevantes do grupo: Carli Lloyd, Ali Krieger, Alex Morgan, Megan Rapinoe, Tobin Heath, Kelley O’hara e Becky Sauerbrunn — todas acima dos 30 anos. Remanescente de 2007, apenas Lloyd, com 36 anos.
NWSL: será isso tudo?
A NWSL, a liga norte-americana de futebol feminino, é a competição com mais representantes na Copa do Mundo: 58 jogadoras foram convocadas para suas respectivas seleções. Isso inclui todo o elenco dos EUA, algo sempre celebrado como fórmula de sucesso na equipe.
Apesar de exaltada, a liga sofre financeiramente para se manter, com apenas quatro patrocinadores: Nike, Cutter (empresa de repelentes), Thorne (companhia de vitaminas esportivas) e o canal televisivo Lifetime. As competições do futebol feminino historicamente não conseguem seguir por muito tempo no país. A NWSL é a terceira liga criada nos últimos 15 anos. Com criação e desmanche frequente dos torneios, as atletas é quem mais se mobilizam pela modalidade.
Existe um limite salarial nas equipes para 421.500 dólares anuais distribuídos por até 20 atletas. O valor mínimo que cada jogadora da lista deve receber por ano é de 16.538 dólares e o máximo é de 46.200 dólares. A liga masculina, em contrapartida, permite que alguns atletas não sejam encaixados nessa regra e recebam mais que o estipulado.
Na contramão, a Europa vem investindo mais na modalidade. Um levantamento feito pelo jornal The Guardian, há dois anos, calculava o salário médio do Lyon em 160 mil euros por ano. O time é seis vezes campeão da Champions League e maior potência europeia da modalidade. Na Inglaterra, em uma liga em ascensão, a média é de 30 mil euros anuais.
O investimento europeu é visível a ponto de os americanos se interessarem em jogar a Champions League, cada vez mais competitiva e decisiva tal qual o modelo masculino. O Orlando Pride emprestou Alex Morgan ao Lyon, por exemplo, durante parte da temporada 2016/2017 da equipe, para que tivesse a experiência de atuar no torneio.
Como, apesar das dificuldades, a NWSL ainda mantém atletas que fazem frente às equipes europeias na Copa do Mundo?
A cultura do esporte universitário
A resposta da pergunta anterior aponta para a força do esporte universitário nos EUA, com competições sólidas que levam muitas das jogadoras à seleção. As bolsas destinadas aos esportistas atraem atletas de todas as áreas, deixando os americanos no topo dos países com bons rendimentos esportivos. Mas, no futebol feminino, as coisas parecem estar mudando.
Das 23 convocadas para esta Copa, apenas duas não passaram pelo futebol universitário: Lindsey Horan e Mallory Pugh. Horan tinha bolsa para jogar pela North Carolina Tar Heels, equipe que formou cinco atletas da seleção. Mas preferiu jogar pelo PSG na França a integrar o circuito universitário. Pugh, por sua vez, rejeitou uma bolsa na UCLA para atuar direto no profissional. É sintomático que as jovens, de 25 e 21 anos, respectivamente, não queiram jogar em nível universitário. Integram uma geração que já não vê retorno no trabalho de base.
A procura pela profissionalização direta ou por experiências fora do país aponta para uma dificuldade na manutenção da base, até então sólida, dos EUA no futebol feminino. A média de idade da seleção nesta Copa, a mais alta da história, preocupa quem tenta vislumbrar um futuro no qual o país se mantenha dominante.
Breve, muito breve, os EUA podem ser ultrapassados pela Europa. Essa geração ainda não chegou, mas está quase lá.
