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De 18 meses de desemprego à final da Copa do Mundo... Como De la Fuente reescreveu seu destino?

Ninguém esperava que o homem que deixou o estádio Mendizorroza com a cabeça baixa no outono de 2011, após ser demitido do cargo de técnico do Deportivo Alavés, voltasse, poucos anos depois, para subir ao maior palco do futebol mundial como técnico da seleção espanhola na final da Copa do Mundo.

Entre esses dois momentos, Luis de la Fuente viveu um dos períodos mais difíceis de sua vida: dezoito meses sem emprego, sem certezas e com perguntas intermináveis sobre seu futuro no mundo do treinamento.

Mas essa fase, que para muitos parecia o fim da linha, transformou-se para ele em um verdadeiro recomeço. Ele aproveitou esse período para aprender, se desenvolver e se reconstruir, até se tornar hoje um dos treinadores mais respeitados do futebol mundial, depois de conduzir a Espanha a uma série de conquistas e de redefinir a identidade da “La Roja” com seu estilo tranquilo e sua personalidade equilibrada.

  • Uma demissão severa abriu as portas para o desconhecido

    Em 16 de outubro de 2011, o Deportivo Alavés tomou a decisão de demitir De la Fuente após um início instável de temporada na Segunda Divisão B espanhola. A decisão foi tomada após apenas onze partidas, nas quais a equipe conquistou quatro vitórias e três empates, contra quatro derrotas.

    Embora os resultados não fossem desastrosos, a diretoria do clube buscava a liderança desde o início e não concedeu ao técnico tempo suficiente para implementar seu projeto técnico, que se baseava na posse de bola e na construção do jogo a partir da defesa — o mesmo estilo pelo qual ele se tornou conhecido posteriormente com a seleção espanhola.

    O então presidente do clube, Avilino Fernández de Quencosís, admitiu anos depois que a decisão de demiti-lo não foi fácil, afirmando que De la Fuente aceitou a notícia com serenidade e dignidade, sem manifestar qualquer objeção ou emoção, o que deixou uma impressão inesquecível nos dirigentes do clube, segundo informou o jornal espanhol “As”.

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  • Italy U19 v Spain U19 - International FriendlyGetty Images Sport

    Alavés em tempos de crise

    A passagem de De la Fuente pelo Alavés ocorreu em um dos períodos mais turbulentos da história do clube, que enfrentava crises financeiras sufocantes e dívidas acumuladas que quase destruíram seu futuro, após passar por períodos de instabilidade administrativa.

    Apesar dessas circunstâncias difíceis, o técnico espanhol deixou uma excelente impressão em todos dentro do clube, tanto no plano humano quanto no profissional. Os dirigentes do Alavés o descreveram como alguém de grande integridade, que não perdia o sorriso nem a serenidade mesmo nos momentos mais difíceis.

    O ex-presidente do clube lembra-se de um encontro com Dee La Fuente durante um jantar preparado por sua mãe, afirmando que o que mais ficou gravado em sua memória não foram os resultados dos jogos, mas a elegância do homem e o respeito que demonstrava por todos.

  • Um choque que os jogadores não esqueceram

    O atacante catalão Jeto foi um dos últimos jogadores a marcar gols sob o comando de De la Fuente; aliás, ele marcou o gol de empate na última partida antes da demissão do técnico.

    O jogador afirma que o time não merecia a troca da comissão técnica, ressaltando que De la Fuente estava à frente de seu tempo no que diz respeito ao estilo de jogo, pois acreditava na posse de bola e na saída organizada com a bola, ideias que não encontraram paciência suficiente dentro do clube.

    Ele acrescenta que o técnico era querido entre os jogadores e passava longas horas na academia, a ponto de, às vezes, parecer mais comprometido com os treinos físicos do que os próprios jogadores.

    Jeto relembra a cena da despedida na manhã seguinte à demissão, quando De la Fuente entrou no vestiário para se despedir de seus jogadores, em um estado de tristeza e desânimo, após sentir que seu projeto havia chegado ao fim antes mesmo de começar.

    Entre os presentes naquela noite estava seu sobrinho, Luis de la Fuente, que acompanhou de perto a trajetória do tio. Ele diz que não esquece os gritos que pediam a saída do técnico durante a partida, mas estava convencido de que seu tio havia nascido para realizar coisas maiores do que treinar o Alavés.

    Ele acrescenta que os membros da família repetiam constantemente para ele uma frase após a demissão: “O melhor ainda está por vir”, palavras que mais tarde se tornaram realidade em todos os seus detalhes.

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  • Dezoito meses de sofrimento

    Para De la Fuente, o desemprego não foi apenas a ausência dos bancos de reservas, mas sim uma fase repleta de pressões psicológicas e materiais. Com cerca de 50 anos, ele se viu sem time, sabendo que voltar ao mercado de treinadores nessa idade não é fácil, especialmente diante da grande concorrência entre os técnicos.

    Sua família tornou-se o verdadeiro refúgio que o ajudou a superar esse período. Ele voltou a morar perto de seus três filhos, passou mais tempo com a família em Bilbao e visitava constantemente sua cidade natal, Haro, onde recuperava a tranquilidade ao lado de seus familiares.

    Apesar do desemprego, De la Fuente não se permitiu afastar-se do futebol. Ele percorreu toda a Espanha, passando por diversos clubes para acompanhar os treinos, conversar com os treinadores e trocar experiências com eles.

    Além disso, dedicou-se ao estudo das ideias do técnico argentino Marcelo Bielsa, a quem considerava uma das principais referências do mundo do treinamento, e se empenhou em se aperfeiçoar teoricamente; chegou até a começar a aprender inglês, preparando-se para qualquer oportunidade futura.

    Ele estava ciente de que o maior risco para qualquer técnico é ficar fora de cena; por isso, fazia questão de aparecer constantemente em campos de futebol, conferências e eventos esportivos, para não se afastar do centro das atenções.

  • Spain Training Session - FIFA World Cup 2026Getty Images Sport

    Os hobbies que o ajudaram a se manter firme

    O futebol não era a única coisa que ocupava a vida de De la Fuente naquela época. Ele continuava praticando esportes diariamente, passou a fazer duas sessões de treino na academia e também reservava tempo para a leitura, especialmente sobre história romana, filosofia e histórias de gladiadores.

    Ele encontrava um refúgio nos encontros com seus amigos, seja em Bilbao, em Vitória ou em Sevilha, além de suas visitas frequentes ao restaurante “Elcano”, em Getaria, de propriedade de seu ex-companheiro Aitor Arregi, detentor de uma estrela Michelin.

    Arregi afirma que De la Fuente nunca mudou, seja quando era jogador, treinador ou mesmo durante o período em que esteve desempregado, pois sempre se manteve humilde, elegante em seus modos e fiel aos seus valores humanos.

  • A oportunidade que mudou tudo

    Em maio de 2013, a Federação Espanhola de Futebol começou a procurar um novo técnico para a seleção sub-19. O coordenador das seleções de base, Genis Meléndez, havia pensado inicialmente em contratar Fernando Morentis, mas este preferiu continuar na academia do Real Madrid.

    Foi então que o experiente técnico Iñaki Saiz, amigo íntimo de De la Fuente, interveio e o recomendou veementemente, afirmando que ele era a pessoa mais adequada para a função. E, de fato, De la Fuente conseguiu uma entrevista, e foi a partir dela que sua nova jornada começou.

    No início, a Federação Espanhola ofereceu-lhe apenas um contrato de três meses. Mas De la Fuente acreditava que essa oportunidade seria o início de um projeto de longo prazo; por isso, alugou um apartamento em Madri logo nos primeiros dias, convencido de que permaneceria na Federação. E sua intuição não o enganou.

    A Federação renovou seu contrato apesar de alguns tropeços iniciais, e ele passou a conquistar sucessos com diversas categorias de base, levando a Espanha a títulos europeus e mundiais nas categorias de base, antes de assumir o comando da seleção principal. Hoje, seu contrato vai até 2028, depois de se tornar um dos treinadores mais destacados da história do futebol espanhol moderno.

  • Uma mensagem que vai além do futebol

    Apesar de todos os sucessos alcançados, pessoas próximas a De la Fuente afirmam que ele continua mantendo a mesma serenidade que o caracterizava nos momentos mais difíceis. Além disso, ele faz questão de manter a família por perto durante os concentrados da seleção, em uma atitude que reflete sua convicção do importante papel que a família desempenhou ao ajudá-lo a superar as fases mais difíceis de sua vida.

    Para seus familiares, ver Luis comandando a Espanha na final da Copa do Mundo representa a maior recompensa por anos de paciência e sofrimento, após uma jornada que começou com a demissão e o desemprego e terminou na disputa pelos maiores títulos.

    A história de Luis de la Fuente não se limita ao sucesso de um técnico no mundo do futebol, mas oferece uma lição de vida para todos aqueles que passam por um período de desemprego, desânimo ou pela sensação de que as portas se fecharam diante deles.

    Ao longo de dezoito meses, ele viveu em ansiedade, em dificuldades financeiras e com medo de ser esquecido, mas se recusou a desistir, investiu seu tempo em aprender, aprimorar suas experiências e acreditar que a oportunidade viria, por mais que demorasse. E quando essa oportunidade chegou, ele estava totalmente preparado para ela.

    Por isso, a jornada de De la Fuente, do desemprego à final da Copa do Mundo, não é apenas uma história de sucesso esportivo, mas um testemunho vivo de que o fracasso pode ser um novo começo e de que os capítulos mais difíceis podem se transformar, com paciência, trabalho e fé, nas maiores histórias de vitória.