Enquanto os representantes da Juventus explodiam em comemorações, os jogadores exaustos do Ajax deixavam o gramado do Estádio Olímpico com uma sensação profundamente inquietante.
No vestiário, Overmars chamou Ronald de Boer de lado para compartilhar suas preocupações.
"Marc Overmars me disse muito rapidamente que sentia que havia algo errado", contou De Boer ao The Independent. "Ele percebeu que um adversário tinha um olhar estranho, que não parecia normal. Teve a sensação de que ele estava tomando alguma coisa."
Ele acrescentou: "Eu não tive essa sensação. Sabe por quê? Porque sempre penso que ninguém faria isso. Eu realmente não tinha consciência dessa possibilidade. E, se alguém corre mais rápido, talvez simplesmente corra mais rápido. Sabíamos que nossa temporada havia sido longa."
O Ajax precisou aceitar a derrota e seguir em frente, enquanto a Juventus chegava a duas finais consecutivas da Champions League nas temporadas seguintes, perdendo para Borussia Dortmund e Real Madrid.
Então, em agosto de 1998, Zdenek Zeman, técnico da Roma, concedeu uma entrevista bombástica à revista L'Espresso, na qual condenou práticas ilícitas de algumas equipes italianas, apontando especialmente para a Juventus. O futebol italiano precisava "sair da farmácia", declarou.
"Não sou demagogo nem provocador", afirmou. "Sou um homem do esporte. Percebo os rumores e os sentimentos que circulam por aí. Ouço e vejo que, não apenas no ciclismo, mas também no futebol, tentam compensar a falta de preparação com produtos farmacêuticos. No futebol, ainda não houve um escândalo explosivo. Mas, quanto mais importante é um esporte, maiores são os perigos. Conheço muitos médicos que trocaram o ciclismo pelo futebol. Sei de muitos clubes da Serie A que empregam farmacologistas. Precisamos impedir que o campeonato se transforme no Tour de France."
Ele acrescentou: "É surpreendente, e isso começa com Gianluca Vialli e vai até Alessandro Del Piero. Como já pratiquei diferentes esportes, costumava pensar que resultados assim só poderiam ser alcançados por meio da musculação, após anos e anos de treinamento especializado. Estou convencido de que o futebol é uma atividade completamente diferente, pelo menos o tipo de futebol que pratico, que definiria com uma única palavra: 'positivo'."
Zeman admitiu que seus jogadores da Lazio haviam utilizado diferentes substâncias químicas para ajudar na recuperação ou proporcionar um estímulo psicológico, mas ressaltou: "Tenho a impressão de que, ultimamente, as coisas estão indo longe demais. A pressão sobre os jogadores está ficando cada vez maior. E está cada vez mais difícil resistir às tentações da pílula mágica... Os problemas de Diego Maradona com drogas já eram comentados quando o Napoli o contratou junto ao Barcelona. Não consigo acreditar que seu companheiro de equipe Ciro Ferrara, que certamente não era conhecido pela boa educação durante a polêmica que teve comigo, desconhecesse o assunto. Maradona continuou jogando como um campeão. E ainda joga até hoje. Mas gostaria de lembrar a Ferrara que, se não tivessem feito vista grossa, se alguém tivesse levado a sério sua dependência de drogas, ele poderia ter sido salvo de uma situação tão triste. Mas agora os negócios estão acima de tudo. O mundo do futebol é dominado pelas finanças e pelas farmácias."
Após as declarações de Zeman, a polícia realizou buscas nos escritórios e no centro de treinamento da Juventus, onde encontrou 281 substâncias farmacêuticas diferentes. "Parece mais o equipamento de um pequeno hospital", testemunharia posteriormente um especialista no tribunal.
Embora nenhum dos medicamentos, em sua maioria anti-inflamatórios, analgésicos e estimulantes cardíacos, estivesse na lista de substâncias proibidas na época, provas comprometedoras surgiram nos prontuários médicos e nas amostras de sangue apreendidos durante a operação.
Quando o promotor Raffaele Guariniello levou o médico da Juventus, Riccardo Agricola, e o diretor-executivo do clube, Antonio Giraudo, a julgamento, em 2004, o tribunal convocou o hematologista Giuseppe d'Onofrio como perito para examinar as amostras.
As conclusões foram contundentes
"A variabilidade que observei nos dados não poderia ser considerada normal", declarou D'Onofrio em seu depoimento.
Ele explicou que as oscilações extremas na contagem de glóbulos vermelhos e nos níveis de hemoglobina entre os jogadores da Juventus só poderiam ser explicadas por transfusões de sangue ou pelo uso de eritropoietina (EPO), hormônio sintético utilizado para aumentar o transporte de oxigênio até os músculos e melhorar a resistência física.
D'Onofrio afirmou ser "praticamente certo" que dois jogadores da Juventus de meados dos anos 1990 haviam utilizado EPO e "muito provável" que outros sete também tivessem recorrido à substância. Os advogados do clube, no entanto, argumentaram que as probabilidades mencionadas pelo perito não constituíam prova suficiente para uma condenação além de qualquer dúvida razoável.
Por fornecer grandes quantidades de substâncias destinadas a melhorar o desempenho aos jogadores da Juventus, o médico Agricola foi considerado culpado de fraude esportiva e condenado a 22 meses de prisão, com pena suspensa. Ele e Giraudo, porém, foram absolvidos em segunda instância, em 2005. Dois anos depois, ao analisar o caso, a Corte de Cassação, a mais alta instância judicial da Itália, anulou a decisão do tribunal de apelação e determinou que a administração de medicamentos poderia, de fato, configurar fraude esportiva segundo a legislação italiana. No entanto, como os fatos haviam ocorrido entre 1994 e 1998, o prazo de prescrição já havia expirado.
O caso foi encerrado.