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GFX Rene Higuita 1-1GOAL

René Higuita: o goleiro ousado que se tornou amigo de Pablo Escobar e passou meses na prisão após um sequestro

Peter McVitie
Traduzido por
  • Rene Higuita é muitas coisas para muitas pessoas. Seu nome traz à mente de alguns a imagem do goleiro de cabelos desgrenhados jogando as pernas para trás da cabeça para defender um chute da Inglaterra em Wembley. Outros o veem como um fenômeno e o símbolo ousado da era de ouro do futebol colombiano. Em alguns círculos, ele é uma figura decepcionante, que abraçou publicamente o traficante mais notório da história durante a fase mais sombria do país e passou meses na prisão após ser envolvido em um sequestro.

    Higuita se descreve como um "ser humano perfeitamente imperfeito", enquanto o ex-companheiro de equipe Carlos Valderrama diz: "Sim, ele é louco. É maluco, mas é um maluco do bem."

    Para milhões de sul-americanos, incluindo a vítima do sequestro, ele é um herói.

    Ele é o goleiro único e impulsivo que marcou mais de 40 gols, mudou regras da Fifa e atuou como intermediário de Pablo Escobar. O futebol nunca tinha visto nada parecido com ele antes e não viu nada parecido desde então.

  • Um goleiro único em uma era de ouro

    Rene Higuita

    Um goleiro incomum, mas brilhante, Higuita foi peça-chave para a ascensão do futebol colombiano no fim dos anos 1980

    Criado pela avó desde muito novo após a morte da mãe, Higuita começou a jogar futebol nas ruas de Medellín. Ele começou como atacante, mas sua trajetória mudou durante um torneio local, quando o goleiro do time da escola sofreu uma lesão. Higuita foi escolhido para ficar debaixo das traves, e sua equipe venceu a competição. A partir dali, ele passou a ser goleiro, mas o instinto de atacante nunca o deixou.

    Ele não era presença constante no time principal em sua breve passagem pelo Millonarios, seu primeiro clube profissional, mas as poucas partidas que fez convenceram o Atlético Nacional a contratá-lo em 1986.

    Contratado como goleiro reserva, sua estreia aconteceu de forma surpreendente até para ele. Higuita estava sentado no banco quando o segundo tempo de uma partida começou, mas foi atraído pelo cheiro de carne de porco frita. Enquanto comia, o goleiro do Atlético havia sido expulso e uma verdadeira caçada pelo reserva estava em andamento.

    “Ouvi o locutor do estádio dizer: 'Solicita-se a presença do senhor Jose Rene Higuita no banco do Atlético Nacional'”, recordou mais tarde. “Saí correndo, e [Anibal] Ruiz, o técnico, disse: 'Ei, Higuita, seu filho da puta! O que há de errado com você? Entra em campo!'

    "O pior é que fui destaque naqueles pouco mais de 30 minutos em que joguei, e depois Carrabs foi para o Junior de Barranquilla e eu virei titular."

    Com 1,75 m, ele estava longe de ser um goleiro fisicamente imponente, mas Higuita era tão ousado e espalhafatoso quanto sugeria a juba escura e encaracolada que caía sobre seus ombros. Ele atacava tudo o que chegava perto de sua área: disparava para enfrentar atacantes cara a cara; se jogava em meio a atacantes e defensores para agarrar cruzamentos; e saltava sobre a linha para espalmar finalizações.

    Higuita saía correndo da área, roubava a bola, driblava um ou dois adversários, passava para um companheiro e seguia correndo. Logo, estava na área adversária ao lado dos atacantes do Atlético e sendo perseguido pelos defensores.

    Sua capacidade de defender pênaltis já era impressionante, mas ninguém jamais tinha visto um goleiro marcar pênaltis com regularidade antes. Ele também fazia gols de falta.

    Em pouco tempo, os estádios ficaram cheios de gente querendo ver o homem apelidado de 'El Loco'. "As pessoas achavam que ele era arrogante por causa da forma como jogava. Não, ele era assim", disse Valderrama.

    O auge do Atlético Nacional veio em 1989, quando o clube quebrou a maldição da Colômbia em finais da Copa Libertadores. Dois anos depois da terceira derrota consecutiva do América de Cali na decisão continental, parecia que o azar continuaria quando o Atlético perdeu o jogo de ida por 2 a 0 para o Olimpia, no Paraguai. A equipe marcou duas vezes no segundo tempo da volta, em Bogotá, e levou a decisão para os pênaltis.

    O que aconteceu em seguida consolidou o status de Higuita como lenda.

    Ele defendeu o primeiro pênalti do Olimpia, e estava 3 a 3 quando o goleiro foi para a cobrança do quinto do Atlético.

    Ele converteu, mas o Olimpia marcou e a disputa foi para as cobranças alternadas.

    Mais uma vez, Higuita defendeu o primeiro, mas o companheiro Felipe Perez desperdiçou o seu.

    Higuita defendeu o seguinte, mas Gildardo Gomez também não conseguiu converter o dele.

    Higuita defendeu o outro na sequência, mas o defensor Luis Carlos Perea mandou por cima do travessão.

    Por fim, Leonel Alvarez marcou para vencer a disputa por 5 a 4, e o Atlético se tornou o primeiro time colombiano da história a conquistar a competição.

    Mais tarde naquele ano, Higuita e companhia enfrentaram o campeão europeu AC Milan na Copa Intercontinental. Os sul-americanos encararam nomes como Marco van Basten, Carlo Ancelotti, Frank Rijkaard, Paolo Maldini e Franco Baresi até o 118º minuto, quando Alberico Evani abriu o placar.

    Foi um grande salto para o futebol do país, e outro viria um ano depois. Higuita foi um dos nove jogadores do Atlético convocados para a seleção da Colômbia para a Copa do Mundo, com Francisco Maturana treinando clube e seleção ao mesmo tempo.

    Foi a segunda participação da Colômbia no torneio e a primeira vez que havia se classificado em 28 anos. Em alta depois de começar com uma vitória por 2 a 0 sobre os Emirados Árabes Unidos, a equipe caiu bruscamente quando a derrota por 1 a 0 para a Iugoslávia a deixou precisando de um ponto contra a Alemanha Ocidental. Higuita não se escondeu no grande palco, foi seu habitual eu imprudente mesmo diante de gigantes europeus, e os sul-americanos arrancaram um empate no fim.

    Na fase seguinte, contra Camarões, o perigo do estilo irreprimivelmente impulsivo de Higuita ficou exposto. Foi um confronto emocionante nas oitavas de final, mas os dois goleiros eram imbatíveis até o segundo tempo da prorrogação, quando Roger Milla bateu na saída de Higuita e saiu dançando em direção à bandeirinha de escanteio. Dois minutos depois, Higuita estava com a bola nos pés na metade do campo da Colômbia e tocou para o companheiro de Atlético Carlos Perea, que errou ao tentar devolvê-la. Com Milla chegando em cima, Higuita tentou se recuperar, mas foi desarmado e tropeçou, acabando por se atirar nos calcanhares de Milla em uma tentativa vã de impedi-lo de empurrar a bola para a rede.

    Foi um fim constrangedor para a campanha, mas Maturana e seus comandados receberam uma recepção incrível quando desembarcaram de volta em casa.

  • As ligações com Pablo Escobar

    Escobar

    A entrada de dinheiro do cartel fez com que Higuita se aproximasse de um dos maiores traficantes de drogas da história

    O Atlético Nacional havia dominado o futebol sul-americano e fornecido a maior seleção colombiana de todos os tempos e o maior técnico da história do país. Verdadeiramente entre a elite, o clube havia realizado o sonho de uma figura extremamente influente: Pablo Escobar.

    Devido às oportunidades de lavagem de dinheiro e manipulação de resultados, o dinheiro dos cartéis já havia inundado o futebol colombiano muito antes de Escobar atingir o auge de seu poder no fim dos anos 1980. Mas, quando 'El Patron' assumiu o comando do Atlético Nacional com o objetivo de recolocar o clube como o orgulho de Medellín, houve um aumento na intimidação e nos assassinatos.

    Em 1988, o árbitro Armando Perez foi sequestrado e mantido por 20 horas por um grupo de homens que dizia representar seis equipes, incluindo o Atlético Nacional. No ano seguinte, seis meses depois de o Atlético vencer a Libertadores, o árbitro Alvaro Ortega levou 10 tiros após uma partida envolvendo o outro time de Escobar, o Deportivo Medellin. Um matador conhecido pelo apelido de Popeye afirmou que estava ao lado de Escobar quando ele ordenou que Ortega, um pai de dois filhos de 32 anos, fosse encontrado e morto. Esse incidente resultou no cancelamento da campanha da liga, sem que um campeão fosse coroado. Dois anos depois, o Atlético conquistou seu primeiro título da liga colombiana em 10 anos.

    Determinadas a derrubar o império de Escobar, as autoridades colombianas investigaram contatos entre o traficante e Higuita por volta de 1990. Houve relatos de uma reunião privada na propriedade rural de Escobar, e a atenção aumentou em 1991, quando o goleiro o visitou em La Catedral, a prisão pessoal que Escobar construiu e onde cumpriu sua pena de quatro anos com a aprovação do governo.

    Ao deixar a luxuosa propriedade, Higuita foi questionado por um jornalista se era amigo de Escobar. "Sim", foi a resposta. "Acho que não há nada de estranho nisso e não devo nada a ninguém. Vocês, jornalistas, criam as manchetes. São vocês que consertam ou arruínam a imagem do nosso país."

    "Como está o senhor Pablo?", veio a pergunta seguinte. “Felizmente, muito bem."

    "Antes de Pablo Escobar ser conhecido como traficante, Pablo Escobar era congressista", relembra ele no documentário da Netflix Higuita: O Caminho do Escorpião. "Ele fez campanha e, quando estava em campanha, eu o conheci. Quando ninguém admitia, eu disse: 'Sim, ele é meu amigo'."

    Higuita sempre negou as acusações da polícia de que estivesse envolvido em atividade criminosa, mas a associação continua a afetá-lo. Em julho deste ano, um tribunal na Colômbia ordenou que uma casa pertencente a Higuita fosse apreendida por causa de sua origem. Higuita pagou dinheiro e entregou dois apartamentos para adquiri-la dos irmãos William e Gerardo Moncada em 1992, associados de Escobar que o traficante mandou matar naquele ano.

    "Se eu soubesse que aquela casa tinha essa origem, nunca teria feito qualquer negócio ali", disse. "Eu também não conhecia essa história."

  • O sequestro

    Higuita

    Higuita diz que concordou em resgatar a vítima de sequestro, mas a polícia insistiu em interrogá-lo

    Em maio de 1993, uma adolescente chamada Marcela estava sendo levada de carro para a escola em Medellín quando, segundo seu relato, duas motocicletas se aproximaram e fizeram o carro parar. Eles tiraram o motorista do veículo, entraram no carro e foram embora. Ela foi levada para uma casa e trancada em um quarto por um mês.

    "Os mesmos homens das motocicletas entraram e me levaram", disse ela. "Eles me fizeram sentar no chão do carro. Eu não conseguia ver nada."

    Ela acrescentou: "Acho que era na cidade, mas nunca soube ao certo. Eu não fazia ideia do que havia ao meu redor.

    "Naquele mês, nunca tive a chance de me comunicar com a minha família. Eu ouvia muito rádio porque talvez falassem de mim no noticiário ou algo assim. Eu não fazia ideia de quantos [sequestradores] havia, o que estavam fazendo ou se estavam do lado de fora vigiando.

    "Todos os dias, eu tinha medo de que fizessem alguma coisa comigo. De que abusassem de mim, de que eu não sobrevivesse para contar a história. Todos os dias, eu tinha medo."

    Pouco depois do sequestro, Higuita recebeu uma ligação do presidente do Atlético Nacional, que lhe disse: "Uma torcedora fervorosa do Atlético está com um problema." Segundo Higuita, ele perguntou o que aquilo tinha a ver com ele e ouviu a resposta: "Você é alguém conhecido e respeitado, e vai ser o intermediário para que nada aconteça com a menina."

    A resposta de Higuita: "Se eu puder ajudar com isso e estiver ao meu alcance, conte comigo."

    É claro que não se tratava simplesmente de uma "torcedora fervorosa". A vítima do sequestro era filha de Luis Carlos Molina Yepes, um banqueiro local, grande investidor do Atlético Nacional e conhecido lavador de dinheiro de Pablo Escobar e do Cartel de Medellín. (Dois anos após esse incidente, Molina e outras três pessoas seriam condenados por seus papéis no assassinato, em 1986, do editor do El Espectador, Guillermo Cano. Os outros tiveram as condenações anuladas em recurso, mas Molina teve de cumprir sua pena de 16 anos e oito meses.)

    As coisas haviam azedado entre Molina e Escobar, então este último supostamente ordenou o sequestro de Marcela e exigiu US$ 3 milhões de resgate.

    Após um mês, Higuita foi chamado para se reunir com o banqueiro e acertar os detalhes. "Naquela época, usávamos fitas cassete, e eles gravaram a ligação entre os sequestradores e a família", lembra Higuita.

    Temendo o envolvimento da polícia ou uma traição, os sequestradores exigiram que a estrela da Colômbia fosse a única pessoa com quem tratariam. "Se eu vir um policial perto da sua casa, você sabe o que vai acontecer com a menina", alertaram os sequestradores.

    Higuita explicou: "Dessa forma, seria mais fácil resolver as coisas sem colocar a menina em risco do que talvez eles avisarem as autoridades e sofrerem retaliação. Então, acho que foi por isso que ele me chamou, para que as coisas fossem feitas de maneira muito discreta, com a garantia de que não usariam a polícia, de que não contariam a ninguém, porque ele queria proteger a menina."

  • Nenhuma boa ação fica sem punição

    Rene Higuita

    Promotores o mantiveram preso por lucrar com o incidente envolvendo o cartel

    Pegando o dinheiro do resgate, Higuita foi para casa e esperou pelo próximo desdobramento, dizendo à esposa: "Amor, vou fazer isso. Não posso ignorar essa situação."

    Por fim, alguns homens foram encontrá-lo. Não havia sinal de Marcela, mas o dinheiro foi levado enquanto um integrante da quadrilha ficou na casa de Higuita a noite toda. No início da tarde seguinte, a ligação veio e Higuita saiu com o homem.

    Naquele momento, Marcela finalmente foi tirada do quarto e colocada em um carro. "Saí sem tomar banho, com roupas rasgadas", disse ela.

    Marcela foi levada de carro até um ponto do lado de fora de uma universidade, orientada a descer e ir até o carro à frente.

    Higuita desceu do carro e o herói da seleção foi imediatamente cercado por estudantes pedindo autógrafos. Quando Marcela se aproximou dele, ele não percebeu quem ela era e mandou que esperasse porque estava ocupado assinando coisas. Quando finalmente percebeu quem ela era, ele a agarrou, a jogou dentro do carro e foi embora.

    Marcela disse: "Ele também estava com medo, tenho certeza de que nós dois estávamos. A partir dali, ele dirigiu como um louco até a casa dos meus pais. Subiu nas calçadas e avançou sinais vermelhos. Estava completamente apavorado e empolgado.

    "Aos poucos, no caminho, eu perguntei: por que ele? Ele explicou que estava nos fazendo um grande favor e que seu único objetivo naquele momento era me levar para casa em segurança. Tanto que, no caminho, encontramos um parente meu; quando vi esse familiar, eu disse a ele: 'Para, é fulano!'

    "'Parar? Você está louca? Estou te levando direto para casa!'"

    Uma festa tomou conta da casa da família depois que Higuita voltou com Marcela. Segundo o goleiro, o pai da criança lhe entregou uma quantia em dinheiro estimada em cerca de US$ 50.000. Ele diz que tentou rejeitá-la várias vezes, mas a família insistiu para que aceitasse o dinheiro como forma de gratidão.

    Mais tarde, Higuita foi convocado ao gabinete do promotor com a expectativa de que contaria seu lado da história e iria embora. Ele passou os nove meses seguintes na prisão.

    Os promotores disseram que Higuita havia lucrado com seu papel no sequestro e que, portanto, havia violado uma lei que tinha acabado de entrar em vigor naquele ano. Ele insistiu que não tinha intenção de lucrar e que colocou a própria vida em risco unicamente para salvar a menina.

    Essas acusações acabaram sendo retiradas, mas a polícia queria mais. Pablo Escobar havia escapado de sua luxuosa prisão particular em meados de 1992 e continuava foragido. Na esperança de que revelasse onde o narco-terrorista estava escondido, a polícia submeteu Higuita a um intenso interrogatório.

    "Eles me disseram para entregar Pablo e eu não precisaria ir para a cadeia", relembrou. "Depois começaram a me maltratar, me chamando de filho da p*ta e filho da mãe, dizendo que eu apodreceria na prisão."

    Marcela ficou espantada ao ver seu salvador retratado no noticiário diário como parte do império de sequestros e tráfico de drogas de Escobar. O impacto psicológico de sua prisão foi imenso. As condições eram sombrias e, depois de uma ou duas visitas, Higuita disse à esposa para parar de levar as crianças para vê-lo, incapaz de suportar a ideia de que vissem o pai naquele estado.

  • Muito mais do que o chute de escorpião

    Rene Higuita scorpion kick

    O chute de escorpião é a imagem icônica de Higuita, mas, naquela altura, ele já tinha vivido uma vida plena e desfrutado de uma carreira louca

    Enquanto Higuita definhava na prisão, seus companheiros de seleção saíam por aí fazendo história. Em setembro de 1993, a Colômbia atropelou a Argentina por 5 a 0 em Buenos Aires e se classificou para a Copa do Mundo de 1994.

    À medida que o estádio esvaziava, os jogadores entraram no vestiário cantando o nome de Higuita. Eles pediam constantemente por sua libertação e lhe prestavam homenagem em toda oportunidade, dedicando a vitória ao irmão preso.

    Pablo Escobar foi morto a tiros pelas autoridades colombianas em dezembro de 1993. Pouco tempo depois, Higuita foi solto sem condenação e voltou à seleção colombiana.

    Enquanto filmava um anúncio na Colômbia, ele teve a ideia de sua famosa defesa do escorpião. Depois de dois anos com seus companheiros levantando bolas em sua direção e ele jogando as pernas para cima para afastá-las, decidiu que era hora de mostrá-la ao mundo.

    Em 1995, em um amistoso contra a Inglaterra em Wembley, ele conseguiu executá-la. Foi um momento icônico do futebol internacional e a imagem definitiva de sua carreira, mas talvez seja a parte menos interessante da história de Rene Higuita.