O Ministério das Relações Exteriores da China anunciou, nesta quarta-feira, uma posição marcada por grande cautela diplomática em relação à crise envolvendo o astro francês Kylian Mbappé, afirmando que valoriza o pedido de desculpas dele, mas, em contrapartida, abstendo-se de dar qualquer sinal sobre a suspensão das medidas de boicote adotadas contra ele e contra o Campeonato Espanhol.
O porta-voz do ministério, Guo Jiakun, em resposta a uma pergunta sobre o comunicado do jogador francês, segundo o que foi relatado pela agência de notícias espanhola "efe", disse: "Damos importância ao pedido de desculpas apresentado pela pessoa em questão". E, quando questionado novamente e de forma direta sobre se esse pedido de desculpas contribuiria para o levantamento do boicote, limitou-se a repetir a mesma resposta, sem acrescentar nada.
Um lapso de língua em três idiomas
Mbappé havia publicado, na última terça-feira, um pedido de desculpas oficial nos idiomas francês, chinês e inglês, no qual descreveu o que disse como um "lapso de língua", reconhecendo que suas palavras feriram muitas pessoas na China e entre as comunidades chinesas no exterior, e manifestando seu "profundo respeito" pelo povo chinês e sua história.
O estopim da crise remonta a uma entrevista na qual Mbappé disse que uma de suas imagens satíricas favoritas é uma montagem de seu rosto sobre o rosto de um "ditador chinês", em clara referência — sem citar o nome — ao antigo líder Mao Tsé-Tung.
Mao, fundador da República Popular da China em 1949, ocupa um lugar central e sagrado na narrativa nacional do Partido Comunista, como símbolo da recuperação da soberania após o chamado "século da humilhação", apesar de o próprio partido reconhecer os desastres de algumas de suas políticas, como o "Grande Salto Adiante" e a "Revolução Cultural".
Colapso dos patrocinadores e suspensão da transmissão
As consequências econômicas não demoraram, e as declarações levaram a um colapso imediato de acordos comerciais vultosos com empresas gigantes chinesas, a saber "Dongpeng", "Mengniu" e "Milk Ground", além da imposição de restrições ao conteúdo do jogador nas plataformas digitais e da suspensão da transmissão das partidas do Campeonato Espanhol, "La Liga", na televisão estatal chinesa desde segunda-feira, 26 de outubro.
Movimentações espanholas para conter a crise
Diante dessas perdas, a liga do Campeonato Espanhol se movimentou rapidamente, e a entidade pediu desculpas pela ofensa, com seu presidente, Javier Tebas, reunindo-se na última terça-feira com o embaixador chinês na Espanha, Yao Jing, para buscar uma solução para o impasse e impedir que ele afetasse os acordos de cooperação, descrevendo a China como "parceira estratégica".
Em um desdobramento marcante, o grupo de mídia chinês (CMG), proprietário do canal oficial CCTV, confirmou, nesta quarta-feira, em comunicado divulgado às 18h no horário local, que recebeu, por meio da liga de La Liga, uma carta de pedido de desculpas oficial do clube Real Madrid ao povo chinês.
Nos trechos da carta publicados pelo grupo, consta: "Nosso clube nutre um profundo respeito pela China, sua história, sua cultura e seu povo", com a confirmação do desejo do clube de continuar fortalecendo suas relações com o país asiático, acompanhada do pedido de desculpas público de Mbappé.
Apesar de confirmar o recebimento das duas cartas, a CMG não especificou se considera o pedido de desculpas suficiente, nem anunciou qualquer mudança na decisão de suspender a transmissão das partidas de La Liga, dos jogos de Mbappé ou dos anúncios em que ele aparece.
Esse comunicado veio apenas horas depois de uma posição firme do Centro de Esportes e Juventude vinculado à CMG, que rejeitou uma versão jornalística espanhola segundo a qual as declarações de Mbappé seriam uma "expressão pessoal" e não teriam a intenção de ofender.
A organização afirmou que as palavras do jogador ultrapassaram os limites do aceitável e da liberdade de expressão, advertindo o Real Madrid de que não pode se esquivar de sua responsabilidade e de que, "sem um pedido de desculpas satisfatório, não há margem para discussão".



