A RAINHA DO FUTEBOL
Por Raisa Simplicio

Recentemente no Brasil surgiu uma discussão sobre o maior jogador de futebol do país pós Pelé. Alguns nomes foram bastante citados como Garrincha, Rivellino, Zico e até mesmo Neymar, mas pouco ou nada discutiu-se sobre Marta, eleita seis vezes a melhor do mundo e a recordista em número de gols com a camisa da Seleção Brasileira entre homens e mulheres.

A menina que nasceu em Dois Riachos, no interior de Alagoas, um dos estados mais carentes do Brasil, desde cedo teve que driblar dificuldades. Cresceu sem o pai, que abandonou a mãe quando Marta tinha apenas um ano de idade , passou fome e enfrentou preconceito até mesmo dos irmãos, que não gostavam de ver a jovem trocando as bonecas pela bola.

“Os obstáculos foram muitos, minha mãe criou os filhos sozinha e não tinha dinheiro para comprar, por exemplo, uma chuteira pra mim. Mas eu nunca perdi a vontade de vencer, correr atrás dos meus sonhos”, revela a maior jogadora de todos os tempos.

Buscando na mãe e na avó a inspiração necessária para seguir lutando, com apenas 14 anos, Marta trocou os campinhos de terra em Alagoas e rumou em direção ao Rio de Janeiro. Na bagagem, o sonho de um dia poder viver daquilo que mais amava.

“Passa um filme, lembro do início da minha carreira em Dois Riachos e da dificuldade que passei quando comecei. Quando saí muito nova ainda para jogar no Vasco, peguei um ônibus de Alagoas para o Rio de Janeiro”.

A viagem durou pouco menos de três dias, mas ao desembarcar na Cidade Maravilhosa, a vida da camisa 10 começou a mudar. Num campinho na Ilha do Governador, fez um teste sob os olhares de Helena, na época treinadora do Vasco, e Meg, ex-goleira da Seleção na Olimpíada de Atlanta, em 1996. Sabendo da oportunidade que tinha pela frente, apenas foi Marta. Driblou todo mundo, para frente, para trás, fez gols e encantou a todos naquela ensolarada manhã de uma terceira-feira, que parecia um dia qualquer, se não fosse pelo nascimento de uma lenda.

“ Tudo aconteceu muito rápido na minha carreira, entrei muito nova na Seleção Feminina e depois já fui jogar na Suécia”. De fato, a vida da rainha mudou da água para o vinho em pouco tempo. Apenas três anos depois daquele dia, Marta disputaria a primeira Copa do Mundo pela Seleção.

Em 2003, nos Estados Unidos, a rainha liderou a liderou a Canarinho, que ficou em terceiro lugar no Mundial.  Três anos depois, ele faturou a primeira das seis Bolas de Ouro.  A magia nos pés, demonstrada cada vez que Marta entra em campo, chamou a atenção dos brasileiros, que começaram a olhar para o futebol feminino de um jeito diferente.

Alguns não acreditavam que uma mulher seria capaz de fazer o que ela faz, outros apenas se deliciavam com as jogadas de efeito e, no meio de tudo isso, milhares de meninas passaram a sonhar o mesmo sonho de Marta.

“A Marta é o nome do futebol feminino, ela que venceu lá atrás para a gente chegar no nível que estamos hoje. Tudo o que conquistamos vem através dela, apesar do futebol já existir, pela história dela que é sem comparação, ela passou por cima de qualquer obstáculo e hoje está aí, a melhor do mundo seis vezes”, afirmou Thais Monteiro, meia-atacante do Grota de Niterói, equipe que disputa a Taça das Favelas, competição que reúne comunidades carentes do Rio de Janeiro.

Muitos são os feitos de Marta, como as seis Bolas de Ouro que fizeram, da brasileira, a jogadora que mais venceu o prêmio individual entre homens e mulheres, superando, inclusive, Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.  Como se não bastasse, a camisa 10, ultrapassou também Pelé, se tornando a maior artilheira da história da Seleção.

Na Copa do Mundo, ninguém fez mais gols que ela. Marta soma 15 tentos em 4 mundiais disputados superando a alemã Birgit Prinz e a norte-americana Abby Wambach, ambas com 14. Em junho, no Mundial da França, a rainha pode ultrapassar também Miroslav Klose, que tem 16 e é o dono da marca no masculino.

Além de todos os recordes e trabalho dentro de campo, Marta é embaixadora da ONU e a única mulher a ter os pés marcados na calçada da fama do Maracanã, representando toda a importância como inspiração para a luta feminina no esporte.

“Eu acho que carrego uma missão muito importante que é representar o futebol feminino. A gente vem trabalhando para isso e é fruto de um trabalho que não é só meu, são de todas as minhas companheiras seja na Seleção ou no meu clube, e de todas as pessoas que passaram na minha carreira. E levo essa missão, hoje na Seleção Brasileira passando para as mais novas a importância de vestir a camisa do Brasil, e no meu clube também sempre mantendo essa vontade de ganhar, de vencer que não pode faltar no atleta. Busco também representar as mulheres como embaixadora das mulheres na ONU”.

Apesar de bater os grandes atletas, quebrar recordes, representar as mulheres e ser uma figura de inspiração para qualquer um que busca superar obstáculos, a Rainha não chega perto do reconhecimento financeiro e social que merece.  O que um clube ganha para chegar na final da Champions, representa o que Marta faturaria em 40 anos, e, mesmo depois de tudo que conquistou, sequer é apontada para concorrer a melhor pós Pelé.

No entanto, nada disso é capaz de desanimar a jogadora, que apenas se preocupa com um futuro melhor para quem quiser viver os mesmos sonhas que ela: “Nunca desistam dos seus sonhos.

A caminhada é um pouco difícil, mas não desistam. E claro, lembrem-se de serem atletas e não fiquem muito tempo nas redes sociais, porque atleta de alto rendimento precisa sempre focar na melhor performance e sempre manter o objetivo que deseja em primeiro lugar”.