A verdade sobre a ida de Maradona ao Napoli

Diego Maradona Napoli
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Corrado Ferlaino, o presidente que o levou à equipe italiana, recorda exclusivamente à Goal como convenceu o Barcelona a vendê-lo


REPORTAGEM ESPECIAL

Em maio de 1986 Diego Armando Maradona não estava mais feliz em Barcelona. Depois de dois anos em que não quis ouvir nenhuma oferta, sentiu-se traído pela diretoria do clube catalão, que César Menotti, o técnico, ameaçou não renovar se não se livrasse primeiro de Maradona. A diretoria escolheu ouví-lo - embora o treinador argentino também fosse deixar o clube mais tarde - mas ele não pôde admitir em público que um de seus astros estava à venda. Foi então que chegou a proposta do Napoli, não para comprar Maradona, mas para propor um amistoso em Nápoles. Com Maradona, é claro, embora a ideia fosse ele tocar no San Paolo com a camisa do Barça. A história era muito diferente.

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"O Barcelona concordou em jogar essa partida", lembrou Corrado Ferlaino, presidente do Napoli desde 1969, exclusivamente para a Goal. "Perguntamos então se Maradona viria e eles nos disseram que não, que ele estava doente". O Barcelona não queria uma lesão e, sendo que uma grave havia acontecido há pouco, que pudesse comprometer sua possível saída milionária. Mas "isso nos surpreendeu", admite Ferlaino, que convidou o Barcelona a Nápoles para que seus torcedores pudessem desfrutar, ainda que por pouco tempo, do talento daquele jovem argentino de apenas 23 anos que ia encantar o mundo. Ferlaino pegou o telefone e contactou o agente do argentino. Só para prevenir.

Jorge Cyterszpiller, empresário de Maradona, negou categoricamente que ele estivesse lesionado. "Ele me disse que se eu não jogasse era mais porque ele estava com raiva da administração do Barcelona". O engenheiro tinha isso claro desde o primeiro momento. Se Diego não estava feliz no Camp Nou e ainda ninguém sabia, talvez houvesse uma chance de contratá-lo. Ferlaino disse ao Barcelona para esquecer o amistoso e "perguntei se havia a possibilidade de tratar da transferência de Maradona", cujo confronto com a direção havia entrado numa fase de não retorno. Mesmo assim, "um dia eles estavam me dizendo que sim e no dia seguinte, não", disse Ferlaino. Se Maradona conseguiu ir ao Napoli foi porque ele queria, mesmo que descobrisse mais tarde que a equipe havia lutado pela permanência na temporada que estava apenas terminando. "A postura de Maradona foi decisiva para chegar, ele estava tão determinado a fazê-lo quanto a deixar Barcelona" naquela época.

Entretanto, não foi fácil satisfazer Josep Lluís Núñez, presidente do Barcelona e um dos maiores apoiadores da continuidade de Diego, mas os enviados de Napoli, Antonio Iuliano e Dino Celentano, conseguiram fazer o Barcelona relaxar. "Até o último momento não tínhamos nada claro de que ia fechar, inclusive no mesmo dia em que fechamos o contrato, o Barcelona nos chamou para nos dizer que eles não queriam mais  transferir Maradona, mas no final o fizemos", cerca de € 8 milhões (à taxa de câmbio atual), o que foi um valor recorde no mundo do futebol. Era 29 de Junho de 1984, uma data que se tornou histórica em Nápoles. Começou a época mais gloriosa da sua história, que durou até 1992, quando o menino de ouro partiu para Sevilha.

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Foram seis anos em que Napoli foi construído em torno do melhor de todos os tempos, pelo menos até a chegada de um Lionel Messi que conseguiu estabelecer o debate sobre quem se senta no topo do mundo do futebol. "Construímos gradualmente a equipe em torno de Maradona", mesmo que isso significasse se livrar de estrelas da época anterior, também da Argentina, com as quais Maradona não se misturava bem. "Tivemos outro argentino chamado Daniel Bertoni que não se encaixava muito bem". O mesmo time que sofreu pela permanência ficou em terceiro com Diego e, no ano seguinte, conseguiu o primeiro e único bicampeonato na história do clube.

Ferlaino assume sem nenhum problema que aquele foi o Napoli de Maradona, mas esclarece que em nenhum caso foi o jogador que decidiu as transferências, como ele veio a dizer. "Isso não é verdade", disse o ex-presidente do clube italiano, lembrando que "ele não conhecia os jogadores que contratamos, talvez Ricardo Alemão porque jogou na Espanha, mas não conhecia Antonio Careca, Salvatore Bagni e outros". Seja como for, de sua mão chegaram dois Italianos, uma Coppa e até uma Copa da UEFA, o primeiro título internacional de um Napoli que, nesta terça-feira, recebe o Barcelona em uma partida que emociona, principalmente,  Messi, pelo contrato que Ferlaino assinou com Maradona que distante 29 de junho de 1986.

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