O corpo não aguenta mais. Implora pela pausa e pelo descanso. O cansaço físico é extremo. No entanto, seguimos em frente. Um impulso, uma vontade, algo nos faz superar tudo para continuar tentando. Algo não nos permite desistir. Pode ser alguém. Pode ser uma promessa. Pode ser um sonho. É o que nos faz continuar e dar o máximo. É o que faz nossa mente e nosso coração vencer o corpo e superar nossos limites.
No caso de Rómulo Otero, foi uma combinação de pessoa, sonho e promessa. O pai, o grande incentivador, o mestre e o ídolo. Quem lhe ensinou tudo e sempre apoiou. O sonho de sair da Venezuela para jogar em outro país e disputar a Uefa Champions League. A promessa de ser o melhor cobrador de faltas da sua terra.
Tudo isso fez o venezuelano se esforçar ao extremo. Em entrevista exclusiva à Goal Brasil, o meia do Atlético-MG revelou o sofrimento e a perseverança para se tornar um jogador cada vez melhor e também contou várias histórias inspiradoras. O garoto que via os ídolos Arango e Robinho pela televisão, passou a jogar e brincar com eles e ser peça fundamental em seu clube e sua seleção.
Bruno Cantini/Atlético-MG(Foto: Bruno Cantini/Atlético-MG)O meia venezuelano do Galo, uma das esperanças da torcida não só para ser campeão mineiro neste domingo (7), mas para voltar a vencer o rival Cruzeiro depois de oito jogos e dois anos de jejum, nesta tarde, no Independência, às 16h (de Brasília), no jogo de volta da final do Estadual, abriu o jogo em entrevista exclusiva à Goal Brasil, e contou muitas coisas interessantes sobre sua história. Confira o bate-papo:
Você está vivendo uma ótima fase no Atlético-MG, com golaços, assistências, gols importantes, sendo letal nas cobranças de falta e foi comprado pelo clube. Como está sendo esse momento?
Estou muito contente pelas oportunidades que o treinador me deu e a confiança que tenho recebido. Graças a Deus estou marcando gols, ajudando o time, que é o melhor ainda e sendo importante. Também estou muito feliz pela compra. Não vou relaxar agora, tenho que melhorar a cada dia e vou dar ainda mais para justificar a compra e fazer ela valer.
O que te fez ter tanta vontade em ser comprado pelo Atlético-MG?
O CT do Galo, a torcida e os companheiros que me receberam muito bem. Acho que me adaptei muito rápido graças também a um companheiro que eu tenho, o Rodolfo, que me ajudou muito na adaptação e no português. A língua faz muita diferença, porque você fala mais também.
Bruno Cantini/Atlético-MG(Foto: Bruno Cantini/Atlético-MG)Fale mais sobre o Rodolfo, esse amigo que tem sido tão importante para você.
Quando eu cheguei, o Erazo, o Pratto e o Cazares me receberam e me ajudaram muito na equipe, mas fora de campo eu tenho esse companheiro, que não é jogador, e tem outras coisas, mas me ajudou muito com o português e a fazer as minhas coisas como ir no banco, fazer compras, cuidar da casa... Graças a ele me adaptei muito mais rápido.
O Atlético-MG é favorito ao título da Libertadores?
Sim, somos um dos favoritos na Libertadores, até pela conquista que já tivemos. Para mim é bom estar em um time bom, que é um dos favoritos. Já joguei a Libertadores com times pequenos, então é bom quando você vai jogar a Libertadores e os adversários te olham com outra cara.
E para o ano? O Galo tem condições de ganhar tudo ou lutar por todos os títulos?
Vamos tentar conseguir títulos. Agora temos a final do Mineiro e vamos tentar ganhar. Depois vamos pensar na Libertadores, depois entrar muito forte no Brasileirão. Nosso objetivo é claro de ganhar. Precisamos ter a concentração de ir partida a partida e ganhar sempre.
Bruno Cantini/Atlético-MG(Foto: Bruno Cantini/Atlético-MG)Vocês preferem ganhar alguma competição em especial, a Libertadores ou o Brasileirão, por exemplo, ou não tem nada disso?
Queremos ganhar todas. Falamos entre nós que queremos ganhar o Mineiro, todos queremos ganhar a Libertadores, queremos ganhar o Brasileirão, queremos ganhar todos os títulos do ano e temos que pensar assim. Mas estamos pensando com calma, partida a partida, para sempre ir ganhando.
Tem alguma inspiração, ídolo ou espelho?
Gosto muito de vários jogadores, principalmente do Ronaldinho. Sempre vi ele jogando e gostei muito. Ídolo não tenho, só Deus e meu pai, que me ensinou muito. Graças a ele, que me ensinou muito, sou o jogador que sou agora e tenho a bola parada e o meu estilo de jogo.
Qual a importância do seu pai não só na sua vida, mas também no seu crescimento como jogador?
Ele tinha uma escola de futebol para crianças, na qual eu sempre treinei e aprendi muito. Cresci lá, sempre treinando. Com 15 anos saí da escola dele e fui para um time profissional, o Caracas, mas minha formação sempre foi com meu pai e ele me ensinou tudo o que eu sei.
Falando especialmente das cobranças de falta, que você já falou da importância do seu pai e também da inspiração no Ronaldinho. Qual o seu segredo? Você treinava muito quando garoto, imagino. Como é agora no Galo?
Quando eu era garoto treinava muito, muito, muito mesmo todos os dias e gostava muito. Eu sempre tive em mente e ainda tenho, a vontade de ser o melhor cobrador de faltas da Venezuela. Todos os dias o meu pai me ensinava a bater na bola e ficava comigo no campo batendo a bola. Agora eu treino também, mas não tanto quanto antes e não todos os dias. Agora eu treino toda quarta, ou então três dias por semana, porque preciso ter um tempo de recuperação que os médicos mandam ter, mas se me deixarem, eu fico batendo falta feliz todo dia, porque gosto muito disso.
Bruno Cantini/Atlético-MG(Foto: Bruno Cantini/Atlético-MG)Quantas faltas você treinava por dia antes e quantas treina agora?
Antes, eu treinava falta umas duas horas por dia de todos os jeitos, pela direita, pela esquerda, pelo centro, de perto, de longe... Agora são 15 minutos (risos). São 15 minutos de um lado e 15 minutos de outro só (risos). Mas não penso que sou um grande cobrador. Aprendo muito com o Cazares e o Fábio Santos, que batem comigo e são grandes cobradores.
Você disse que deseja ser o melhor cobrador de faltas da Venezuela. Na penúltima rodada das Eliminatórias, você marcou um golaço de falta pela Vinotinto, inclusive. Quando surgiu esse sonho? Foi de tanto ver, por exemplo, o Arango batendo faltas com maestria?
Sim. Eu via o Arango, o José Manuel Rey, um zagueiro venezuelano, e graças a Deus, tive oportunidade de estar com os dois e aprender muito. Eles são grandes jogadores, grandes pessoas, e me ensinaram muito, aprendi muito com eles. Foi muito bom para a minha vida e para eu bater faltas desse jeito.
O Arango tem uma importância enorme, talento e qualidade técnica impressionantes e é o maior jogador da história da Venezuela. Significa muito para o continente, mas especialmente para vocês. Como foi para você jogar e conviver com ele?
Eu sempre vi ele como o melhor cobrador de faltas da Venezuela e falei para mim mesmo que queria ser como ele. Eu era criança e sempre via ele na TV jogando na Alemanha e na Espanha, e nunca me imaginei jogando com ele. Então, quando fui pra seleção e ele ficou batendo falta depois do treino, eu fiquei louco pra bater faltas com ele. Vi ele batendo faltas e perguntei se podia bater faltas com ele. Ele deixou, mas disse que quem perdesse ia ter que pagar o almoço. É lógico que eu perdi e paguei, né (risos). Mas para mim foi um prazer treinar com ele e ser companheiro dele na seleção. Ele é um grande amigo e para mim é um enorme prazer.
Aizar Raldes/AFP/Getty Images(Foto: Aizar Raldes/AFP/Getty Images)Imagino que seja ainda mais especial porque você tem a responsabilidade de ser o camisa 10 da Venezuela atualmente e ter herdado o posto do Arango de cobrador de faltas e principal nome da seleção. Como tem sido essa nova fase na Vinotinto? Você tem se saído bem, marcando gols e fazendo bons jogos...
Sim, é verdade. Todos falam comigo que é uma grande responsabilidade. Eu sou o dono das bolas paradas, e quando o Arango era o dono, era sempre gol ou quase, então é uma grande responsabilidade. Vestir a camisa 10 da seleção também era um sonho para mim e estou muito feliz por isso.
Você já tem realizado alguns sonhos. Quais você tem para a sequência da carreira agora?
Graças a Deus estou conseguindo realizar algumas das minhas metas de quando era criança. Já sou profissional, estou jogando na seleção, saí da Venezuela para jogar em outro país. Mas meu sonho de criança mesmo é jogar a Champions League na Europa. Eu preciso melhorar mais ainda para realizar esse sonho.
Tem algum time ou país em especial que você deseja jogar?
Sempre gostei do Real Madrid. Sempre vi o Robinho jogando no Real Madrid e nunca pensei em ser companheiro dele. Não tenho um time assim... Eu gosto do Real Madrid, mas não penso duas vezes se tiver a chance de ir para a Europa.
Getty(Foto: Pedro Vilela/Getty Images)Você falou do Robinho... Como foi chegar para treinar e ver ele, que você sempre via pela televisão e era um de seus ídolos?
Quando eu cheguei pela primeira vez no Galo, eu cumprimentei todo mundo, mas não vi ele. Ele me viu e veio me cumprimentar. Eu fiquei olhando pra ele o tempo todo, sabe? Meio bobo. Eu jogava videogame com ele, assistia ele na TV no Real Madrid e é um craque. Estar com ele no vestiário, com ele perto, brincar com ele, falar com ele, é algo que eu nunca imaginei na minha vida.
Como é a relação com o Robinho, que adora uma resenha e é muito brincalhão?
(Risos). Ele é um grande jogador, uma grande pessoa e por tudo o que ele fez e conquistou, ele tem uma humildade enorme, brinca com todo mundo, zoa todos os companheiros. Ele me chama de anão (risos), brinca comigo o tempo todo. É muito bom ter companheiros assim, porque isso foi muito bom para a minha adaptação. É ótimo ter companheiros como ele.
Bruno Cantini/Atlético-MG(Foto: Bruno Cantini/Atlético-MG)E fora de campo, o que você gosta de fazer?
Eu sempre fico em casa, tenho um cachorro e fico sempre com ele. Gosto de jogar videogame, de tarde eu sempre fico jogando, também gosto de assistir filme. Fico em casa mesmo, não gosto muito de sair. Saio para o shopping, mas só vejo filme em casa, por exemplo. De comida, eu gosto de pizza, McDonald's, que levo bronca do preparador físico e do nutricionista (risos). Não sou muito de sair, não sei se é bom, mas acho isso muito bom para mim.
Você falou de videogame... Quais você gosta de jogar e é melhor? Já jogou contra a turma no Atlético-MG? Levou a melhor?
Nunca joguei videogame com a turma aqui no Galo, mas já vi vídeo aí do Fred perdendo (risos). Eu gosto de futebol, mas gosto mais de jogos de tiro, e posso passar dias jogando esse videogame (risos).
Qual o nome do seu cachorro? E os outros gringos do Galo, Cazares e Erazo, por exemplo, são bons dançarinos. Você se arrisca nisso também ou deixa para os dois?
(Risos). Gosto de tudo, principalmente de reggaeton, mas sou um dançarino mais ou menos, não sou bom como o Cazares não (risos). Meu cachorro se chama Scorpion, sempre estou com ele e gosto muito dele.
Por que o nome Scorpion?
Meus amigos na Venezuela me chamam de Scorpion. Eu não sabia qual nome colocar nele, e minha irmã me mandou uma mensagem falando para colocar o nome de Scorpion, aí coloquei. Todo mundo fala que é um nome bem diferente (risos).
Por que você tem esse apelido diferente? Como surgiu essa história?
Quando eu fui fazer meu primeiro jogo como profissional, eu tinha 16 anos. Não fiz gol, mas joguei bem, e eu era ainda mais baixinho (risos). Aí, no dia seguinte, no jornal, saiu uma nota falando: 'Rómulo Otero é igual um escorpião, pequeno, mas perigoso'. Todo mundo começou a me chamar assim, pegou, e eu gosto, minhas redes sociais todas tem o nome de 'Scorpion Otero'. Todo mundo acha isso diferente e eu gosto.




