Fabio Cannavaro achou que era uma brincadeira. Sua esposa também. O defensor saía de carro do estacionamento do centro de treinamento do Real Madrid quando uma pessoa que ele não conhecia veio correndo em sua direção, gritando seu nome. O italiano parou e abriu a janela.
“Ele estava sem fôlego e começou a falar comigo”, recordou Cannavaro sobre aquele dia, 20 anos atrás. “Ele disse: ‘Preciso falar com você. Trabalho para a France Football’, e me entregou seu cartão de visitas.” Embora intrigado com a abordagem e a urgência do jornalista, Cannavaro disse que só queria ir para casa. “Posso ir com você?”, perguntou o jornalista. Havia “uma coisa importante” sobre a qual precisavam conversar.
Ao seguir viagem com seu passageiro inesperado, o jogador de 33 anos recebeu a notícia inacreditável: havia sido eleito o melhor jogador de futebol da Europa. Quando Cannavaro ligou para avisar à esposa que estava voltando para casa com “um amigo que me disse que eu tinha ganhado a Bola de Ouro”, ela respondeu: “Olha, Fabio, acho que é uma brincadeira.”
“Foi engraçado e inesperado”, lembrou Cannavaro. “Ganhar sendo defensor é praticamente impossível.” Cannavaro havia, de fato, conseguido o inconcebível. Em 27 de novembro de 2006, o mundo soube que ele era o vencedor da Bola de Ouro, superando Gianluigi Buffon e Thierry Henry. Um mês depois, foi eleito o melhor jogador do mundo pela Fifa, à frente de Zinedine Zidane e Ronaldinho.
“A concorrência assusta, é muito forte. Não é comum um defensor ficar entre Ronaldinho e Zidane”, disse ele antes do anúncio.
O zagueiro havia tido um ano fantástico: foi capitão da Itália na conquista da Copa do Mundo depois de ganhar seu segundo título consecutivo da Serie A, embora a Juventus tenha perdido ambos os títulos devido ao escândalo Calciopoli. No auge da carreira e do futebol após se transferir para o Real Madrid no verão, Cannavaro havia conquistado o reconhecimento de outros jogadores, técnicos de seleções nacionais e jornalistas de toda a Europa.
“O prêmio é fantástico, a coroação de um ano excepcional”, disse Marcello Lippi, técnico da Itália campeã da Copa do Mundo, após a cerimônia da Bola de Ouro. “Não me surpreende que um defensor tenha vencido. Um jogador excepcional é alguém fundamental para sua equipe, independentemente da posição em que atue, e Cannavaro é assim.”
Apenas o terceiro defensor a conquistar o prêmio, Cannavaro ainda custava a acreditar, apesar de ter sido avisado com antecedência. “É uma honra em dobro”, disse. “O prêmio é dado ao melhor jogador, e o fato de eu ser defensor o torna ainda mais especial. Sou o primeiro a ficar surpreso. Isso significa tudo para mim.”
Era o ponto mais alto de uma trajetória extraordinária que começou quando ele era gandula e assistia a Diego Maradona à beira do campo do Stadio San Paolo, do Napoli, sonhando em deixar seu próprio legado duradouro.





