Neste último dia 19 de Fevereiro, se estivesse vivo, Sócrates completaria mais um ano de vida. Se estivesse, não. Porque ele está. Eu me recuso aceitar que Sócrates não está aqui entre nós fazendo o Corinthians cada vez sobrenatural e vencedor.
Neste fim de semana também findamos o Carnaval com o Desfile das Campeãs e os últimos blocos e trios passando pelo país afora. Pois foi justamente num sonho de Carnaval que eu vi Sócrates pela única vez na minha vida.
DivulgaçãoEra manhã de Carnaval. Marquês de Sapucaí. 2010. Um ano antes do Doutor desencarnar. A Estação Primeira de Mangueira desfilava o seu enredo sobre a Música Brasileira encerrando os Desfiles do Grupo Especial naquele ano. Desfile este, que foi vencido pela Unidos da Tijuca, na época com Paulo Barros.
Ainda não era céu azul, sol raiando. Estava preto, escuro. Mas quase manhã.
Não era novidade pra ninguém que Sócrates, além de um grande corinthianista e democrata, também era mangueirense. Já havia se envolvido com a Verde e Rosa em outros capítulos históricos da Marquês de Sapucaí nos anos 80. Mas a última coisa que eu imaginava é que fosse vê-lo numa manhã de Carnaval. O Corinthians, como todos os clubes grandes brasileiros, estava de folga naquela segunda para terça. Mas nunca é demais para balançar uma bandeira, vestir uma camisa.
David Cannon/Getty
(Foto: David Cannon/Getty Images)
E lá estava eu, na Frisa do Setor 12 na Sapucaí, vendo a Mangueira findar o seu grande desfile, (que ficara em 6º lugar por alguns problemas estéticos) quando eu me encontro com ele.
Sim, Sócrates, desfilando na Mangueira. Do meu lado, passando em sua ala, não me recordo qual, parou um tempão em minha frente. Eu usava uma CyberShot da minha mãe, e não hesitei: iria fotografar o Doutor.
Num capricho do destino, após centenas de fotos nas noites de Desfile, a máquina se recusou a funcionar. Travou. Eu apertava para fotografar e o botão não ia. Sócrates sorria. Lembro bem. Mas a ala precisou andar.
Acredite. Não fotografei Doutor Sócrates.
Mas eu o vi, como um anjo, como uma magia, numa manhã de Carnaval.
Sócrates foi embora. Nos dois sentidos, no do tempo de desfile e no tempo da vida - este, um ano e dez meses depois. Mas eu carrego a magia comigo para todo o sempre, que vi o Doutor em plena manhã de Carnaval.
Foi o nosso único e último encontro até a sua morte.
Que Sócrates faça o nosso Corinthians renascer no Derby como uma linda manhã de Carnaval. E que o que ficou pra trás em Janeiro e Fevereiro vire cinzas.




