PÉS DESCALÇOS, DEDÃO MACHUCADO

CRISTIANE, UMA DESBRAVADORA BRASILEIRA

Raisa Simplicio e Rupert Fryer


"Eu sou uma menina muito simples", diz Cristiane, com olhar caindo enquanto se acomoda na cadeira no icônico estádio do Morumbi, em São Paulo. "Eu venho de uma família humilde, de uma mãe que tentou o máximo possível dar suporte para os seus filhos". Essa poderia ser a descrição de milhares de brasileiras mas trata-se de uma mais do que especial, Cristiane Rozeira de Souza Silva, a maior artilheira da história dos Jogos Olímpicos entre homens e mulheres.

Desde cedo, "Cris" sabia que tinha um relacionamento diferente com a bola, ela era a única entre as meninas de sua idade que optava pelo futebol entre qualquer outra brincadeira e, por isso, entre os pés no chão, o golzinho de chinelo e a redonda rolando no asfalto, ela teve que enfrentar tão jovem o preconceito sem nem ainda saber que isso existia.

"Simplesmente era a minha paixão, sempre foi", Cristiane conta a Goal e Plan International, uma organização mundial de caridade para crianças, que está aproveitando a força e a popularidade do futebol para ajudar algumas das crianças mais carentes do mundo a realizarem seu potencial, ao mesmo tempo em que luta para transformar a vida de meninas através da educação com a campanha Fique com as Meninas.

"Na rua de casa eu era a única que jogava junto com os meninos, tentava brincar com as meninas as brincadeiras delas, minha brincadeira era mais bruta, elas não permitiam, não sei se porque uma menina jogava bola ou se porque eu vivia de dedão estourado, descalça e aquilo não era legal", relembra a jogadora, que não esconde que o preconceito vindo dos adultos era o que mais machucava.

"Realmente as pessoas me ofendiam, quando você escuta de adulto é muito pior porque, criança, você simplesmente só quer brincar e para você, na sua cabeça, não tem definição de brincadeira de menino ou de menina. Então, quando vinha de adulto me feria mais. Eu passei por situações de chegar em casa chorando porque escutava alguma coisa que era bem pesada".

E foi justamente graças ao preconceito que Cristiane rumou em direção ao seu grande sonho. Vendo o talento da craque, o vizinho, que se tornou o padrinho no futebol, tentou convencer Dona Ivete a deixar a menina jogar.  Reticente quanto ao assunto, ela levou a filha para o balé, ginástica olímpica até mesmo capoeira, mas depois que Cris chegou em casa chorando por ofensas que recebeu na rua, veio o veredito da mãe: "agora a minha filha vai jogar futebol".

Então aos 12 anos de idade, Cristiane entrou numa escolinha de futebol.  Aos 14, veio o primeiro clube da carreira, o Juventus da Mooca, e foi exatamente ali que a artilheira entendeu que a bola era realmente o seu destino.

Dois anos depois, aos 16, a garota que jogava bola na rua já estava na Seleção Brasileira. Aos 17, disputava sua primeira Copa do Mundo e logo emendava para sua primeira Olimpíada. As coisas aconteceram rápido, mas longe de ter sido fácil para Cristiane.

"Eu passei várias dificuldades, eu pulei as etapas, me fez falta, mas todo mundo entendia que eu tinha algo diferente. Vivi momentos de que era um sonho, mas ao mesmo tempo eu tive que lutar com todo mundo para estar lá dentro.”

De lá para cá Cristiane rodou o mundo, passou por países de várias culturas diferentes como Alemanha, China, Rússia, Estados Unidos mas nunca deixou de balançar as redes. Carregou consigo, ao lado de uma geração que conta ainda com Marta e Formiga, a responsabilidade de difundir e quebrar os paradigmas do futebol feminino na sociedade brasileira.

Mas como toda heroína, há grande responsabilidades e com a glória vem a dor. Em 2016, depois de perder o ouro olímpico nos Jogos do Rio de Janeiro, Cristiane entrou em depressão e quase abandonou o futebol.

"Eu vivi um momento muito difícil, eu entrei em depressão. Tem pessoas que ainda acham que é frescura, não é nada disso. Nada te satisfaz quando você tem esse problema".

Cristiane se lesionou no segundo jogo da Olimpíada do Rio.  Na semifinal, a artilheira entrou no sacrifício durante a prorrogação e foi escalada para a cobrança de pênaltis, assim como Andressinha, ela perdeu a penalidade, mas pela experiência e status, carregou consigo toda a responsabilidade da eliminação. Na disputa da medalha de bronze, a Seleção foi derrotada pelo Canadá e recebeu duras críticas por conta do desempenho.

Para poupar a família, a camisa 11 não compartilhou o momento ruim que estava passando, mas o suporte que recebeu do PSG foi essencial para que a brasileira tivesse tempo para se recuperar.

"Eu queria ir embora. 'Não tenho ânimo, não consigo fazer as coisas'. Falei com a capitã do time, contei, expliquei. Conservei com o treinador que foi um super pai, ele me abraçou, disse que ia me recuperar.”

Cristiane desistiu até da Seleção Brasileira, uma de suas grandes paixões. "Na minha cabeça eu tinha que parar. Foi um momento de acúmulo grande, decepção com a lesão, perder uma olimpíada no Brasil, tomar xingo de todo mundo, eu explodi, depois que me recuperei eu fui tendo a noção de que não corri até aqui à toa".

A luta cotidiana para permanecer no esporte, desde estruturas ruins até a incerteza sobre o futuro dos clubes e ligas nacionais foram fatores que ajudaram a fortalecer a brasileira na luta pelo futuro do futebol feminino.

"Toda vez que acontece algo grande eu fico com os dois pezinhos no chão porque eu não sei se vai ter continuidade. Óbvio que o que a gente está vivendo hoje não se compara, visibilidade maior, outras expectativas. Parece que vai, mas costumo dizer sempre que a modalidade vai andar ou não depois dos Jogos Olímpicos. Já vivi situações de oba-oba, principalmente quando ganhamos medalha olímpica".

Prova disso é que mesmo depois de tantos gols, títulos e conquistas, ela não chega nem perto da estabilidade financeira que o futebol masculino oferece e para seguir no rumo da evolução e algum dia atingir esse patamar, Cris pede por mais mulheres no comando.

“É futebol feminino mas a maioria é de homens e quando se tem uma mulher que começa a trabalhar ela é questionada em pouco tempo. Não sei se é medo de perder espaço ou se é preconceito. Acho que nós temos mais essa vontade de correr atrás, estudar, evoluir, por que a dificuldade de aceitar? Por que falta tanto espaço para a mulher dentro do esporte?".

Junto com as críticas e a voz ativa, está o sonho de que a modalidade realmente se profissionalize no país, que as meninas possam viver do futebol e um legado que sem dúvida vem sendo deixado por Cristiane, que desde os tempos de menina, pula obstáculos e continuará pulando mesmo depois que pendurar as chuteiras.

"Estou procurando algumas coisas, fazer curso para ser treinadora de base, que eu acho que vou ter mais paciência. Eu quero dar continuidade no que amo, a gente não pode fazer parar no tempo. Eu espero ter deixado alguma coisa para as meninas, seja no pessoal, seja dando conselho. Espero que elas tenham voz ativa para brigar pela modalidade coletivamente porque quando se tem todo mundo dá uma diferença muito grande".


A Plan International Brasil é uma organização humanitária global. Nós trabalhamos para dar a cada criança a mesma chance na vida.