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O "bebê chorão" - a história da infância de Cristiano Ronaldo em Madeira


MATÉRIA ESPECIAL 

Cristiano Ronaldo já percorreu um longo caminho. Campeão Europeu com o seu clube e país em 2016, e com um recente contrato renovado com o Real Madrid, o vencedor do prêmio de melhor jogador do mundo pela Fifa mostra que a vida está boa aos 31 anos. 

Mas as coisas nem sempre foram tão boas. O bebê Cristiano foi uma criança não planejada, o mais novo de uma família humilde na ilha de Madeira, em Portugal. Nasceu no dia 5 de fevereiro de 1985, em Santo Antonio, um bairro montanhoso e uma das comunidades mais pobres da capital Funchal.

O filho de Dolores, uma cozinheira, e Dinis, um jardineiro, ganhou mais um membro, que recebeu o nome de Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro - Ronaldo a parte escolhida do então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan.

O futebol era uma parte da vida do jovem cristão. O pai Dinis, alcoólotra, que infelizmente faleceu de doença hepática em 2005, trabalhou como roupeiro no clube local Andorinha, nomeou Fernão Barros Sousa, um jogador local, como padrinho da criança.

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"Eu me tornei padrinho de Cristiano Ronaldo porque eu joguei no Andorinha, onde eu conheci seu pai, e assim, quando ele nasceu, Dinis perguntou se eu gostaria de ser o padrinho de batismo", afirmou Sousa em entrevista à Goal.

"Naquele dia, a equipe estava jogando em Ribera Brava, então, precisei ir lá, assim como Dinis. Chegamos muito tarde no batizado e o sacerdote não queria mais realizar a cerimônia! Tivemos que convencer o padre. É uma coisa engraçada, estava tudo pronto para começar, mas não fomos lá. Não foi bom".

Mais tarde, Ronaldo ia acompanhar seu pai, e quando teve idade o suficiente, começou a frequentar o Andorinha.

"Quando ele era pequeno, era apenas como as outras crianças. Mas ele tinha algo diferente. Quando as outras estavam estudando, ele estava jogando bola. Uma vez, ele tentou driblar e, obviamente, ele copiou dos outros jogadores. Ele fez muito isso.", disse Sousa.

Cristiano começou a jogar pelo Andorinha, seu primeiro clube, com oito anos. E mesmo assim seu talento era evidente.

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"Tínhamos oito, nove anos de idade", disse seu ex-companheiro de equipe, Ricardo Santos, hoje treinador do Andorinha. "E naquele tempo, CR7 já era um grande jogador".

"O que me lembro, é que ele era um menino humilde. E quando ele não tinha a bola, ele chorava. Quando perdia, chorava. Mas já era um bom jogador. Marcava muitos gols e driblava bastante", completou.

"Cristiano realmente gostava de ganhar. Quando isso não acontecia, ele chorava. Tanto é que seu apelido era "bebê chorão", revelou Sousa.

"Ronaldo era chamado de abelhinha porque era pequeno e muito rápido".

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E como a abelhinha zumbia ao redor dos campos de lama nas montanhas madeirenses, não demorou muito para os clubes tomarem o conhecimento do atleta - incluindo o Nacional, maior time da ilha.

"Cristiano chegou ao Nacional quando eu era olheiro. O treinador foi para ver um jogo do Andorinha e se interessou por ele. Fui falar com a Dolores e ela aceitou. Desta forma, ele chegou ao clube", disse Barros Sousa.

Além de padrinho, Sousa também realizou um papel crucial na carreira do jovem como jogador de futebol. 

"Em Madeira, seu talento era reconhecido. Ainda era muito jovem naquela época, mas podia ver que ele tinha algo especial", Pedro Talinhas, ex-técnico juvenil do Nacional.

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"Ele chegou ao Nacional com 10 anos. Era um jogador muito bom tecnicamente, muito bom com os dois pés. Era pequeno, mas muito técnico. Muita coisa que você vê nele hoje, principalmente nos gols, já era visto antes.",

"Você percebia que ele era miúdo, mas com imensas qualidades e potencial. Se ele trabalhasse e continuasse com essa vontade, ele alcançaria muita coisa. A gente podia ver o quão longe ele chegaria? Não. Só que ele tinha muita capacidade", disse Talinhas.

E foi exatamente o que iria acontecer. Até então, Cristiano era o talento de Madeira. No entanto, a ilha nunca tinha produzido um jogador de seleção e muito menos um dos melhores do mundo. Por isso foi difícil imaginar naquele momento. Não seria por muito tempo.

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Barros Sousa apresentou Cristiano à João Marques de Freitas, um dos sócios do Sporting e um homem com fortes contatos no clube de Lisboa.

"Conheci o menino, mas nunca o tinha visto jogar. Não sou treinador, mas liguei para Aurelio Pereira (olheiro do Sporting) que tem um grande olho para detectar jovens jogadores que podem construir uma brilhante carreira. Liguei e avisei que tinha um menino que falam que é muito bom. Falei com a Dolores e ela concordou.".

"Ele foi no sábado e três dias depois Aurelio me disse que o menino era muito bom. Até os profissionais verificaram as habilidades do menino".

Sporting ficou impressionado com a qualidade do jovem de 12 anos. Ronaldo então mudou para a capital portuguesa. Tudo por conta própria. No entanto, houve problema.

"Foi muito difícil para ele se adaptar em Lisboa, porque os madeirenses tem uma pronúncia que é muito diferente de Lisboa. Teve problemas na escola, riam dele e eu resisti. Teve um momento que ele quis sair, mas felizmente ficou. Ele passou por um mau momento", disse De Freitas.

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"No segundo ano, ele retornou para Madeira. Sporting o enviou porque não queriam um jogador infeliz. Naquele tempo, precisei intervir  e dizer  que ele precisa ir para Lisboa e jogar pelo Sporting, porque ele era o futuro da família. E foi o que aconteceu.", explicou Sousa.

Assim, Ronaldo voltou e nunca mais olhou para trás, estabelecendo dentro e fora dos gramados.

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De suas origem humilde, Cristiano completou 18 anos e entrou para um dos maiores clubes do mundo: "À partir do momento que foi para o Manchester United, todas as pessoas começaram a ver o seu real valor. Desde então, ele surpreendeu todo mundo", disse seu ex-companheiro Santos.

"E pensar que um dia seria o melhor jogador do mundo. Nunca imaginamos enorme potencial. Mas sim, todos foram surpreendidos", disse Talinhas.

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Barros Sousa ainda vê o seu afilhado: "De vez em quando vou para Madrid. É uma grande satisfação, me dá alegria. Obviamente, quando gosto de vê-lo marcar gols e conquistar títulos, tanto individual, quanto coletivamente. Isso me dá muito orgulho", disse o padrinho.

"Gosto muito de Cristiano Ronaldo, ele é uma boa pessoa e um homem de família. Ele ajudou muitas pessoas aqui", disse Freitas.

Talinhas acrescentou: "Devemos ser gratos porque ele é uma figura mundial. Tem um carinho enorme por sua terra, sua ilha, o lugar onde nasceu. Estamos muito orgulhosos dele".

Ronaldo, é claro, abriu um museu e um hotel em Madeira, mas nas montanhas em Andorinha, ainda há imagens de um jovem cristão enfeitando o estádio. Um lembrente constante de ligação do clube com o jogador. Ele deixou para trás suas raízes humildes para se tornar um dos melhores futebolistas de todos os tempos.

"Todas as crianças que jogam aqui têm o sonho de Ronaldo. Eles querem ser como ele. Todos eles", disse Rui.

"Mas não haverá outro Ronaldo aqui em Madeira. Há apenas um, não terá outro", completou.

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