Por trás de seu rosto, havia um dos maiores meio-campistas de todos os tempos. Provavelmente o mais subestimado entre os craques de sua geração. Beckham acabou, involuntariamente, vítima das camadas criadas pela mídia, do rótulo de Spice Boy por causa do relacionamento com Victoria Adams e do enorme peso de tudo o que envolvia sua vida fora de campo. Durante muitos anos, falou-se sobre ele mais nos palcos do que na imprensa esportiva, de forma injusta. E, nas discussões sobre a elite do futebol, essa percepção acabou sendo moldada pelo fato de ele ser visto como personagem antes de jogador, quase como se fosse “bonito demais”, “perfeito demais”, “estiloso demais” para ser levado totalmente a sério, como se seu status de ícone pop necessariamente ofuscasse seu talento dentro das quatro linhas.
Becks era um jogador especial, único no seu estilo. Não era um ponta direita clássico, não era espetacular no sentido mais literal, não vivia de dribles chamativos ou malabarismos, mas, com o pé direito, deixava qualquer um boquiaberto com seus lançamentos teleguiados. Era muito mais um articulador pelo lado do campo (embora, ao longo da carreira, também tenha se reinventado como meia), um meio-campista de técnica refinada, visão celestial e uma qualidade de chute extraordinária. Não à toa, é considerado, de forma praticamente unânime, o melhor cruzador de todos os tempos e um dos melhores — se não o melhor — cobradores de falta da história.
Sua cobrança de falta contra a Grécia, em outubro de 2001, que classificou a Inglaterra para a Copa do Mundo de Japão e Coreia do Sul, segue sendo sua Mona Lisa: um verdadeiro espetáculo que ficará para sempre nos livros do futebol. Assim como o golaço do meio-campo contra o Wimbledon, em 1996, que simbolicamente deu início à sua trajetória lendária com a camisa do Manchester United.