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Santos Boca Juniors Libertadores 13 01 2021Divulgação/Conmebol

Futebol jogado no país é o melhor e mais relevante desde a Era Neymar

O tempo mostrou que a Copa das Confederações de 2013, como suas edições anteriores, estava (muito) longe de ser uma mini Copa do Mundo antecipada. Ainda assim, aquela noite no Maracanã é um registro do seu tempo para o futebol jogado no país. Diante da seleção mais dominante do futebol internacional dos anos anteriores, o Brasil não só venceu por 3 a 0 como o fez apoiado em três jogadores que atuavam no país: Neymar, Paulinho e Fred.

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Se 2014 relativiza tudo que foi visto um ano antes, é impossível apagar o peso de uma vitória deste porte no mundo globalizado. Do outro lado estavam Casillas, Sergio Ramos, Piqué, Busquets, Xavi, Iniesta, Villa e Fernando Torres, todos jogadores que venceram a Champions League entre 2011 e 2014, sem contar Buffon, Pirlo, Godín e Suarez, entre outros grandes que ficaram pelo caminho. Tudo isso sob o comando de jogadores que passavam um terço do ano disputando Estaduais.

Foi o último grande momento do futebol jogado no país, com quatro Libertadores em sequência (2010 a 2013), times marcantes (Santos-10, Corinthians-12) e uma safra imediatamente relevante para a seleção (Neymar, Paulinho, Oscar, Bernard, Ganso). Que isso tenha desembocado no 7 a 1 sem render os resultados esperados não apaga aquele período de excelência. Se tiver dúvida, pergunte aos colorados, santistas, corintianos e atleticanos que comemoraram grandes conquistas naquela época.

Hoje o Brasil volta, depois de meia década, a viver um momento de efervescência futebolística comparável com a Era Neymar no país, que acabou imediatamente após a Copa das Confederações com o astro santista (e boa parte daquela seleção) finalmente partindo para a Europa.

Desde 2017, quando o Grêmio conquistou a América, o país emplaca ao menos dois semifinalistas na Libertadores e vai para o terceiro título com Palmeiras e Santos garantidos na final do Maracanã. O futebol nacional ainda produziu um supertime (Flamengo-19) e vai encerrar a esquisita temporada pandêmica de 2020 (/21) com seis times na briga pelo título nacional, disparado o mais disputado desde 2009.

O zeitgeist, no entanto, às vezes nos engana. Escrevi aqui nesta semana sobre a infelicidade que domina jornalistas, torcedores e, consequentemente, dirigentes, em geral insatisfeitos com o andamento das coisas em seus clubes mesmo que eles estejam na ponta e vivos na disputa do Brasileirão. Há uma certa instabilidade geral, e a expectativa de um título possível sobe ainda mais o nível de pressão sobre jogadores, elencos e técnicos ainda em formação.

Só que não dá pra simplesmente ignorar o nível de futebol apresentado ao longo do ano. Peguemos o São Paulo como exemplo. Revelou bons nomes (Gabriel Sara e Luan), resgatou outros (Brenner e Luciano) e contou com a ajuda luxuosa de Dani Alves em seus melhores momentos. É inconstante, pouco confiável, carente de alternativas em determinadas situações e que deveria ter feito melhor papel nos mata-matas? Sim, mas é muito mais do que se poderia esperar no começo de uma temporada fadada ao fracasso e com mais bola do que vários dos campeões recentes (alô, Corinthians 2017!).

Daniel Alves São Paulo 2020/2021São Paulo/Divulgação

O mesmo pode ser dito, em maior ou menor intensidade, sobre os demais. O Inter viveu seu melhor momento de futebol com Coudet, mas soube sobreviver à transição para Abel Braga e fecha um ano com bons jovens valores (Praxedes e Yuri Alberto) e um time cada vez mais competitivo. O Atlético-MG de Sampaoli ditou o ritmo dos ponteiros no primeiro turno com um futebol muito intenso e alguns dos principais destaques do Brasileiro (Keno, Arana e Guga).

O Flamengo segue com um elenco de ponta e teve seus momentos, como quando amassou o São Paulo no jogo de ida no Maracanã e não goleou por falta de capricho de seu ataque. O Grêmio viu Pepê e Jean Pyerre desabrocharem e teve com eles momentos de magia nos 14 jogos de invencibilidade que apagaram seu início ruim no Brasileirão.

Palmeiras e Santos dispensariam apresentações, mas cabe dizer que estão a um passo da maior conquista possível com jogos memoráveis pelo caminho, incluindo duelos contra os dois maiores times argentinos nas semifinais. Wéverton, Lucas Veríssimo, Gustavo Gomez, Gabriel Menino, Marinho, Luiz Adriano e Soteldo já estão na história dos dois clubes pelo que construíram ao longo do ano, para citar só alguns dos destaques individuais.

Palmeiras Santos Gómez VeríssimoIvan Storti / Santos FC

É pouco? Pode ser, para quem espera repetir o Flamengo excepcional de 2019. Mas jogar bom futebol (plástico e/ou competitivo), viver partidas de alto nível, desenvolver e presenciar grande jogadores e, acima de tudo, gerar memórias na sua torcida, são parâmetros bem razoáveis de avaliação de qualidade de futebol. Sigo achando que o resultado final é o que mais importa em um esporte, não há como fugir disso, mas considerando que em todo ano alguém vai vencer, é preciso levar mais coisas em conta para avaliar se o nível de futebol foi melhor aqui ou ali.

Neste contexto, não tenho muita dúvida de que o futebol brasileiro de 2017 a 2020 (/21), com ênfase na temporada atual, está muito acima do período anterior. Exceção feita ao Corinthians de 2015 e aos talentos individuais que compuseram a seleção campeã olímpica de 2016, pouca coisa salta aos olhos depois da Era Neymar. O grande jogo do período, Palmeiras x Santos da final da Copa do Brasil de 2015, foi mais marcante pela rivalidade entre os elencos, o clima do estádio e a emoção dos minutos finais do que exatamente por um primor técnico. 

Faltam duas coisas a 2020 (/21). Primeiro, a coroação em si, que faz os personagens saltarem de competidores a vencedores, sendo vistos com olhos mais saudosos que críticos. O que “deu certo” passa a importar mais do que aquilo que “está errado”, e é a partir daí que se criam as histórias e as memórias.

Em segundo lugar, falta superar a Era Neymar. Se você deixar o extraclasse que dá nome ao período de lado, vai perceber que os outros jogadores citados não são exatamente exemplos de sucesso absoluto. A geração em torno do atual camisa 10 do PSG chegou à seleção desamparada, com trabalhos interrompidos, times em eterna reformulação e pouca gente já estabelecida na elite do futebol europeu – de 2013, só a linha defensiva.

Neymar Peru Brasil Eliminatórias 2022 13102020CBF

Os talentos de hoje devem ter mais dificuldade de se frimar em uma seleção mais consolidada, mas também não devem ficar tão expostos como seus antecessores. Nomes como Gerson, Brenner, Gabriel Menino, Veríssimo, Jean Pyerre e Arana, para citar alguns, precisam construir caminhos próprios para evitar a sensação de que a efervescência futebolística é só isso, uma efervescência, algumas bolhinhas e nada mais.

Tite pode e deve guiá-los no processo, e não levar um 7 a 1 é outra boa medida para evitar o desperdício de uma nova geração. Mas virar “realidade” vai além do que os outros podem fazer por eles. Avaliar bem futuras transferências (alô, Gerson e Arana), manter o nível de concentração e performance e se preocupar com a curva de aprendizado são missões difíceis para um jovem jogador de qualquer era.

O futebol evoluiu e o Brasil finalmente parece ter caminhado junto nos últimos anos no que diz respeito a pensar, discutir e executar o jogo. Ainda carece de melhores cabeças e mãos para gerenciar essas carreiras e ajudar a geração a dar o salto de qualidade que ela merece.

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