Você tem 24 anos ou mais?

Ajude-nos a verificar sua idade respondendo com sinceridade. Este site contém publicidade relacionada a jogos de azar destinada a maiores de 24 anos.

Conteúdo com restrição de idade

Você não tem idade suficiente para visualizar conteúdo relacionado a apostas. Você será redirecionado para a página inicial.

alt
GFX Fabio Cannavaro Icons 1-1GOAL

Como Fabio Cannavaro, lenda da Itália, contrariou as expectativas e conquistou a Bola de Ouro como defensor

Peter McVitie
Traduzido por
  • Fabio Cannavaro achou que era uma brincadeira. Sua esposa também. O defensor saía de carro do estacionamento do centro de treinamento do Real Madrid quando uma pessoa que ele não conhecia veio correndo em sua direção, gritando seu nome. O italiano parou e abriu a janela.

    “Ele estava sem fôlego e começou a falar comigo”, recordou Cannavaro sobre aquele dia, 20 anos atrás. “Ele disse: ‘Preciso falar com você. Trabalho para a France Football’, e me entregou seu cartão de visitas.” Embora intrigado com a abordagem e a urgência do jornalista, Cannavaro disse que só queria ir para casa. “Posso ir com você?”, perguntou o jornalista. Havia “uma coisa importante” sobre a qual precisavam conversar.

    Ao seguir viagem com seu passageiro inesperado, o jogador de 33 anos recebeu a notícia inacreditável: havia sido eleito o melhor jogador de futebol da Europa. Quando Cannavaro ligou para avisar à esposa que estava voltando para casa com “um amigo que me disse que eu tinha ganhado a Bola de Ouro”, ela respondeu: “Olha, Fabio, acho que é uma brincadeira.”

    “Foi engraçado e inesperado”, lembrou Cannavaro. “Ganhar sendo defensor é praticamente impossível.” Cannavaro havia, de fato, conseguido o inconcebível. Em 27 de novembro de 2006, o mundo soube que ele era o vencedor da Bola de Ouro, superando Gianluigi Buffon e Thierry Henry. Um mês depois, foi eleito o melhor jogador do mundo pela Fifa, à frente de Zinedine Zidane e Ronaldinho.

    “A concorrência assusta, é muito forte. Não é comum um defensor ficar entre Ronaldinho e Zidane”, disse ele antes do anúncio.

    O zagueiro havia tido um ano fantástico: foi capitão da Itália na conquista da Copa do Mundo depois de ganhar seu segundo título consecutivo da Serie A, embora a Juventus tenha perdido ambos os títulos devido ao escândalo Calciopoli. No auge da carreira e do futebol após se transferir para o Real Madrid no verão, Cannavaro havia conquistado o reconhecimento de outros jogadores, técnicos de seleções nacionais e jornalistas de toda a Europa.

    “O prêmio é fantástico, a coroação de um ano excepcional”, disse Marcello Lippi, técnico da Itália campeã da Copa do Mundo, após a cerimônia da Bola de Ouro. “Não me surpreende que um defensor tenha vencido. Um jogador excepcional é alguém fundamental para sua equipe, independentemente da posição em que atue, e Cannavaro é assim.”

    Apenas o terceiro defensor a conquistar o prêmio, Cannavaro ainda custava a acreditar, apesar de ter sido avisado com antecedência. “É uma honra em dobro”, disse. “O prêmio é dado ao melhor jogador, e o fato de eu ser defensor o torna ainda mais especial. Sou o primeiro a ficar surpreso. Isso significa tudo para mim.”

    Era o ponto mais alto de uma trajetória extraordinária que começou quando ele era gandula e assistia a Diego Maradona à beira do campo do Stadio San Paolo, do Napoli, sonhando em deixar seu próprio legado duradouro.

  • Encontro com Maradona

    Diego Maradona Napoli

    A paixão de Cannavaro pelo Napoli começou cedo e o levou a dar uma entrada dura em seu ídolo

    Filho de um ex-jogador de futebol que abandonou o esporte para criar os filhos, Cannavaro teve seu primeiro contato com a bola nas ruas de Nápoles. “Sacos de lixo serviam de traves”, recordou. “E, se a bola descia a ladeira, mandávamos o pior jogador buscá-la.”

    Jogando perto do Estádio San Paolo, ele ficou obcecado pelo futebol e passou a sonhar com o estrelato na Serie A. Aos oito anos, entrou para o Italsider, clube do bairro de Bagnoli, em Nápoles. Pouco depois, tornou-se gandula do Napoli, o que lhe permitiu ver de perto o maior de todos os tempos: Diego Maradona.

    “Eu tentava estar no San Paolo todos os domingos”, disse Cannavaro ao Il Mattino. “O Italsider nos dava um passe para assistir aos jogos na arquibancada lateral, mas eu não me contentava em apenas ver a partida e queria ficar à beira do campo. Por isso, pedi várias vezes a Scarpitti, meu professor de educação física e técnico da seleção italiana de base, para ser gandula.

    “Eu queria viver de perto a emoção dos jogos de Maradona, [Bruno] Giordano, [Andrea] Carnevale, [Giuseppe] Bruscolotti e [Ciro] Ferrara. Ficava perto das bandeirinhas de escanteio, entre a Curva A e a Distinti ou a arquibancada lateral, porque Maradona ia cobrar os escanteios e eu queria fotografá-lo. Colocava a câmera com filme no bolso do agasalho e fotografava sem parar... Cada jogo virava uma coleção para o meu álbum.”

    O dia 10 de maio de 1987 foi decisivo para o Napoli, mas teve importância redobrada para Cannavaro. Naquela data, Maradona, Carnevale, Ferrara e companhia estavam prestes a conquistar o título da Serie A em casa, na penúltima partida da temporada. Depois de mal conseguir dormir por causa da empolgação, Cannavaro saiu cedo de casa para cumprir suas funções de gandula no estádio. Mas uma surpresa o aguardava: ele faria sua estreia pela equipe de base do Napoli.

    “Antes de Napoli x Fiorentina, havia sido organizada uma partida entre as equipes sub-19”, contou. “Faltava um jogador ao Napoli, e o técnico, Scarpitti, que me conhecia bem porque também era meu professor de educação física na escola, me colocou no time. Eu disse a ele que sabia que naquele dia só deveria ser gandula e que não tinha levado minhas chuteiras. ‘Não tem problema’, respondeu, ‘entre em campo assim mesmo.’ E joguei aquela partida usando meus tênis, da Superga.”

    Cannavaro tinha 13 anos. Depois da emocionante estreia pela equipe de base, viu Maradona e companhia empatarem com a Fiorentina para garantir o primeiro Scudetto da história do clube, provocando uma comemoração intensa. Entrevistado por uma emissora de televisão local após o jogo, o jovem gandula foi perguntado sobre como se sentia ao ver seus ídolos conquistarem o campeonato. “É um sonho”, respondeu.

    Inspirado pelo contato próximo com grandes jogadores, Cannavaro começou a subir nas categorias de base do Napoli. Ele iniciou como meio-campista, mas lhe disseram, sem explicação, que a zaga era uma posição mais adequada, o que o deixou confuso. “Eu era mais baixo do que a maioria dos outros garotos em campo, então não parecia um defensor, muito menos um zagueiro”, disse. “Mas, dali em diante, essa seria a minha função.”

    Foi a decisão certa. Ele se destacou no centro da defesa e ajudou o sub-17 a conquistar o título do campeonato. Suas notas na escola, porém, começaram a cair. Ao ver um boletim decepcionante e se preocupar com o futuro do filho, seu pai, furioso, jogou fora seu uniforme do Napoli. O jovem recebeu uma oferta de emprego no bar de quem viria a ser seu sogro, mas Cannavaro tinha certeza de que poderia seguir carreira no futebol.

    “Eu só queria ser jogador de futebol. Não desisti, tive dificuldades na escola e depois corria para treinar em Soccavo: era um sonho estar lá, perto do time de Maradona e Careca”, recordou. Pouco depois, Cannavaro já treinava com o craque argentino e chegou até a deixar uma marca nele.

    “Eu era uma criança de sorte”, disse. “Um dia, dei uma entrada dura nele e um dos dirigentes do clube me repreendeu. [Diego] respondeu imediatamente que estava tudo bem e que eu deveria continuar jogando do meu jeito.”

    Naquele dia, Maradona deu suas chuteiras a Cannavaro, que sentiu tanto orgulho que as usou até não restar mais nada delas: “Naquela época, ter um par de Puma Kings era o sonho de qualquer jovem jogador, e as minhas foram dadas pelo próprio Diego! Queria ainda tê-las.”

    Embora não tenha tido a chance de jogar ao lado do campeão da Copa do Mundo de 1986, Cannavaro tirou daquela experiência uma lição fundamental. “Para se tornar um grande defensor, é preciso jogar contra os melhores do mundo”, escreveu no The Players’ Tribune.

  • De promessa a potência

    Parma v UdineseX
    Getty Images Sport

    Após se firmar no Napoli, Cannavaro se juntou a um promissor time do Parma e conquistou seu primeiro título.

    Quando Claudio Ranieri colocou Cannavaro no banco do Napoli pela primeira vez, em maio de 1992, seu ídolo Maradona já havia deixado o clube, que tinha caído para o meio da tabela. Sua estreia pela equipe principal veio em setembro, na Copa da Itália, contra o Modena. Mas o zagueiro só fez sua primeira partida na Serie A em março do ano seguinte, quando atuou ao lado de Ferrara contra uma Juventus que contava com Fabrizio Ravanelli, Paolo Di Canio, Antonio Conte, David Platt, Roberto Baggio e Dino Baggio.

    Di Canio deixou o jovem de 19 anos para trás e abriu o placar aos 10 minutos. Seis minutos depois, Platt se desvencilhou da marcação para marcar de cabeça após um escanteio. Cannavaro foi substituído aos 60 minutos, quando o placar estava em 2 a 1. A partida terminou com vitória da Juventus por 4 a 3, mas foi marcada por confrontos entre policiais e torcedores nas arquibancadas.

    Três meses depois, na última partida da temporada, Cannavaro fez sua segunda aparição no campeonato, em um empate do Napoli com o Parma. No verão de 1993, esteve perto de ser negociado com um clube da Serie B, mas o novo técnico, Lippi, impediu a transferência e fez dele titular habitual. “Ele acreditava muito em mim”, disse Cannavaro.

    Na véspera de sua primeira partida como titular naquela temporada, contra o Torino, Lippi se aproximou de Cannavaro e perguntou se ele estava a fim de jogar: “Eu disse que sim, embora minhas pernas estivessem muito doloridas por causa de um programa de treinamento personalizado... Com o tempo, percebi que era um teste de personalidade. Lembro que ele sempre me dizia para antecipar as jogadas: ‘Um zagueiro que deixa a bola quicar no chão é um homem morto’, era uma frase que ele repetia com frequência.”

    Cannavaro disputou 29 partidas ao todo, e o Napoli se classificou para a Copa da Uefa. Na temporada seguinte, assumiu a liderança da defesa após a saída de Ferrara e marcou seu primeiro gol como profissional no empate por 1 a 1 com o AC Milan. Também recebeu seu primeiro cartão vermelho na penúltima partida da temporada, o que o obrigou a perder a vitória sobre o Parma na última rodada.

    Cannavaro nunca mais jogaria pelo clube de sua infância. Diante de dificuldades financeiras, o presidente Corrado Ferlaino disse ao zagueiro que, se ele não aceitasse uma proposta para se transferir para o Parma, a falência iminente do Napoli seria inteiramente culpa do jogador de 21 anos. Assim, Cannavaro se despediu em lágrimas.

    A mudança acabou sendo a decisão certa para sua carreira. O Napoli continuou em declínio, enquanto ele se juntou a uma equipe em ascensão impressionante desde que havia conquistado o acesso em 1990. O Parma já tinha vencido a Copa da Itália, a Recopa Europeia e a Supercopa da Uefa antes de conquistar a Copa da Uefa com uma vitória por 2 a 1 sobre a Juventus no placar agregado da final.

    Cannavaro elevou ainda mais o nível de uma equipe que contava com Hristo Stoichkov, Filippo Inzaghi e Lorenzo Minotti, além de Gianfranco Zola e Dino Baggio, com quem havia jogado no Napoli. Embora fosse titular habitual sob o comando de Nevio Scala, o Parma teve uma temporada decepcionante. Carlo Ancelotti assumiu o cargo de técnico no verão e trouxe Lillian Thuram, Hernan Crespo e Enrico Chiesa.

    O Parma terminou a Serie A em segundo lugar, com Cannavaro desempenhando um papel fundamental no centro da defesa após uma tentativa malsucedida de utilizá-lo como lateral-direito. Ancelotti levou o clube à Champions League pela primeira vez, mas a equipe não conseguiu avançar em um grupo que tinha o então campeão Borussia Dortmund, o Sparta Prague e o Galatasaray.

    Em 1998-99, o Parma conquistou dois títulos em uma temporada incrível: venceu a Fiorentina na final da Copa da Itália e depois levantou mais uma Copa da Uefa com uma vitória convincente sobre o Marseille. “Era uma equipe maravilhosa, com Thuram, Crespo, Verona, Chiesa, Dino Baggio e Buffon”, disse Cannavaro em um podcast anos depois. “Não conseguimos vencer o campeonato, mas aquele nosso Parma atropelava os adversários. Na final da Copa da Uefa, vencemos o Marseille por 3 a 0, mas também atropelamos o Bordeaux por 6 a 0, o Galatasaray por 4 a 0, a Juventus e o Milan.”

    A campanha seguinte foi decepcionante. O Parma enfrentou dificuldades financeiras que levaram às vendas de Thuram e Buffon para a Juventus, enquanto Marcio Amoroso se transferiu para o Borussia Dortmund. Apesar das grandes mudanças no elenco, Cannavaro permaneceu e conquistou outra Copa da Itália ao vencer a Juventus na final disputada em dois jogos.

    Com 290 partidas, dois títulos da Copa da Itália e uma Copa da Uefa, Cannavaro havia se tornado uma lenda graças a suas atuações consistentemente excelentes. Mas o Parma não podia perder a oportunidade de lucrar com sua venda quando AC Milan e Inter demonstraram interesse. A Inter venceu a disputa por € 23 milhões, mas a experiência de Cannavaro em San Siro ficou muito distante de seus dias de glória no Parma.

  • Sucesso e escândalo

    FBL-ITA-INTER MILAN-JUVENTUS
    AFP

    Após uma fase difícil na Inter, Cannavaro teve sucesso na Juventus, mas as comemorações duraram pouco.

    Em sua segunda partida pela Inter de Milão, um confronto da Champions League contra o Rosenborg, Cannavaro foi expulso após receber dois cartões amarelos em um intervalo de cinco minutos. Pouco depois, quebrou um osso do pé, mas foi autorizado a continuar jogando, decisão da qual se arrependeu mais tarde.

    “Até hoje, não sei por que a equipe médica decidiu que eu tinha que jogar”, disse. “Depois de um ano, eu não sentia 75% da minha perna. O técnico era Roberto Mancini, e eu disse a ele: ‘Mister, não consigo mais fazer isso. Tenho que parar, não consigo.’”

    Na segunda temporada de Cannavaro, ele passou a ficar fora da lista de relacionados com mais frequência, enquanto a Inter caiu para o quarto lugar na Serie A. Após dois anos, aceitou a oferta para se juntar à Juventus, reencontrando Buffon e Thuram, seus companheiros de Parma, e Ferrara, seu antigo ídolo no Napoli.

    “Eu tinha 29 anos e, naquele momento, pensei em parar de jogar futebol”, acrescentou. “Felizmente, depois mudei de time, e foi uma ótima decisão.”

    Cannavaro se sentiu “em casa” na equipe de Fabio Capello e se tornou uma verdadeira lenda do futebol italiano. Em sua primeira temporada, a Juventus conquistou o campeonato, e ele recebeu o primeiro de dois prêmios consecutivos de melhor defensor do ano da Serie A. Na temporada seguinte, a Juventus novamente liderava com folga quando o escândalo Calciopoli veio à tona, no início de maio. Foi revelado que dirigentes do clube haviam participado de práticas corruptas, inclusive influenciando árbitros para dar vantagem à Juventus. Investigadores descobriram o esquema após interceptarem telefonemas do diretor-geral Luciano Moggi enquanto apuravam denúncias de que a Juventus dopava sistematicamente seus jogadores.

    A Juventus perdeu os dois títulos e foi rebaixada para a Serie B com uma significativa dedução de pontos. Milan, Fiorentina e Lazio também perderam 30 pontos cada um por seu envolvimento. Ainda assim, Cannavaro segue firme na defesa de suas conquistas com a Juventus. No programa de TV Il Confronto, afirmou: “Não precisávamos de ninguém. Éramos tão superiores aos outros que conseguimos vencer mesmo assim.”

    Ele acrescentou: “Tiraram os títulos de você, mas, para mim, eles permanecem. Ainda tenho a medalha em casa. Tenho uma em vez de duas, mas a que tenho representa um Scudetto conquistado. Essa é uma polêmica que vai durar para sempre na história do nosso futebol, mas sinto que aqueles dois Scudetti são meus.

    “[Moggi] era o melhor diretor esportivo da Itália. O que estava errado eram as regras. Porque, se existe uma regra que permite a qualquer pessoa ligar para os árbitros, isso significa que todo o sistema está errado. Hoje, na Itália, o mundo da arbitragem é inacessível, enquanto antes era o sistema que estava errado.”

    Enquanto Pavel Nedved, Alessandro Del Piero, David Trezeguet e Buffon permaneceram para ajudar a Juventus a lutar pelo retorno à Serie A, Cannavaro esteve entre os muitos astros que saíram.

  • Conquistando o mundo

    FBL-WC2006-MATCH64-ITA-FRA
    AFP

    Apesar de o escândalo Calciopoli abalar o futebol italiano, Cannavaro foi o capitão da Itália na conquista da Copa do Mundo, com atuações dignas da Bola de Ouro.

    Os títulos de Cannavaro na Serie A podem ter sido colocados em dúvida, mas, enquanto o futebol italiano ainda sentia os efeitos do escândalo de enormes proporções naquele verão, o zagueiro mostrou que realmente estava entre os melhores jogadores do mundo.

    Quando a Copa do Mundo de 2006 começou, Cannavaro já era o principal zagueiro da seleção. Um ano antes do torneio na Alemanha, o técnico Lippi lhe deu a braçadeira de capitão em meio à aposentadoria de Paolo Maldini e à diminuição da influência de Alessandro Nesta.

    Cannavaro disputou todos os minutos da campanha em que a Itália sofreu apenas um gol a caminho da final em Berlim. A seleção superou Gana, Estados Unidos e República Tcheca na fase de grupos antes de vencer Austrália e Ucrânia no mata-mata e garantir uma semifinal contra a Alemanha.

    Todas as qualidades de Cannavaro ficaram evidentes naquele torneio. Com velocidade, leitura de jogo, iniciativa, tempo perfeito nos carrinhos e excelente marcação individual, nada passava pelo corajoso líder da Itália. “O campeão pensa antes de a bola chegar”, disse Cannavaro certa vez. “Tento ler as jogadas antes, antecipá-las. Isso também é arte.”

    Na semifinal contra a Alemanha, ele foi sensacional e se atirou em todas as bolas para impedir que os anfitriões chegassem ao gol. Com o placar em 0 a 0 após 90 minutos e a partida parecendo caminhar para os pênaltis, Andrea Pirlo passou a bola para Fabio Grosso na área, e o lateral-esquerdo bateu colocado no canto.

    Na resposta, a Alemanha lançou a bola em direção à área italiana, mas Cannavaro ganhou de cabeça do alto zagueiro Per Mertesacker. A bola foi na direção de Lukas Podolski. Desesperado para impedir o atacante de chutar, o capitão da Itália avançou e afastou de cabeça, devolvendo a posse à sua equipe. Alberto Gilardino conduziu a bola e esperou Del Piero passar por ele, tocando na medida para o ídolo da Juventus finalizar e levar a equipe de Lippi à final. “Cannavaro não teria deixado nem a mãe nem o pai dele passar”, brincou o técnico.

    “Acho que foi essa disputa de bola com Podolski que me fez ganhar o [prêmio de Melhor Jogador do Mundo da FIFA]”, disse Cannavaro. “Porque foi um jogo extraordinário, disputado em um nível muito alto, com intervenções que, quando vejo, me pergunto: ‘Fui eu mesmo que fiz aquilo?’ É uma imagem que ficará na história do futebol. Foi um belo gol, marcado contra uma seleção alemã que jogava em casa. Foi isso que nos levou a Berlim.”

    A final contra a França, a 100ª partida de Cannavaro pela seleção, foi igualmente equilibrada e muito mais tensa. A equipe de Raymond Domenech abriu o placar com apenas sete minutos, depois que Marco Materazzi derrubou Florent Malouda. Zinedine Zidane cobrou o pênalti de cavadinha, e a bola entrou após tocar no travessão. Doze minutos depois, Materazzi cabeceou um escanteio de Pirlo e empatou.

    Luca Toni teve algumas chances pela Itália: acertou o travessão de cabeça e depois teve um gol anulado. Do outro lado, Henry foi parado por Materazzi, Gianluca Zambrotta e Buffon, que também defendeu uma cabeçada forte de Zidane na prorrogação.

    Então, aconteceu algo inacreditável. Zidane e Materazzi trocaram palavras até que o francês deu uma cabeçada no peito do alto jogador italiano e recebeu o cartão vermelho. Foi esse o ato na última partida da carreira do lendário meio-campista.

    “Eu ouvi”, disse Cannavaro em entrevista à FIFA. “Estava cinco metros à frente e ouvi aquele barulho. Virei e Marco estava no chão. Perguntei a Gigi [Buffon], porque ele era o único que tinha visto: ‘O que aconteceu?’ E ele disse: ‘Fabio, ele deu uma cabeçada incrível nele!’

    ‘Uma cabeçada? Como isso é possível?’ Porque Materazzi tem mais de 1,90 m de altura. Então acertou o peito dele. Se fosse comigo, teria sido bem no meu rosto, porque sou um pouco mais baixo!”

    A partida foi para os pênaltis, e Cannavaro estava confiante na vitória, embora não estivesse na lista de cobradores. Ele havia perdido um pênalti quando jogava pelo Italsider na infância e, desde então, detestava cobrá-los.

    “Era uma situação difícil, mas me lembro de olhar para os meus companheiros e não ver ninguém fugindo para evitar bater um pênalti”, contou à FIFA. “Todos estavam perto do técnico, e todos queriam cobrar. Isso me deixou tranquilo. Eu tinha muita confiança nos meus companheiros durante a disputa. Na verdade, eles me pareciam relaxados e, no fim, tudo deu certo para nós.”

    A França ficou em desvantagem quando David Trezeguet acertou o travessão na segunda cobrança da equipe. Embora os franceses tenham convertido as duas seguintes, a Itália marcou em todas as suas cobranças e venceu a disputa por 5 a 3.

    O ex-gandula do Napoli havia feito uma Copa do Mundo perfeita e entrou para a seleção do torneio da FIFA. “Ganhar a Copa do Mundo foi, sem dúvida, a realização dos sonhos que eu tinha quando criança”, disse.

    Cannavaro passou de uma criança fascinada ao ver Maradona, o maior artista do ataque, a um virtuose da defesa e um dos maiores de todos os tempos. A ideia de um zagueiro ganhar a Bola de Ouro era motivo de piada, mas Cannavaro acreditava. Em 2006, ele tornou isso inevitável.