As palavras de Kylian Mbappé sobre uma imagem satírica relacionada ao líder chinês Mao Tsé-Tung não passaram despercebidas; pelo contrário, transformaram-se em poucas horas em uma crise comercial e diplomática que colocou em risco os interesses do Real Madrid e da LaLiga em um mercado estratégico.
E a prova não esteve apenas na dimensão da indignação provocada pelas declarações, mas em uma cena incomum dentro do futebol espanhol: Mbappé se desculpou, o presidente da LaLiga, Javier Tebas, apresentou um pedido público de desculpas e, em seguida, a liga emitiu um comunicado oficial, antes de o Real Madrid acompanhá-los e pedir desculpas ao povo chinês cerca de um dia inteiro após a movimentação do jogador e do presidente da competição.
520 milhões de assinantes e 430 milhões de visualizações: os números que explicam a movimentação espanhola
A crise começou após a divulgação de um trecho de uma entrevista de Mbappé ao programa francês "The Bride", na qual ele falou sobre imagens satíricas que usam seus traços, referindo-se a uma montagem em que seu rosto aparece no corpo de um homem que descreveu como "ditador chinês", em alusão a Mao Tsé-Tung.
As declarações provocaram reações de indignação na China, e suas visualizações ultrapassaram 430 milhões na plataforma Weibo, segundo reportagem dojornal espanhol El Mundo.
Mas a maior fonte de preocupação para a LaLiga era a dimensão dos interesses comerciais ligados ao mercado chinês.
Segundo a mesma fonte, no último dia 3 de agosto, a liga anunciou um acordo com a plataforma "Migu", da empresa estatal "China Mobile", para a transmissão de 380 partidas por temporada, em uma parceria que se estende até a temporada 2029-2030.
A plataforma possui mais de 520 milhões de assinantes, enquanto sua taxa de crescimento anual ultrapassa 8%, de acordo com os números apresentados na reportagem.
Os dados financeiros da LaLiga revelam a dimensão da aposta: registrou receitas de 1,576 bilhão de euros com direitos de transmissão na temporada 2024-2025, dos quais cerca de 748 milhões de euros vieram dos mercados internacionais.
Apesar de não revelar as receitas provenientes especificamente da China, o mercado asiático e os Estados Unidos representam duas fontes principais de renda externa da competição.
Por isso, segundo o El Mundo, qualquer deterioração nas relações com os parceiros chineses pode ameaçar perdas financeiras colossais.
Mbappé se desculpa; e Tebas age para proteger os interesses da liga
Ontem, Mbappé publicou um pedido de desculpas em francês, inglês e chinês, no qual reconheceu que seu comentário não foi feliz e que percebeu ter causado mágoa aos sentimentos de pessoas na China e entre as comunidades chinesas ao redor do mundo, afirmando seu respeito pelo povo chinês e sua história.
No mesmo dia, Tebas apresentou um pedido público de desculpas, lamentando a ofensa causada pelas declarações do jogador e afirmando o respeito da liga pela China e por seus torcedores de futebol.
Tebas também agiu diplomaticamente e realizou uma reunião com o embaixador chinês na Espanha, Yao Jing, para reafirmar a continuidade da cooperação entre as duas partes e a manutenção dos acordos existentes.
O presidente da liga afirmou que o compromisso de sua instituição consiste em seguir trabalhando com os parceiros chineses, para que um episódio individual não afete o progresso alcançado nem os milhões de torcedores que acompanham a competição.
Essas movimentações não foram meramente formais: o pedido de desculpas veio enquanto a emissora de televisão estatal chinesa já havia suspendido a transmissão das partidas da LaLiga e dos conteúdos relacionados a Mbappé, e havia removido anúncios em que o jogador aparece.
Com isso, a liga passou a enfrentar um verdadeiro teste: como proteger os acordos de transmissão e as relações comerciais em um mercado importante, sem permitir que uma crise ligada às declarações de um único jogador se transforme em uma ruptura mais ampla?
Real Madrid se atrasa no pedido de desculpas
A posição do Real Madrid foi mais complexa: reportagens espanholas e francesas falaram da insistência inicial do clube em separar as declarações pessoais de Mbappé da posição da instituição, com o cuidado de manter suas relações comerciais na China.
Mas essa abordagem, segundo as reportagens, não convenceu o lado chinês.
Após os pedidos de desculpas de Mbappé e Tebas, o Real Madrid emitiu seu comunicado oficial hoje, lamentando ao povo chinês qualquer descontentamento que as declarações de seu jogador possam ter causado e afirmando seu respeito pela China, sua história, sua cultura e seus cidadãos, assim como pelos milhões de torcedores chineses que nutrem afeto pelo clube.
O clube acrescentou que se junta ao pedido público de desculpas apresentado por Mbappé, reafirmando seu compromisso com os valores de respeito, convivência e entendimento entre as culturas.
3 patrocinadores encerram suas parcerias; e a camisa de Mbappé no círculo de risco
As repercussões não se limitaram à transmissão televisiva, mas se estenderam aos contratos comerciais do próprio Mbappé.
Três empresas chinesas anunciaram o encerramento de suas relações comerciais com o astro francês, em um golpe direto na imagem publicitária do jogador dentro da China.
Já o Real Madrid parece ter seus interesses igualmente expostos ao risco.
Segundo reportagem do El Mundo, o clube detém 20% dos direitos de imagem de Mbappé, enquanto entre 10% e 15% das receitas de vendas de seus produtos nos mercados internacionais vêm da China, onde a camisa do astro francês é a mais vendida.
Esses números não significam que o Real Madrid tenha de fato perdido o percentual mencionado de suas receitas, mas evidenciam a dimensão dos interesses que podem ser afetados caso a crise persista ou se transforme em um boicote comercial mais amplo.
O paradoxo está no fato de que Mbappé, que representa um dos mais importantes ativos de marketing do clube merengue, teve seu nome associado a uma crise que pode afetar as vendas de seus produtos e as relações do clube com seus parceiros em um mercado gigantesco.
40 milhões de telespectadores chineses para uma única partida: por que a Espanha teme perder o mercado?
Para compreender a dimensão da preocupação espanhola, basta olhar para o público que a competição construiu na China ao longo dos anos.
A última partida entre Barcelona e Real Madrid na Espanha foi acompanhada por cerca de 2 milhões e 759 mil telespectadores pelo canal "DAZN LaLiga", enquanto a primeira partida do jogador chinês Wu Lei pelo Espanyol, em 2019, atraiu cerca de 40 milhões de telespectadores em seu país, de acordo com os números apresentados na reportagem do El Mundo.
A LaLiga também começou, desde 2016, a realizar algumas partidas em horários adequados ao público asiático, entre eles jogos à uma hora da tarde no horário da Espanha, o que corresponde às sete horas da noite em Pequim.
As partidas do período da tarde são realizadas atualmente às duas horas da tarde aos sábados e domingos.
Ao longo de 12 anos, a liga construiu uma presença comercial na China por meio de escritórios em Xangai e Pequim, além de um escritório em Hong Kong para explorar oportunidades de cooperação e patrocínio.
Segundo a reportagem, o volume de negócios desses escritórios ultrapassou 11 milhões de euros há cinco anos, o período mais recente para o qual há dados disponíveis.
Por isso, as preocupações não dizem respeito a uma partida ou a um único anúncio, mas ao futuro de uma relação comercial e esportiva construída gradualmente, e à possibilidade de que a crise afete acordos atuais ou oportunidades futuras.
A crise de Mbappé vai além das declarações e se torna um teste financeiro
A sequência de pedidos de desculpas revela a dimensão das pressões enfrentadas pelas partes espanholas: Mbappé tentou conter a indignação, Tebas buscou proteger as relações da liga com a China e, em seguida, o Real Madrid foi obrigado a emitir um pedido oficial de desculpas depois que o grupo de mídia chinês exigiu uma posição pública clara.
E com mais de 520 milhões de assinantes na plataforma Migu, as visualizações das declarações do jogador chegando a 430 milhões e a ligação de até 15% das vendas internacionais de produtos do Real Madrid ao mercado chinês, as motivações da movimentação espanhola tornam-se compreensíveis.
Ainda assim, é importante distinguir entre os interesses expostos ao risco e as perdas financeiras já concretizadas: até o momento não existem números documentados que determinem o total das perdas finais sofridas pelo Real Madrid ou pela LaLiga em razão do episódio.





