O extenso comunicado publicado por Cristiano Ronaldo na noite da última terça-feira não conseguiu acalmar os ânimos em Portugal, pelo contrário, acentuou a divisão em torno do craque histórico da seleção, depois de revelar detalhes de sua desavença com o técnico Jorge Jesus, após deixar irritado a concentração da "Seleção".
O caso Ronaldo continua a dominar as manchetes da imprensa portuguesa, depois de o jogador de 41 anos ter optado por publicar um comunicado extenso, semelhante a um relato completo, por meio do qual tentou apresentar sua versão do que aconteceu, após ter ficado no banco de reservas diante da Noruega e, em seguida, feito os exercícios de aquecimento sem entrar em campo.
Segundo o relato de Ronaldo, Jesus foi o responsável pela crise, após as duas partes terem combinado que o técnico daria um esclarecimento diante dos meios de comunicação sobre o episódio, o que não aconteceu, agravando as divergências entre eles.
O comunicado de Ronaldo ateou fogo à crise
Apesar de Ronaldo ter afirmado em seu comunicado que não pensa em se aposentar da seleção, deixando a porta aberta para o retorno à equipe, seu gesto não levou a uma trégua na polêmica, mas contribuiu para acender ainda mais as críticas contra ele.
As reações nas redes sociais refletem um sentimento de tristeza em parte da torcida portuguesa, que desejava um fim diferente para a trajetória de Ronaldo com a seleção, após mais de duas décadas de conquistas e lembranças.
A comparação com Lionel Messi acirrou ainda mais as críticas, depois que a despedida do craque argentino da seleção de seu país ocorreu em meio a emoções marcantes e amplas homenagens, enquanto Ronaldo se viu no meio de uma grande crise com a comissão técnica e a Federação Portuguesa.
Segundo reportagem publicada pela rede "Foot Mercato", a intensidade das críticas em alguns veículos da imprensa portuguesa chegou a descrever o comunicado de Ronaldo como desconectado da realidade.
"A arrogância de Ronaldo esqueceu até Eusébio"
O jornal "O Jogo" foi um dos veículos mais críticos a Ronaldo, com um de seus colunistas questionando como o jogador e sua equipe pessoal, que inclui funcionários do clube Al-Nassr e outros, acreditaram que o técnico da seleção iria à sala de coletivas de imprensa para ler um comunicado contendo os oito pontos mencionados por Ronaldo.
O colunista se deteve especialmente no sexto ponto do comunicado de Ronaldo, no qual ele se comparou às lendas Pelé e Maradona.
E escreveu, em tom crítico: "A arrogância de Ronaldo esqueceu até Eusébio. É tudo uma questão de arrogância".
O colunista entende que Ronaldo se colocou no centro da questão para atingir Jesus e Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, mas foi além disso, considerando que o que aconteceu pode representar o fim da trajetória do jogador com a seleção.
A seleção portuguesa é a maior perdedora
Apesar da divisão em torno de Ronaldo, há um ponto que parece consensual em Portugal: a seleção nacional é a maior perdedora da crise.
O caso lançou sua sombra sobre a concentração da seleção, num momento em que nenhum dos companheiros de Ronaldo saiu, até agora, em sua defesa ou declarou publicamente seu apoio desde a publicação do comunicado.
A torcida portuguesa também se dividiu em relação ao futuro do capitão da seleção.
Em uma enquete publicada pelo jornal "A Bola", 71% dos participantes acreditam que Ronaldo não conseguirá voltar à seleção, enquanto 6% o defenderam e responsabilizaram Jesus pela crise, por não ter cumprido sua promessa, ao passo que 13% acreditam que a solução está em todas as partes se sentarem juntas, encerrarem a divergência e retornarem à calmaria.
Ronaldo também tem quem o defenda
Mas as críticas não foram unânimes, já que Ronaldo ainda conta com o apoio de algumas vozes conhecidas da mídia, entre elas o jornalista espanhol Edu Aguirre e o britânico Piers Morgan, considerados próximos do jogador.
Em Portugal, é possível encontrar alguns dos seus mais destacados defensores no jornal "Record", pertencente ao grupo "Medialivre", do qual Ronaldo detém uma participação de 30%.
O jornalista Bernardo Ribeiro reconheceu ontem que Ronaldo tem um longo caminho pela frente antes de reparar sua relação com a Federação Portuguesa, mas se tornou mais incisivo em sua crítica aos dirigentes da federação, descrevendo-os como "tolos" que foram influenciados por pessoas que trabalham com Jorge Jesus, acusando-os também de "difamar alguns dos funcionários da Medialivre".
As atenções se voltam para Jorge Jesus
Espera-se que Ronaldo seja punido por ter deixado a concentração da seleção durante a data Fifa, mas a maior questão reside na possibilidade de seu retorno à equipe diante da situação atual.
Ronaldo detém o recorde no número de partidas internacionais por Portugal, com 234 jogos, além de liderar a lista de maiores artilheiros históricos da seleção, com 146 gols, o que torna qualquer decisão sobre seu futuro com a "Seleção" de importância excepcional.
As atenções agora se voltam para a próxima data Fifa, em novembro, quando Portugal recebe a Dinamarca no dia 14 de novembro, antes de visitar o País de Gales no dia 17 do mesmo mês.
E a pergunta mais importante permanece: Jesus voltará a convocar Ronaldo?
O jornal "A Bola" fez a pergunta de forma direta, considerando que a polêmica atual torna legítimo o questionamento sobre a possibilidade de convocar o capitão de Portugal na próxima data Fifa.
Ao mesmo tempo, Jesus será cobrado a apresentar sua própria versão sobre a crise, depois de ter evitado, até agora, entrar nos detalhes da desavença com Ronaldo.

