O Flamengo enfrenta um alerta financeiro na reta final de 2026. O clube arrecadou R$ 171,6 milhões com a venda de jogadores na temporada, valor inferior à meta de R$ 250 milhões estabelecida no orçamento. O resultado aumenta a pressão sobre o planejamento rubro-negro e reforça a preocupação com o trabalho das categorias de base, tanto pela dificuldade de revelar atletas capazes de integrar o elenco profissional quanto pela necessidade de formar jogadores que possam render cifras expressivas no mercado.
A situação também evidencia um desafio apontado publicamente pelo presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, no fim de julho, em coletiva de imprensa no Maracanã. Na ocasião, o dirigente demonstrou preocupação com a distância entre o nível dos jogadores do sub-20 e as exigências do time principal — cenário que, segundo ele, obriga o clube a buscar reforços mais caros.
“Também é preciso olhar para a base. Não temos jogadores para subir? Hoje, quando observamos o elenco, entendemos que existe um gap entre o que temos no sub-20 do Flamengo e o futebol profissional. Isso me força a fazer algumas escolhas e trazer jogadores mais caros. Isso é sustentável no longo prazo? Não. Espero que, ao longo dos anos, tenhamos, em todas as temporadas, três, quatro, cinco, seis, oito ou 10 jogadores da base capazes de preencher esses espaços”, afirmou.
Bap também relacionou a dificuldade de formar jogadores para o time profissional ao potencial de arrecadação do Flamengo com a venda de jovens: "Esse não é um jogo no qual um clube brasileiro possa gastar 60 ou 70 milhões de euros todos os anos. Também é necessário vender jogadores da base. Agora, se acreditamos que eles não podem atuar no time do Flamengo no nível que gostaríamos, por que deveríamos acreditar que podem ser vendidos para gerar 60 ou 70 milhões de euros?”.
Além dessas negociações de valores mais altos, o Flamengo também teve receitas com a venda de Juninho ao Pumas, do México, por R$ 25,5 milhões, além de transferências e empréstimos de outros jogadores. O clube ainda recebeu valores pelo mecanismo de solidariedade da Fifa, por ter participado da formação de André Luiz, Gerson e Gabriel Batista. Somados, esses negócios representaram R$ 117,5 milhões, valor que, apesar de relevante, ainda fica abaixo das expectativas do Rubro-Negro e representa menos da metade dos R$ 250 milhões previstos no orçamento para vendas em 2026.
Apesar dessas receitas, os valores obtidos com outros jovens ficaram aquém do potencial esperado pelo clube. Lorran, Victor Hugo e Guilherme, jogadores que chegaram a ser tratados como promessas importantes no passado, renderam juntos cerca de R$ 22 milhões em negociações. Victor Hugo foi para o Atlético-MG por R$ 13,4 milhões; Lorran acertou com o Sharjah, dos Emirados Árabes Unidos, por R$ 7,7 milhões (referente a 70% dos direitos do atleta); e Guilherme seguiu para o Gil Vicente, de Portugal, por R$ 2,3 milhões. O montante é considerado baixo diante da capacidade financeira do Flamengo e do investimento realizado na formação desses atletas.
O problema não se limita ao mercado de transferências. Dos 110 gols marcados pelo Flamengo na temporada, segundo um levantamento do ge, apenas 23 tiveram participação direta de jogadores formados no clube. Desse total, 11 foram de Lucas Paquetá, que retornou ao Brasil após construir carreira no futebol europeu.
No elenco atual, Evertton Araújo e Wallace Yan foram alguns dos poucos jovens a conquistar espaço, embora o atacante já tenha sido negociado com o Bragantino. Ryan Roberto, que foi destaque da equipe na campanha vitoriosa da Libertadores Sub-20 de 2025, também optou pela saída após entender que teria poucas oportunidades no profissional.
Para tentar mudar esse cenário, o Flamengo vem reformulando o trabalho nas categorias de base. A diretoria reduziu o número de atletas de aproximadamente 400 para 250, encerrou a equipe B do sub-20 e passou a buscar um perfil de formação que priorize jogadores capazes de chegar ao elenco principal, e não apenas resultados nas competições de base. O clube também ampliou parcerias com equipes formadoras e investiu em contratações de jovens, como o atacante Josmar, ex-Avaí, e o volante Pedro Henrique, ex-Paysandu, ambos de 18 anos.
A aposta é que uma formação mais eficiente aumente as opções para o time profissional e, consequentemente, o potencial de vendas. Até que esse processo apresente resultados, porém, a dificuldade de aproveitar e negociar suas promessas seguirá como um ponto de atenção financeiro e esportivo para o Flamengo.



