As atenções se voltam, nesta quinta-feira, para a cidade suíça de Lausanne, onde a batalha jurídica sobre a identidade do campeão da Copa Africana de Nações 2025 entra em uma fase decisiva, com o comparecimento das federações marroquina e senegalesa e da Confederação Africana de Futebol (CAF) perante o Tribunal Arbitral do Esporte (TAS).
Os meios esportivos de Marrocos e do Senegal aguardam o resultado da audiência, em um caso que remonta a um cenário emocionante vivido na partida final do torneio, quando os jogadores da seleção senegalesa deixaram o gramado antes de retornarem para completar a partida, que terminou com sua vitória sobre Marrocos na prorrogação.
O Tribunal Arbitral do Esporte apresenta, diante de 3 árbitros, os argumentos de todas as partes, em meio à consciência de que o caso tem caráter excepcional, após ter de decidir entre dois resultados contraditórios: um resultado conquistado dentro de campo e uma decisão jurídica emitida posteriormente que considerou o Senegal perdedor por desistência e concedeu a vitória a Marrocos por 3 a 0.
Marrocos se apega à aplicação dos regulamentos da CAF
A posição marroquina se baseia em uma leitura rigorosa dos regulamentos da Confederação Africana, uma vez que afirma que a saída de qualquer equipe do gramado sem a permissão do árbitro exige que ela seja considerada perdedora por desistência.
A comissão de recursos da CAF havia se baseado nos artigos 82 e 84 do regulamento do torneio quando decidiu, em março passado, retirar o resultado da partida do Senegal e validar a vitória de Marrocos pelo placar de 3 a 0.
O lado marroquino se apega a essa decisão e exige a manutenção do título em seus cofres, enquanto a federação senegalesa, por sua vez, apresenta suas alegações jurídicas perante o Tribunal Arbitral para recorrer da decisão da CAF.
A história da cigarra e da formiga
Em uma leitura marcante do confronto jurídico entre Marrocos e Senegal, o site marroquino Le360 Sport recorreu à famosa fábula da cigarra e da formiga do escritor francês Jean de La Fontaine, em uma tentativa de oferecer uma imagem simbólica da disputa que acontece fora de campo, depois que o caso da final da Copa Africana de Nações 2025 passou do retângulo verde para os corredores das comissões e dos tribunais esportivos.
O site considerou que a partida parecia decidida dentro de campo após seu encerramento com a vitória do Senegal por 1 a 0 na prorrogação, depois da saída temporária dos jogadores senegaleses do gramado em protesto contra a decisão de marcar um pênalti para Marrocos, antes de retornarem para completar a partida, com Édouard Mendy defendendo a cobrança de Brahim Díaz, e o Senegal marcando em seguida o gol da vitória na prorrogação.
Mas a "outra partida" começou depois disso, após a comissão de recursos da Confederação Africana de Futebol decidir, em 17 de março de 2026, considerar o Senegal perdedor por desistência e validar a vitória de Marrocos por 3 a 0, com base nos artigos 82 e 84 dos regulamentos.
A partir daí, o Le360 Sport entende que a "cigarra senegalesa", que deixou o gramado e depois retornou a ele, se viu diante de uma "formiga" marroquina mais tranquila, mas que se apegou à leitura dos regulamentos até o fim.
O site aponta que o Senegal conseguiu uma nova chance ao recorrer ao Tribunal Arbitral do Esporte em Lausanne, iniciando assim uma "prorrogação adicional" do confronto, mas sem bola, arquibancadas ou tecnologia do árbitro de vídeo assistente.
Desta vez, o confronto será por meio de petições jurídicas, documentos, argumentos e leitura dos textos regulamentares, em uma batalha que pode ser menos emocionante do que um pênalti ou um gol, mas mais decisiva na definição do destino do título.
Qual é a história da cigarra e da formiga?
"A cigarra e a formiga" é uma das mais famosas fábulas do poeta e escritor francês Jean de La Fontaine, e apareceu em seu primeiro livro de "Fábulas", publicado em 1668.
A história começa com a cigarra, que passa o verão cantando, sem guardar nada para o inverno, e, quando chega o frio, se vê sem comida, indo então até a formiga para pedir que lhe empreste alguns grãos até a chegada da nova estação.
Mas a formiga recusa e lhe pergunta o que ela fazia durante todo o verão, ao que ela responde que estava cantando, e a formiga lhe retruca com ironia: "Você estava cantando? Então dance agora".
La Fontaine baseou essa fábula em uma tradição mais antiga, que remonta a Esopo, e fez da cigarra e da formiga dois símbolos de comportamentos opostos: a cigarra, que vive o momento e não se prepara para o que está por vir, e a formiga, que trabalha, poupa e se prepara para o futuro.

