Brandi Chastain deu uma Copa aos EUA, tirou a camisa e marcou o futebol feminino

Comentários()
getty

Quando viu a bola entrar no canto superior direito do gol, Brandi Chastain soltou um urro de comemoração e tirou a camisa. A meia da seleção dos Estados Unidos acabava de garantir o título da Copa do Mundo de 1999 ao converter o quinto e último pênalti diante da China. Rodou o uniforme acima da cabeça, caiu de joelhos no chão e flexionou os braços em sinal de vitória. Imagem que ficou eternizada na história do futebol feminino não pela atuação da camisa 6, mas sim porque a jogadora estava apenas de sutiã no gramado.

Quer ver jogos ao vivo ou quando quiser? Acesse o DAZN e teste o serviço por um mês grátis!

O top esportivo à mostra correu o mundo, rendendo críticas, elogios e até teorias de que o gesto havia sido combinado com o patrocinador esportivo da seleção. Chastain sempre rechaçou a última possibilidade, garantindo a espontaneidade do ato tanto quanto qualquer homem que tirasse a camisa na mesma situação.  

"Foi um momento de insanidade, nada mais, nada menos", diria depois sobre o gesto. "Eu não pensava em nada. Só repetia que aquele era o melhor momento da minha vida no futebol."

Titular na campanha que levou ao título -- o segundo da história dos EUA --, Chastain celebrava a vitória em casa, no seu estado natal da Califórnia, para um público de mais de 90 mil pessoas -- recorde nunca superado na modalidade. Palco da final do Mundial feminino, o estádio Rose Bowl, em Pasadena, fica a 548km de San Jose, cidade onde ela nasceu e iniciou sua trajetória esportiva.

Brandi Chastain

A descoberta da canhota

Aplicada no balé durante a infância, a garotinha preferia correr a brincar de boneca. Começou no futebol aos oito anos de idade, com o pai como técnico e incentivador, e aos onze descobriu a habilidade de chutar com a canhota. A força na perna esquerda, ainda que fosse destra, a marcaria como atleta ao longo dos anos, sendo uma de suas principais características na seleção. No primário, jogava entre os garotos por falta de meninas com quem treinar. Já mais velha, ganhou três títulos estaduais consecutivos em campeonatos escolares.

No esporte universitário, fortemente valorizado no país, atuou como atacante na Universidade da Califórnia. Uma série de lesões, que a obrigaram a operar os dois joelhos, a deixou fora do esporte por dois anos e meio. Mais tarde, Chastain descreveria a experiência como uma das mais difíceis da sua vida, o que a levou a pensar em desistir da carreira. Acabou retornando, transferida para a Universidade de Santa Clara, e atraiu a atenção da seleção americana.

Defendendo o país, passou a atuar mais recuada, com a versatilidade de jogar tanto na zaga quanto no meio-campo. Foi convocada para a Copa de 1991, a primeira da história do futebol feminino, e viu, a nível mundial, as facetas de uma modalidade que ainda lutava pelo reconhecimento. Os EUA apresentavam estrutura melhor do que a de muitas equipes, com direito a cozinheiro particular para acudir as atletas dos fortes temperos da culinária na China, país-sede do Mundial. No entanto, na volta para casa após a conquista do primeiro título, um lembrete de que ainda havia chão na briga pelo reconhecimento: apenas três pessoas foram recepcionar o time no aeroporto.

Entre o sonho e a mágoa

A jogadora acompanhou a campanha que levou ao título do banco de reservas, situação que a deixou frustrada. O descontentamento com a seleção só aumentaria no ciclo seguinte: Chastain levou um susto ao não encontrar o próprio nome entre as 23 convocadas para o Mundial de 1995. "O silêncio pode ser sufocante", desabafou em artigo do The Players Tribune, insinuando não ter recebido nenhum indicativo de que ficaria fora da lista.

Brandi Chastain

Magoada, em circunstância que descreveu como “das mais dolorosas” que viveu, ponderou se retornaria à equipe mesmo quando, no ano seguinte, o treinador Tony Dicicco a convocou novamente. A decisão da atleta passou por grande dilema: em 1996, as jogadoras da seleção ameaçavam uma greve enquanto reivindicavam salários mais justos. Chastain se dividia entre a solidariedade com as colegas, muitas delas suas amigas, e a oportunidade de vestir novamente a camisa da seleção. Optou por se dar nova chance e integrou o elenco que seguiu para a Olimpíada de Atlanta, naquele mesmo ano.

O ciclo olímpico não passou sem medalhas. Foram três, uma para cada disputada: duas de ouro (Atlanta-96 e Atenas-2004) e uma de prata (Sidney-2000). Seu melhor momento frente à equipe, no entanto, ainda estava por vir.

A redenção

Depois de uma Copa no banco e outra sem sequer ter sido convidada, Chastain retornou ao torneio como titular para uma das campanhas mais icônicas da história da seleção. Mas seu primeiro gol no Mundial não foi como esperado: nas quartas-de-final, abriu o placar a favor da Alemanha. Pressionada, viu sua equipe empatar e as adversárias tomarem a dianteira novamente antes do fim do primeiro tempo. Foi para o vestiário sentindo que havia "desapontado a equipe, a torcida e o país", em suas palavras. Mas logo aos três minutos do segundo tempo, anotou outro gol -- desta vez pelo time certo -- e ajudou a segurar o empate até que Joy Fawcett fizesse o terceiro e virasse o placar.  

A vitória por 3 a 2 sobre a Alemanha levou os EUA a enfrentarem o Brasil na semifinal. Em jogo intenso, venceram por 2 a 0 e encontraram a China na decisão. O tempo regulamentar terminou em 0 a 0 e seguiu-se para os pênaltis. A camisa 6 foi colocada como a quinta cobradora na lista, carregando a responsabilidade de, talvez, realizar a última cobrança.

Abraçada às colegas, assistia a todas converterem, uma por uma, suas respectivas chances. Quando a goleira americana Briana Scurry salvou a quarta cobrança e deixou os EUA na frente no placar, um filme se passou em sua cabeça.

Quatro meses antes, Chastain perdera um pênalti contra a mesmíssima China na final da Copa Algarve, torneio amistoso disputado em Portugal. Os EUA saíram derrotados por 2 a 1 e a imagem da bola atingindo o travessão, naquela ocasião, foi o primeiro pensamento da americana ao se posicionar frente a frente, mais uma vez, com a goleira Gao Hong. Sua preocupação era não olhar diretamente para a arqueira, com receio de que ela abalasse sua concentração, como no encontro anterior entre as duas.

"Eu não queria dar essa chance a ela novamente", explicou.

Ela posicionou a bola na marca do pênalti e, após recuar alguns passos, ainda teve tempo de ajeitar os cabelos atrás da orelha e dar uma batidinha de leve com a ponta da chuteira no gramado. Nos treinamentos de penais, utilizava apenas a perna esquerda por insistência do técnico Dicicco. E foi de canhota que chutou a bola no canto direito, acima das luvas da goleira que não mais era sua carrasca.

Brandi Chastain

Chastain jogaria ainda mais uma Copa, em 2003, mas sua grande glória foi ver a rede balançando após o pênalti, as mãos agarradas à camisa não importasse quantas pessoas a abraçassem ou o quanto corresse.

E a imagem do sutiã esportivo correndo todo o mundo nunca a incomodou, como declarou ao site da Fifa anos mais tarde: "Essa foto serviu de abertura para que várias pessoas soubessem do futebol feminino pela primeira vez. Isso me traz orgulho."

Fechar