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Cavan Sullivan Ryan RichterGetty

“Chegou a hora, parceiro”: como Ryan Richter fez Cavan Sullivan deslanchar e levou o Philadelphia Union da última colocação à briga pelo título da MLS Cup

Thomas Hindle
Traduzido por
  • O caminho de Ryan Richter até o comando da equipe principal do Philadelphia começou com uma pergunta. Com o Union enfrentando dificuldades no início da temporada, Bradley Carnell, então técnico do time principal, perguntou a Richter, que comandava a equipe do clube na MLS Next Pro, o que ele faria de diferente.

    Richter pôs mãos à obra. Assistiu três vezes a cada um dos 12 primeiros jogos do Philadelphia, reuniu 10 observações detalhadas sobre cada partida e apresentou suas conclusões a Carnell.

    “Eu estava dando apoio a ele, mas não fazia exatamente parte do grupo. Era apenas uma visão de alguém de fora sobre o que o time deveria fazer de diferente. Deu muito trabalho”, disse Richter à GOAL.

    Assim, quando Carnell foi dispensado em 27 de maio, com o Union na última posição da MLS e apenas uma vitória, Richter estava plenamente preparado para assumir o cargo.

    “Quando recebi a oportunidade, eu já sabia por quais assuntos queria começar, o que achava que o time precisava fazer de diferente, além de como os jogadores estavam, qual era a melhor equipe e em que posição cada um deveria jogar. Eu tinha dedicado muito trabalho a isso”, afirmou Richter.

    O que talvez ele não esperasse era que tudo desse tão certo. O Philadelphia está invicto há 14 partidas. Venceu oito jogos seguidos. Não perde uma partida da MLS há cinco meses. Richter, o profissional de fora a quem pediram que preparasse algumas anotações, é um forte candidato ao prêmio de Técnico do Ano. E sua equipe vive uma das sequências mais impressionantes da história da liga.

  • Aproveitando a pausa para a Copa do Mundo

    Chicago Fire FC v Philadelphia Union
    Getty Images Sport

    Richter foi nomeado técnico interino em 27 de maio.

    Richter assumiu o cargo interinamente no fim de maio, em meio a uma ampla reformulação da cúpula. Três novos auxiliares chegaram, enquanto Jon Scheer foi promovido a diretor esportivo efetivo.

    Para quem vê de fora, ao menos, há razões mais evidentes para a melhora tão expressiva do Union. A utilização de Cavan Sullivan, de 17 anos, que soma 10 participações em gols durante a série invicta do Union, foi fundamental. O retorno de Kai Wagner também. E há ainda o efeito da troca de técnico, que deu novo ânimo a um grupo de jogadores antes tão abatido.

    Mas, segundo Richter, o verdadeiro motivo por trás de tudo isso foi o tempo que a equipe ganhou. A MLS fez uma pausa para a Copa do Mundo. Por quase um mês, o elenco desgastado do Union teve uma espécie de férias. O grupo continuou em atividade: Sullivan, por exemplo, treinou com as equipes de base enquanto a seleção dos Estados Unidos era eliminada nas oitavas de final. Mas, por algum tempo, os jogadores ficaram livres do desgaste de uma campanha na MLS.

    Foi então que Richter começou a trabalhar. Ele tinha uma espécie de plano de jogo, mas a possibilidade de ao menos passar tempo com seus jogadores se mostrou fundamental.

    “Consegui conversar pessoalmente com alguns dos jogadores que estavam na Filadélfia. Com os que foram para casa ou estavam na Europa, consegui falar por telefone e ouvi-los um pouco. Dependendo do jogador, entrávamos em diferentes níveis de detalhe sobre o que queríamos fazer taticamente”, disse Richter.

    Algumas conversas foram extremamente específicas. O recém-contratado Kai Wagner, que voltou do Birmingham City após uma passagem decepcionante pela League One, recebeu orientações táticas e conversou sobre liderança.

    “Com Kai, compartilhamos com a equipe tudo o que eu queria fazer com ele”, disse Richter.

    O zagueiro em ascensão Neil Pierre ouviu que precisava melhorar sua disciplina tática.

    “O desafio para ele era: você consegue fazer isso de forma consistente neste nível? Consegue manter a concentração neste nível? Se estiver concentrado e antecipar a leitura do jogo, se posicionar e ajustar sua posição inicial de forma consistente, com certeza poderá ter sucesso neste nível. Sabemos que você está fisicamente preparado para isso. Ele lê bem o jogo, mas a questão era: ‘Ele consegue fazer isso ao longo de 20 jogos?’”, explicou Richter.

  • “Cavan precisava de uma conversa diferente”

    Cavan Sullivan, Philadelphia Union
    Getty

    Sullivan se tornou uma das armas ofensivas mais devastadoras da MLS sob o comando de Richter.

    E havia também Cavan Sullivan. Os torcedores do Union vinham pedindo que o jogador, agora com 17 anos, tivesse liberdade para mostrar todo o seu potencial em um sistema que favorecesse suas características. Talvez ele seja o jogador mais talentoso já formado por uma academia da MLS. Alguns argumentavam que ele só precisava receber essa oportunidade.

    Richter, por acaso, havia acompanhado todas as etapas de seu desenvolvimento, desde os primeiros anos no futebol de base até a MLS Next Pro. Para Sullivan, a questão era a motivação.

    “Cavan precisava de uma conversa diferente. Foi algo como: ‘Chegou a hora, cara. Agora você vai ter uma oportunidade de verdade, não apenas alguns minutos aqui. Eu acredito que você consegue. Você vai ter sua chance, mas tem que agarrá-la, p*rra’”, disse Richter.

    Sullivan, por sua vez, também tinha uma relação de confiança com ele.

    “Conheço ele desde que eu tinha uns oito anos. Ele me treinou quando eu tinha uns oito ou nove, na pré-academia. Tem sido incrível. Temos uma ótima relação, e sou muito grato por tudo o que ele fez”, disse Sullivan à GOAL em agosto.

    Essa confiança foi plenamente recompensada. É difícil subestimar o impacto de Sullivan no Union. Desde que passou a integrar o time principal em tempo integral, atuando em sua posição preferida, a ponta direita, ele se tornou o jogador de ataque mais efetivo da MLS.

    Nesta temporada, ele tem o mesmo número de assistências que Lionel Messi, apesar de ter jogado 600 minutos a menos. Também superou o recorde de participações em gols de um adolescente, com 21.

    Nem Richter esperava por isso.

    “Ele é diferente de tudo o que vi nos últimos 10 anos trabalhando neste clube, seja no time principal, na academia ou no segundo time. Ele é diferente... mas ninguém poderia prever nem mesmo a produção que ele teria no geral”, disse Richter.

    E, sim, Richter acredita que ainda há mais por vir.

    “Estou feliz por ele, orgulhoso dele, mas ele precisa manter o foco. E vai manter, porque tem grandes objetivos e é um garoto determinado. Mas precisamos continuar incentivando-o a buscar mais, a melhorar e a ter cada vez mais impacto nos jogos. Vamos ver o que conseguimos fazer”, disse Richter.

  • “Este é o começo de algo diferente”

    New York City FC v Philadelphia Union
    Getty Images Sport

    Uma virada contra o NYCFC foi crucial para manter a sequência de vitórias do Union.

    Mas é preciso mais do que discursos inspiradores, jogadores decisivos e ajustes táticos para emplacar uma sequência como essa. Richter disse tudo o que precisava ser dito e se preparou da maneira certa, mas também foi preciso colocar os planos em prática.

    Para Richter, os grandes resultados foram se acumulando, e a forma como cada vitória foi conquistada importou tanto quanto o resultado. Basta olhar para o primeiro jogo após a pausa para a Copa do Mundo. O Union marcou aos nove minutos, somou 24 finalizações contra o New York Red Bulls e venceu por 3 a 1, apesar de ter tido apenas 37% de posse de bola.

    Aquela partida deu o tom da sequência.

    “O primeiro jogo da segunda metade da temporada, começar da maneira como começamos... jogamos com muita energia para vencer aquela partida em casa. Foi mais ou menos como dizer: ‘Ei, isso é o começo de algo diferente’”, afirmou Richter.

    E também houve as viradas. Uma versão anterior do Union talvez tivesse desmoronado ao ficar perdendo por 2 a 0 para o Atlanta aos 66 minutos. Em vez disso, a equipe marcou três vezes nos 25 minutos finais, duas delas nos acréscimos, e venceu por 3 a 2. Em 16 de agosto, o Union perdia por 2 a 0 para o NYCFC no intervalo. Três assistências de Sullivan depois, venceu por 3 a 2.

    Uma arrancada eletrizante contra o Sporting KC foi ainda melhor. O Philadelphia sofreu três gols logo no início diante do pior time da Conferência Oeste. Com quatro gols em apenas nove minutos do segundo tempo, conseguiu uma virada notável.

  • “Quero ser o técnico do Union”

    Philadelphia Union v Inter Miami CF
    Getty Images Sport

    Richter deixou claro que quer ser o técnico do Union em definitivo.

    Ainda há uma questão de sustentabilidade. Em que momento uma sequência de resultados milagrosos se torna algo mais duradouro? Reverter desvantagens e ter explosões ofensivas são coisas positivas, e certamente elevam a moral, mas é uma maneira arriscada de jogar futebol.

    E, sim, Richter precisará fazer seu time controlar um pouco mais as partidas. A equipe pode ser jovem e caótica na medida certa, mas talvez precise de um pouco de pragmatismo. Há também outra realidade incontornável: o cargo de Richter ainda é o de “técnico interino”. Apesar do bom clima, o emprego tecnicamente não é permanente.

    Ele quer que isso mude.

    “Quero ser o técnico do Union. Isso está claro. Eles sabem disso, e todas as nossas conversas foram positivas”, disse Richter. “Mas, para ser sincero, não estou dando muita atenção a isso.”

    Talvez, porém, essa incerteza seja positiva. Afinal, quando Richter ainda observava de fora e trabalhava nos relatórios das partidas, algo mudou. O clima é bom, os resultados estão aí. Nesse ponto, as coisas tendem a se resolver por conta própria.

    “Se fizermos um bom trabalho, essa parte vai se resolver por conta própria. Estou bastante confiante nisso”, disse Richter.