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Kaiser filme 16 11 2018Divulgação

Carlos Kaiser, a personificação do Fake News antes mesmo da internet existir

O futebol brasileiro possui uma lista quase infindável de personagens folclóricos, mas segundo o diretor de cinema Louis Myles nenhum deles chega aos pés de Carlos Kaiser, “o maior jogador de todos os tempos que jamais jogou futebol”.

A opinião do inglês é bem embasada, afinal de contas Louis foi o diretor de um documentário já exibido na Inglaterra e que chega ao Brasil em 2019 a respeito de Carlos Henrique Raposo, o Carlos “Kaiser”, personagem que voltou recentemente aos holofotes da imprensa por ter passado por clubes como Botafogo, Flamengo, Vasco, Bangu e sabe lá Deus onde mais sem jamais ter chutado uma bola.

Gaúcho de origem humilde, Kaiser é um dos melhores exemplos da categoria ‘anti-herói’: ganhou a vida com o dinheiro de contratos e luvas, gastos por clubes na esperança de que ele fosse tão bom com a bola nos pés quanto o seu estilo boleiro dava a entender. O seu problema era a falta absoluta de habilidade com a esfera. Materiais sobre a bizarra história já haviam recebido atenção na mídia nacional e chegaram aos ouvidos de Myles depois que um amigo leu a respeito de “Kaiser” em uma famosa rede social.

“Quando eu soube da história, não pude acreditar! Um cara que teve uma carreira de 26 anos sem ter jogado”, diz Louis em entrevista exclusiva para a Goal Brasil. “É uma história bem brasileira, sabe? E qualquer pessoa do mundo gostaria de conhecê-la”, completa.

Contá-la, entretanto, foi o maior desafio da produção, que entrou em contato com este verdadeiro “Saci Pererê” da bola (nas palavras do próprio Myles, que mergulhou a fundo na cultura brasileira a ponto de dominar o idioma). Além de buscar uma forma de explicar ao mundo o conceito de “malandragem”, os fatos precisavam ser minuciosamente checados, uma vez que até hoje Kaiser seguia com um discurso que abria espaços para desconfianças.

Bebeto Zico Carlos Alberto 16 11 2018Alguns dos craques que relembram as histórias de Carlos Kaiser (Foto: Divulgação)

O resultado final (o documentário intitulado “Kaiser: The Greatest Footballer Never to Play Football”) é um retrato bastante fiel da sociedade carioca dos anos 80 e 90, com incrível riqueza de imagens e representações fiéis para ilustrar episódios épicos sobre como Kaiser usava a lábia para não entrar em campo. Depoimentos de Bebeto, Carlos Alberto Torres, Júnior Negão, Maurício, Zico, Júnior e outros nomes famosos do futebol ajudam a mostrar o quanto Carlos era popular e querido entre os boleiros.

Mas a figura central que em última instância leva a narrativa do filme a um lado surpreendente é Renato Gaúcho. O atual treinador do Grêmio era a inspiração maior de Carlos, algo evidenciado em seu estilo e nos cabelos. A amizade entre eles, inclusive, começou quando Renato soube que Kaiser conseguia mulheres e passagem livre em noitadas passando-se por ele.

Kaiser Renato Gaúcho 16 11 2018Renato e Kaiser, carinho que perdura até os dias atuais (Foto: Divulgação)

Entre histórias hilárias – como a ‘volta’ dada no contraventor Castor de Andrade, no Bangu – a narrativa de repente ganha um peso inesperado, mas que ajuda a explicar um lado trágico que está atrelado às mentiras e, acima de tudo, à repetição delas ao nível de fazer com que o próprio personagem pareça acreditar na ficção criada por ele próprio. Décadas antes do conceito de “Fake News” existir como é atualmente, Kaiser personificou isso para alimentar as suas histórias e ludibriar dirigentes.

“Começamos este projeto antes de Fake News ser um conceito. Ainda não sabíamos o que era verdade e o que não era. Ficamos em um jogo de gato e rato buscando as informações corretas”.

Kaiser filme 16 11 2018O filme mistura depoimentos e reportagens a representações do jogador (Foto: Divulgação)

“Ele criou um incrível network no qual ele conseguia o que queria, mas também dava muito a outras pessoas. O que ele queria em troca eram contratos em clubes ou que atestassem as histórias dele. E as pessoas acreditavam!”, explica Myles. O diretor também não acredita que o ‘Fake Futebolista’ seja uma pessoa ruim, mas relata as diferentes reações do público a cada exibição de seu documentário.

“As pessoas não sabem quando ele está ou não falando a verdade. Então as reações são diferentes em todas as vezes. A forma como ele pode manipular cada situação é incrível. Se existisse agentes de futebol nos anos 80, ele teria sido melhor do que o Jorge Mendes é hoje”, relata Myles. “Kaiser poderia ter sido um traficante, ter tido uma vida muito ruim. Ao invés de fazer isso ele fingiu ser jogador de futebol. Enganou algumas pessoas, alguns clubes e viveu a sua vida, mas no final das contas ele não é mal”.

Renato Gaúcho filme 16 11 2018DivulgaçãoRenato Gaúcho também concedeu depoimentos para o documentário (Foto: Divulgação)
Carlos Kaiser 16 11 2018DivulgaçãoKaiser e uma narrativa que acabou por surpreendê-lo... justamente pela verdade (Foto: Divulgação)

“Para o Brasil, acho que é uma história interessante. Vocês têm esse grande mentiroso, mas no final mostra um lado ruim do Rio, da sociedade, ao mesmo tempo em que mostra um lado bom, das pessoas, as pessoas que ajudam o Kaiser”, completa o diretor, citando Renato Gaúcho como um grande exemplo dentre as pessoas que tiveram atitudes admiráveis em relação a Carlos Henrique Raposo.

No final das contas, a impressão é de que Kaiser (cuja explicação do apelido sintetiza muito bem a sua ficção feliz da realidade triste) não é herói, vilão e nem mesmo vítima em sua história: é um produto de uma sociedade que tem muito a evoluir até fazer com que as pessoas consigam lidar, de forma digna, com as suas realidades. O final feliz é de que, por mais forte que seja a mentira, a esperança faz com que a verdade sempre venha à tona.

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Perguntas frequentes

A primeira edição do Campeonato Brasileiro por pontos corridos foi disputada em 2003, ano em que o Cruzeiro se sagrou campeão.

Não. Em 2003 e 2004, o Campeonato Brasileiro tinha 24 times, número que baixou para 22 na edição de 2005. Desde 2006, 20 equipes participam da Série A do Brasileirão.

Desde 2016, os seis melhores times do Brasileirão garantem uma vaga na Copa Libertadores do ano seguinte, sendo que os quatro primeiros vão diretamente para a fase de grupos e os outros dois disputam a pré-Libertadores.

Considerando toda a história do Campeonato Brasileiro, Roberto Dinamite, com 190 gols em 328 jogos, é o maior goleador da competição.

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