Nesse sábado (11), o jornal inglês The Sun publicou uma carta anônima de um jogador da Premier League, que revelou ser gay. Embora não revele sua identidade, o atleta em questão falou da dificuldade que é conviver em um ambiente tão repressor, preconceituoso e homofóbico como é o futebol. Ele diz não ter falado sobre o assunto nem para seus companheiros de time ou até mesmo o treinador e afirmou que isso tem afetado sua saúde mental.
"Sou gay. O mero feito de escrever as seguintes linhas já é um grande passo para mim. Mas só minha família e um reduzido grupo de amigos sabe disso. Não me sinto preparado para compartilhar com meus companheiros e meu treinador. Como viver assim? O dia a dia pode ser um pesadelo completo. Cada vez afeta mais minha saúde mental. Me sinto aprisionado e meu grande medo é de que se eu revelar a verdade sobre o que sou apenas piore as coisas", lê-se em um trecho da carta anônima.
Na história da Premier League (nova fase do campeonato inglês), apenas dois jogadores se assumiram homossexuais: o estadunidense Robbie Rogers e o alemão Thomas Hitlzberger. Atualmente não há nenhum jogador assumidamente homossexual no futebol inglês, nem no Brasil.
A carta, revelada pelo The Sun, foi entregue por Amal Fashanu, que preside a Justin Fashanu Foundation, uma instituição de apoio a atletas homossexuais do Reino Unido fundada em 2018. Amal é sobrinha de Justin Fashanu, que leva o nome da fundação.
Quem foi Justin Fashanu?
GettyJustin Fashanu no Norwich (Foto: Getty Images)
Justinus Soni Fashanu foi um atacante inglês, que teve seus principais momentos nas décadas de 1970 e 1980. Ele foi o primeiro jogador abertamente homossexual da história do futebol inglês.
Fashanu surgiu como uma promessa no final da década de 1970, quando atuava pelo Norwich, clube que o revelou para o futebol. Com o sucesso nos Canários, e após marcar o que foi considerado o gol mais bonito da temporada 1979/80, Fashanu foi vendido ao lendário Nottingham Forest, de Brian Clough.
Sem o mesmo sucesso que no clube amarelo e verde, Fashanu passou por vários times desde então. Brighton, Notts County, Manchester City, Southampton, West Ham e outros.
Em 1990, Fashanu assumiu publicamente sua homossexualidade em uma entrevista ao mesmo jornal The Sun. A partir desse momento, começou a sofrer com o preconceito de colegas de time e até mesmo da sua família: o irmão John chamou-o publicamente de "pária".
Em 3 de maio de 1998, após ser acusado sem provas de pedofilia, Justin Fashanu se suicidou por enforcamento, em Shoreditch, bairro de Londres.
Legado de Fashanu e violência contra LGBTQIA+
Desde então, Fashanu tem sido um símbolo importante na luta contra a homofobia no futebol. Sua morte trágica se tornou um exemplo de como a opressão de um sistema e de um ambiente pode afetar a vida de um ser humano com orientação sexual não heteronormativa.
Em 2020, 22 anos após o suicídio de Fashanu, o Hall da Fama do Museu do Futebol Nacional decidiu colocar o ex-Norwich no seleto grupo de atletas que representam o esporte bretão.
O Norwich, que acabou sendo rebaixado nesse sábado (11) e voltará para a segunda divisão, ostentou com orgulho uma enorme bandeira com o nome do jogador e o número 9 usado por ele, com as cores do arco-íris. A bandeira foi colocada atrás de um dos gols do Estádio Carrow Road nesse período que o futebol mundial realiza os jogos sem a presença de torcedores no estádio.
A Premier League lançou há alguns anos a campanha "Rainbow Laces", que visa trazer mais notoriedade à causa LGBTQIA+, em uma tentativa de mostrar apoio da instituição aos não heterossexuais. Símbolos e cadarços nas cores do arco-íris são usadas durante um mês no campeonato inglês.
O capitão do Watford, Troy Deeney afirmou recentemente que "há pelo menos um jogador de futebol gay ou bissexual em cada time de futebol. Eles estão lá, estou 100% certo de que é assim".
Mesmo com campanhas de conscientização e informações sendo distribuídas, a homofobia ainda mata muito ao redor do mundo. De acordo com o The Guardian, no Reino Unido os crimes de ódio contra LGBTQIA+ aumentaram 144% entre 2013 e 2018. Em parte isso se deve ao fato de que a população tem sido encorajada a denunciar os crimes, mas só mostra a face mais preconceituosa que ainda impera em todos os cantos do planeta.
