Cada vez que começa a Série C do Brasileiro, se escancara o paradoxo da ordem do futebol no país. Por um lado, para um território tão extenso, igualmente gigante na desigualdade e na diversidade, não é fácil estar entre os 60 principais clubes da liga nacional. Por outro, a quantidade de times grandes e de camisas acostumadas aos títulos faz com muitas torcidas não se contentem com um lugar na terceira divisão.

É aí que se encontram novatos e veteranos, satisfeitos e angustiados. Contradições e opostos para vários olhares possíveis.

Há gente com história recente na elite, como o Santa Cruz, e também quem até outro dia nunca tinha jogado nem a Série D, como o Manaus. Há quem alcance uma média de público de primeira prateleira, como o Remo, mas também arquibancadas onde se contam torcedores com os dedos, como as do Boa Esporte.

Um campeonato cheio de peculiaridades e histórias se atravessando a cada rodada. Uma disputa nas cinco regiões do país. São 20 times, quatro sobem, quatro caem, e no meio disso uma imprevisibilidade do tamanho do Brasil.

  • COMO FUNCIONA?
Torcida do Santa Cruz comemora

Confirmando o clichê: "Amor sem divisão"

Quando em 2009 o futebol brasileiro se organizou em quatro divisões, o Santa Cruz estava na última, enquanto seus dois grandes rivais do Recife não só jogavam a Série A como o Sport ainda disputava a Copa Libertadores da América, fruto de um título da Copa do Brasil. Pergunte a um torcedor tricolor e ele vai se lembrar: diziam que o Santa Cruz iria acabar.

Mas foi o contrário. Numa das grandes comoções entre clube e torcida no futebol brasileiro, os tricolores fizeram a festa no Arruda e guardam algumas de suas grandes recordações mesmo em tempos de último nível do Brasileiro. O Santa Cruz virou símbolo de um clube empurrado por sua torcida, chamando a atenção do mundo todo por tamanha mobilização mesmo com resultados tão ruins - nessa matéria publicada no jornal inglês The Guardian, o irlandês James Young narra a saga daqueles anos.

Gerrá e família: aniversário ao pé do Arruda

Gerrá e família: aniversário ao pé do Arruda

Em 2011, quando finalmente conquistou o acesso para a Série C, o clube levava quase 40 mil pessoas por jogo, a maior média do país, e Gerrá da Zabumba viveu aquilo intensamente. Anos antes havia sido criada a Sanfona Coral, uma turma que tocava forró nos jogos no Arruda. "Muito se ouvia que o Santa perderia torcedores, que a torcida iria diminuir, que as crianças não iriam querer torcer mais. Ali ficou definitivamente provado que o Santa Cruz é um clube de massa e que seu torcedor é sua principal força. E, naturalmente, aquele tempo juntou ainda mais os torcedores".

Dos times da atual edição, o Santa é disparado aquele que tem o maior público na história da Série C, os 60 mil presentes do jogo do acesso contra o Betim, há sete anos. Aquele clichê do "amor sem divisão", aqui, tem muita história para ser confirmado e embala o clube que tenta, pela terceira vez consecutiva, deixar a terceira divisão para trás.

(fotos: Antonio Melcop/Santa Cruz e acervo pessoal)

Clássicos que valem demais

Na gangorra entre as divisões do Campeonato Brasileiro, Remo e Paysandu se encontram na mesma prateleira nacional apenas pela quarta vez neste século. Em 753 jogos em toda a história, só dois foram pela Série C, os do ano passado, e valendo muito. Na última rodada da primeira fase, o Re-Pa era um confronto direto por uma vaga no mata-mata do acesso.

E não faltou história. O Remo abriu o placar, o Paysandu empatou, e o resultado ia classificando ambos. Mas já no finalzinho da rodada, e com os rivais numa incomum situação de conforto que favoreceria os dois lados de Belém, um gol do Ypiranga, de pênalti, nos acréscimos da visita ao Juventude lá em Caxias do Sul, mudou tudo.

O time gaúcho avançava no Sul, o Papão ainda se mantinha com a quarta e última vaga no Norte, mas o Leão caía para o quinto lugar, eliminado ao término do jogo de maior público da última Série C, com mais de 30 mil pessoas no Mangueirão.

Assim como o Remo, o Santa Cruz também perdeu a vaga na rivalidade final, contra o Náutico, que subiu. E a tabela deste ano mantém os clássicos para a última rodada, garantindo o embate local como componente fundamental da luta pela classificação. Além do Re-Pa, a Paraíba repetirá a agenda com Botafogo e Treze voltando a se enfrentar nessa situação (no ano passado, um empate em Campina Grande custou a vaga ao Belo). Em São Paulo, São Bento e Ituano, das vizinhas Sorocaba e Itu, também ensaiam um dérbi do interior com datas marcadas nas rodadas 9 e 18. Provavelmente valendo muito.

(fotos: Jorge Luiz/Paysandu)

  • CAMPEÕES EM CAMPO
  • Vila Nova

  • Boa Esporte

  • Santa Cruz

  • Criciúma

  • Remo

  • Ituano

O Amazonas no mapa da bola

O caminho ainda é bem longo, improvável, muito difícil. Mas fazia tempo que um clube amazonense não chegava tão perto do topo do futebol brasileiro. Desde que foi criada a Série D, em 2009, nenhum clube do estado tinha conseguido sair da última divisão. O América, em 2010, até subiu, mas perdeu a vaga por uma escalação irregular. Coube então ao Manaus, fundado em 2013, recolocar a terra na Série C. E com casa cheia.

Depois de encher a Arena da Amazônia no jogo do acesso, contra o Caxias, o Manaus mobilizou ainda mais gente para a final, contra o Brusque. Mesmo perdendo o título nos pênaltis, a partida entrou para a história como o recorde de público do estádio construído para a Copa do Mundo, com quase 45 mil pessoas.

Mas, como é que joga o Manaus? É de se esperar que o time se defenda como um franco-atirador diante de camisas pesadas e candidatos ao acesso? Se depender de um dos destaques do time, não. Rossini, aquele mesmo, revelado pelo Santos, assegura que o time vai para cima.

"O Manaus é uma equipe que joga para a frente o tempo todo, sempre buscando o gol. Busca o primeiro, o segundo, e assim sucessivamente", garante o camisa 10.

(fotos: Thais Magalhães/CBF e Janailton Falcão/MFC)

Prazer, Jacuipense

Além do Manaus, o outro estreante da Série C vem de Riachão do Jacuípe, uns 200km de estrada para quem sai de Salvador, passando Feira de Santana. E o Jacuipense, ainda que desconhecido para grande parte do país, já sonha com um lugar na Segundona.

"A gente sabe da dificuldade que é se manter, mas temos uma comissão estruturada e um elenco muito comprometido que nos permitem sonhar com o acesso. Claro que com cuidado: o que não pode acontecer é um descenso. Lutamos tanto para subir que não podemos vacilar", diz o presidente do Conselho Deliberativo do clube, Felipe Sales.

O otimismo, apesar da cautela, surge de um clube que há uma década não estava nem disputando o Campeonato Baiano. O Jacuipense se reorganizou em 2010, voltou a disputar a divisão de acesso do Estadual em 2011 e subiu em 2012. Depois, acabou conhecido por um detalhe bem original: o time passou a ser escalado por torcedores por meio de um aplicativo de celular, lembra disso? Foi com o Leão do Sisal, à época ainda tentando voos maiores dentro de campo.

Agora, o caminho na Série C vem junto de uma escalada também no nível caseiro, com o clube alcançando sua melhor posição na história no Campeonato Baiano ao chegar às semifinais e terminar entre os quatro primeiros. Então é hora de testar a força contra camisas pesadas do futebol nacional. "A gente está acostumado a pegar Bahia e Vitória. Ano passado enfrentamos Campinense, ASA, América-RN. Sempre respeitando, mas já estamos preparados", completa Felipe.

(fotos: Jacuipense)

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Reportagem: Paulo Junior | Edição: Alexandre Sinato e Paulo Junior | Arte: Gabriel Lucki e Caio Rodriguez