LÍDERES DA MUDANÇA

Por Raisa Simplicio no Nordeste do Brasil



"O futebol feminino depende de vocês para sobreviver", disse Marta, emocionada, após a eliminação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo Feminina. "Pensem nisso, valorize mais. A gente pede tanto, a gente pede apoio, mas a gente também tem que valorizar".

A mensagem da Rainha do Futebol ecoou em todo o mundo.Os olhos estavam voltados para o futebol feminino que alcançou, no mês de junho, no Mundial da França, uma audência recorde com mais de um bilhão de telespectadores. A esperança era de que ela estava sendo ouvida em cada canto do Brasil, já que, pela primeira vez na história, todos os jogos da equipe feminina foram transmitidos em TV aberta para todo o país.

A época de ouro está chegando ao final para o futebol feminino brasileiro, uma vez que pioneiras como Formiga, Cristiane e Marta, seis vezes eleita a melhor jogadora do mundo, se aproximam do momento de passar o bastão. "É sobre querer mais, é sobre treinar mais, é sobre cuidar de si mesmo, é sobre estar pronto para jogar 90 minutos e depois 30 minutos mais. Não vai ter uma Formiga para sempre, não vai ter uma Marta para sempre, não vai ter uma Cristiane."

O futebol feminino depende de vocês para sobreviver"

-Marta

Marta estava tentando levantar uma geração, mas ela é muito consciente dos obstáculos que o Brasil joga no caminho de cada jovem esperançosa, que sonha um dia vestir a camisa da Seleção e fazer história no futebol.

"Na rua de casa eu era a única que jogava junto com os meninos, tentava brincar com as meninas as brincadeiras delas, minha brincadeira era mais bruta, elas não permitiam, não sei se porque uma menina jogava bola ou se porque eu vivia de dedão estourado, descalça e aquilo não era legal", relembra Cristiane, craque da Seleção Brasileira, sobre a dificuldade de dar os primeiros passos no futebol ainda que o esporte, naquele momento, fosse apenas uma brincadeira.

O preconceito cultural é um dos maiores problemas que as meninas enfrentam no Brasil. Isso se torna ainda mais forte nas zonas rurais do país, que permanecem menos progessivas do que as grandes cidades. Mas a Plan International está empenhada em mudar tudo isso, através de uma série de projetos humanitários que visam educar as crianças sobre os seus direitos básicos e promover a igualdade para todos.

Através do futebol, garotas ganham a oportunidade de conhecer o poder de participação das mulheres na sociedade e lutar por seus direitos. E é por isso que DAZN e Stats Perform, duas marcas globais de mídia, se uniram à organização para ajudar a mudar o mundo através da força do esporte.

A Plan International é uma organização mundial de caridade focada nos direitos das crianças e igualdade para meninas. DAZN e Stats Perform estão apoiando sua iniciativa Líderes da Mudança, no Nordeste do Brasil, aproveitando a força do futebol para promover a igualdade de gêneros e melhores relacionamentos entre meninas e meninos.

Em junho, a Plan International organizou o primeiro campeonato de futebol entre as comunidades da zona rural da região. Mais de 300 jovens, que participam do projeto Lideres da Mudança, cruzaram suas histórias com apenas um objetivo: serem vencedores não só no campo, mas também na vida.

"A Plan International está nos ajudando a acreditar na gente, fazendo com que a gente atinja o nosso potencial. Tem meninas que, antes do projeto, nem queriam saber do futebol e agora estão querendo aprender o esporte", revela Yara, de 18 anos, participante do projeto e da equipe feminina que venceu o torneio.

A jovem chegou ao Líderes da Mudança por conta de uma vizinha, e rapidamente se encantou pela temática do projeto, descobriu em si uma liderança e hoje tenta engajar outras meninas a também fazerem parte. Ela aprendeu a ser uma voz ativa e brigar por melhorias na sua comunidade.

Este ano, Yara gravou um vídeo mostrando as dificuldades que as meninas de sua região encontram por conta da falta de energia pública. A ida e vinda fica restrita pela ausência de iluminação, segurança e transporte.

Ela exibiu a gravação em uma audiência da Defensoria Pública, onde foi apresentado um relatório que buscou convencer as autoridades locais a combaterem os problemas.

O Piauí tem um dos indíces mais altos de violência contra a mulher no Brasil, no entanto, 65% das vítimas não procuram ajuda, seja por medo ou simplesmente não saberem que estão sendo violentadas. Um dos pontos focais do projeto é também ajudar as mulheres através de oficinais que acontecem em parelelo aos treinos a indetificar qualquer tipo de abuso.

Os workshops e os programas educacionais da Plan International não apenas servem de distração da vida cotidiana, mas também deixam um legado que pode ajudar os jovens a mudar de vida. O projeto, no entanto, não afeta apenas os adolescentes, como também os pais, que são parte importantíssima do processo. Afinal, eles se colocam à disposição como voluntários para ajudar nas oficinas e nos treinos. Um exemplo disso é Silvana, que também teve a sua vida impactada pela chegada do Lideres da Mudança em sua comunidade.

Mãe de quatro filhos, esposa, auxiliar de serviços gerais, treinadora e principalmente uma voz ativa na luta pela melhoria do acesso ao esporte em sua região. Silvana tem papel fundamental no projeto, treinando meninos e meninas e sendo uma forte influência em sua comunidade.

O futebol sempre esteve presente na vida de Silvana, que descobriu um talento especial sob o travessão. Ela foi goleira, e se apegou ao esporte como ferramenta para melhorar sua saúde, trabalhar o espírito de equipe e crescimento pessoal. Foi através dele que ela decidiu ajudar a transformar a vida de pessoas ao seu redor e, principalmente, dentro de sua própria casa, com a filha Victória.

"Aqui na frente tinha um senhor que começou a formar um time feminino. Eu entrei por brincadeira e acabei ficando, aí ele desistiu e eu acabei tomando conta do time. Com 11, 12 anos a Victória começou, ela foi se engajando, e foi aí que eu fui gostando mais ainda. Onde meu time vai jogar, se ela não for é briga séria, ela tem que ir".

O orgulho da filha está estampado nos olhos de Silvana. Também pudera: a garota de 18 anos é atleta da mãe, ajuda no engajamento de mais meninas para o projeto e é muito dedicada aos estudos. Vitória é uma das poucas garotas da região que conseguiu chegar na faculdade, hoje estuda nutrição e espera que, com a sua futura profissão, possa contribuir ainda mais para o desenvolvimento das comunidades no Nordeste brasileiro.

"No começo, no ensino médio não tinha ônibus escolar aqui na Zona Rural", lembra Victória. "Às vezes, pela questão financeira, eu não tinha passagem para me deslocar. Depois, com o ônibus escolar ficou mais fácil. Eu fiz o Enem e passei no Prouni, mas por conta de documentação da minha mãe eu não consegui me matricular. Depois fiz outro vestibuar e consegui passar para nutrição. Eu me vejo capaz de ajudar as outras pessoas a crescer como eu cresci com a ajuda do projeto".

Mãe e filha colhem frutos, mas, segundo Silvana, o apoio dos homens da casa é fundamental. São eles, inclusive, que ajudam nas tarefas domésticas, diminuindo o trabalho e deixando a dupla com menos afazeres para poderem se dedicar a seus sonhos.

"Minha mãe sempre incentivou. “vai!”."

-Formiga

"Os meus meninos me ajudam muito dentro de casa, quando eles estão em casa se eu for trabalhar quando eu chego minhas coisas estão tudo feitas, comida, tudo feito. Estando em casa eles fazem tudo".

Isso é muito significativo, principalmente em zonas onde este tipo de comportamento masculino é mais difícil. Afinal, os homens são educados para trabalhar na rua enquanto as mulheres ficam em casa fazendo as tarefas.

Esse foi, inclusive, um dos obstáculos que Formiga, recordista de participações em Copas do Mundo, teve que enfrentar quando dava os primeiros passos no futebol.

"Eu enfrentei bastante dificuldades. Em relação ao meus irmãos, eles não gostavam de me ver jogando bola com outros meninos. Era o ciúmes, era também porque eu jogava bem mais do que eles. Os colegas ficavam zoando. As vezes falavam que futebol não era coisa de mulher, que tinha que ficar em casa lavando louça", relembra a craque.

E foi justo na figura da mãe que a meio-campista ganhou a força necessária para seguir trilhando, e hoje poder ser fonte de inspiração não só para as jovens da zona rural de Nordeste, como para todas as meninas do mundo.

"Minha mãe sempre incentivou. “vai!”. Até porque ela não ficava em casa, ela ia trabalhar."

É justamente isso que o projeto da Plan International tem feito. Junto com pais, que são voluntários, vem o incentivo necessário para que as meninas não desistam de seus sonhos e aprendam a construir um mundo melhor. No dia do torneio, mais de 300 jovens desfilaram talento, ousadia e transbordaram emoção em cada momento.

Da Capoeira na abertura, para a disputa da bola no campo. As meninas escolheram o gramado menor, para que sobrasse mais energia durante o tempo de jogo. Os meninos torciam para as meninas de suas respectivas comunidades e vice-versa, numa mostra de cooperação e companherismo independente de gênero.

Nem mesmo um sol de 32 graus foi capaz de abalar o estusiasmo e a disposição dos adolescentes. A premiação aconteceu pouco antes do sol ir embora, afinal, não há luz no campo. Mas mesmo que apenas duas equipes tenham levantado a taça, houve a certeza de que todos sairam dali vencedores, e mais fortalecidos para buscarem seus objetivos.

"Tem que chorar no começo para sorrir no fim", disse Marta, emocionada, na tarde em Le Havre em que a seleção se despediu do Mundial Feminino.

A mensagem era destinada a essas meninas no Nordeste do Brasil. As palavras da Rainha do Futebol ecoaram por todo o mundo, mas talvez em nenhum outro lugar ecoaram por lá.


A Plan International UK é uma organização humanitária global. Nós trabalhamos para dar a cada criança a mesma chance na vida.