Com uma única frase, Cristiano Ronaldo encerrou uma polêmica que durou 22 anos: "Chegou o dia de devolver a camisa número 7 a toda a nossa seleção". Com essas palavras, em um vídeo de despedida publicado nesta quinta-feira por meio de suas contas oficiais, o Dom anunciou sua aposentadoria internacional após uma trajetória que começou em 2003 e teve como última parada o duelo contra o País de Gales, em setembro passado.
A mensagem foi clara: o foguete da Madeira passa a tocha e deixa a camisa mais famosa da história de Portugal vaga em uma seleção hoje comandada por Jorge Jesus. Mas o que acontecerá com essa camisa agora? Será que ela pode ser aposentada definitivamente em homenagem à lenda?
O que acontecerá com a camisa número 7?
A resposta prática veio antes da pergunta teórica. Na última Data Fifa, assim que Ronaldo deixou a concentração da seleção antes do confronto contra a Dinamarca, Rafael Leão vestiu a camisa número 7, e isso é o que mais se aproxima do que vai acontecer no futuro.
E, segundo o jornal português "Record", a lei não deixa nenhuma lacuna: as regras da Uefa obrigam todas as seleções a entregar uma lista final numerada com 23 jogadores até a meia-noite do dia anterior à partida.
Não é possível deixar um número vago; alguém obrigatoriamente terá que vestir o número 7, e o mesmo vale para todas as partidas oficiais da Fifa.
Isso significa que a camisa 7 continuará em circulação e será vestida por um novo jogador a cada concentração, algo que não é estranho, pois, ao longo da própria trajetória de Ronaldo, ela foi vestida em suas ausências por grandes nomes como Nani, Ricardo Quaresma, Fábio Coentrão, André Silva, Bruma, Ricardo Horta e Miguel Veloso, enquanto nomes como Pedro Neto e Trincão permaneceram no banco com esse mesmo número.
O veto da Fifa: por que a camisa não pode ser aposentada?
Aqui entra o veto chocante. Do ponto de vista regulatório, a Federação Internacional de Futebol proíbe terminantemente a retirada e o bloqueio de números nas seleções masculinas, por maior que seja o tamanho do jogador.
Até mesmo a sugestão emocional feita pela lenda Paulo Futre em outubro passado, durante a cerimônia de premiação da Fundação do Esporte, quando disse: "Se eu estivesse na federação de futebol, aposentaria a camisa 7, Cristiano precisa sair por cima", esbarra nessa barreira legal. A Fifa não permite a homenagem por meio do bloqueio de números nas seleções, enquanto a permite nos clubes.
Precedentes de recusa: de Maradona a Messi
Portugal não é o primeiro a tentar, e o resultado de sua tentativa será o mesmo de todos os que o antecederam.
Maradona: em 2001, a federação argentina apresentou um pedido oficial para aposentar a camisa número 10 em homenagem a Diego Maradona. A Fifa recusou o pedido categoricamente, e o resultado foi que Ariel Ortega vestiu a mesma camisa lendária na Copa do Mundo de 2002.
Messi: o cenário se repetiu literalmente com Lionel Messi. Após o anúncio de sua aposentadoria, a federação argentina pediu a retirada da sua camisa 10, e o pedido foi recusado mais uma vez pelo mesmo motivo legal.
Marc-Vivien Foé: o caso mais comovente foi o do camaronês que morreu de parada cardíaca dentro de campo na Copa Africana de Nações de 2003. Camarões tentou aposentar sua camisa número 17, mas a Fifa recusou, enquanto os clubes permitiram: o Manchester City aposentou sua camisa 23 e o Lens, a camisa 17, pois os regulamentos dos clubes são diferentes.
Por isso, a própria história de Ronaldo com os números prova que a camisa não depende de um jogador, já que sua primeira aparição foi com a camisa 16 no Chaves, e depois vestiu a 17 da Euro 2004 até a Copa do Mundo de 2006, número com o qual brilhou até a aposentadoria de Luís Figo, o dono histórico do número 7, e somente a partir de 2007 o número 7 passou a ser seu.
Agora, a era do 7 chegou ao fim com Ronaldo, mas o próprio número 7 não vai acabar: buscará um novo herdeiro, pois as regras da Fifa não reconhecem lendas quando o assunto são os números.



