“Onde ficam as nossas cadeiras?”.
Uma pergunta totalmente inútil compartilhada por três jornalistas e um empresário, todos brasileiros radicados na Europa, no meio da torcida organizada do River Plate na final da Libertadores diante do Boca Juniors. Uma dúvida que rapidamente foi ignorada, pelo menos por mim, ao ver um argentino com ar de líder nos encarar com desconfiança e, logo em seguida, colocar a mão no ombro de um de nós e perguntar: “¿Qué pasa?”.
Era Madrid. Era o Santiago Bernabéu. Demorou alguns poucos segundos para compreender que a cultura europeia de lugar marcado, tranquilidade e organização era algo inimaginável para um confronto histórico entre os dois maiores clubes da Argentina.
A casa do Real Madrid, por mais discutível e lamentável que tenha sido a decisão da mudança do palco da partida, foi uma inesquecível extensão da Bombonera e do Monumental de Nuñez. No nosso caso, uma extensão do lado vermelho e branco.
Quem está na chuva é para se molhar. Quem está na torcida do River é para cantar, principalmente tendo em conta o fato de sermos alvo constante de minuciosa observação. Mas a suspeita aos poucos foi caindo por terra, sobretudo no segundo tempo, com cada novo grito de “Vamos lo Millonário” ou “Boca sos cagón”.




O Boca Juniors abriu o placar com Benedetto. Mas o River Plate tinha mais time. Não merecia perder. Na verdade, não poderia perder. Já parou para pensar o que seria de nós, “intrusos brasileiros”, em caso de derrota para o arquirrival? Lucas Pratto trouxe esperança com o empate. Quintero garantiu a explosão com a virada. Já Pity Martínez proporcionou um misto de euforia e alívio ao decretar o resultado: vitória por 3 a 1 e o tetracampeonato sul-americano.
Lembra do (provável) chefe da torcida milionária que por vários minutos nos olhou torto? Quem diria, acabou o jogo como um dos nossos melhores amigos. Perdemos a conta de quantas vezes fomos abraçados por ele, que, curiosamente, ainda nos serviu de escudo quando os seguranças espanhóis invadiram às pressas o nosso setor para apagar a todo custo alguns sinalizadores. Conseguiram apagar as chamas, mas nem de longe atrapalharam a festa. Era impossível. Era Buenos Aires.

