Solução nada óbvia, Solskjaer repete receita antiga e inicia fase nova no United

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Getty Images
O norueguês dificilmente deixa escapar uma boa oportunidade, reviveu a aura mítica do clube e agora faz sua estreia sem o rótulo de interino

Quando Ole-Gunnar Solskjaer foi anunciado interinamente pelo Manchester United, em dezembro de 2018, o clube estava cercado de dúvidas. Sem ter entendido o que é e o que representa a camisa de Old Trafford, José Mourinho foi demitido ao longo de sua terceira temporada. Com um elenco de grandes jogadores, o futebol apresentado era tão feio – e longe da intensidade ofensiva que está em seu DNA – quanto os resultados eram ruins. A escolha de Solskjaer como interino passava a impressão de que o mais importante era acalmar os ânimos nos vestiários pensando já na próxima temporada.

O ex-jogador, ídolo pelos 11 anos vividos dentro do United, eternizados com o miraculoso gol que, em 1999, garantiu um título de Champions League nos minutos finais, teria a chance da sua vida como treinador. Da mesma forma como aconteceu em 1996, quando Sir Alex Ferguson o tirou do Molde, da sua Noruega natal, para lhe dar uma oportunidade em Old Trafford. Ninguém imaginaria o quão longe aquele atacante chegaria, assim como quase ninguém apostaria no rápido impacto de seu trabalho como interino no United. Até o momento foram 19 vitórias, três empate e cinco derrotas.

Antes de sua estreia, o United ocupava a sexta posição e oito pontos separavam os Red Devils do Arsenal, na quinta vaga que oferece uma vaga na Europa League. Estar entre os quatro primeiros, garantindo participação na edição seguinte da Champions League, era carta fora do baralho – algo já admitido até mesmo por Mourinho antes de sua demissão. Três meses depois, Solskjaer enfim vai fazer a sua estreia como treinador oficial do United. Mesmo após as derrotas consecutivas contra Arsenal (Premier League) e Wolverhampton (FA Cup), o clube deu merecida amostra de gratidão: saiu o carimbo de interino, chegou o contrato válido por três temporadas.

Neste sábado (29), contra o Watford, Ole-Gunnar vai fazer o seu primeiro jogo como treinador ‘de verdade’ do clube que ama. Um time que recuperou seus principais jogadores (Pogba, Lingard, Rashford e Martial), sua identidade de jogo e moral. Está a dois pontos do Top 4 e ainda se dá o direito de sonhar até mesmo com a possibilidade de título na Champions League, após eliminar o PSG nas oitavas de final em um roteiro copiado e colado  da época em que Alex Ferguson era treinador e Solskjaer era a peça certa para mudar os jogos.

“Ele sempre teve esta mente analítica”, escreveu o mítico treinador escocês em sua autobiografia. Em um breve relato sobre o atacante, Ferguson o classificou como o melhor finalizador dentre todos os seus finalizadores. Se não era sempre titular, o motivo era tático. E, sem causar alarde, o norueguês já mostrava a sua obsessão em estudar todos os tipos de adversários: “sentado no banco ou nos treinamentos, ele sempre fazia anotações. E aí quando ele entrava, já havia analisado quem era o oponente, suas posições e o que planejavam. Ele tinha todas essas imagens resolvidas”.

Solskjaer  FergusonFerguson e Solskjaer, mestre e aprendiz (Foto: Getty Images)

Olhando para o semblante tranquilo e sereno do ex-atacante, não dá para perceber tanta profundidade. É como se, agora também como treinador, o apelido “Assassino com Cara de Bebê” voltasse a ser autoexplicativo: Solskjaer parece inofensivo, mas é absolutamente o contrário. A estratégia usada no duelo de volta com o PSG deixa isso claro, afinal de contas tática não se resume apenas a escolher os melhores atletas para cada posição: é preciso saber ler e interpretar o que acontece no gramado para responder quando preciso. O norueguês fez isso tudo na épica virada europeia.

Atacantes daqueles que não precisavam de muitas oportunidades para finalizar ao fundo das redes, Solskjaer fez o mesmo da área técnica quando ninguém acreditava em uma reviravolta tão grande. Desta vez como treinador, não como o reserva capaz de fazer milagres. Mas se apagou todas as dúvidas que giravam por Old Trafford em dezembro de 2018, agora Solskjaer levanta outras.

A Lua de Mel entre técnico e time raramente continua por longos períodos. É mais fácil mudar o espírito de um time em crise quando se é um interino bem aceito por todos. Solskjaer ainda não é tão experiente como treinador, e como mostrou resultados em pouco tempo a expectativa cresceu. Como deve ser, especialmente em um clube do peso do Manchester United. Por isso, neste sábado (30) o técnico que mais bem entende o que é o clube vermelho de Old Trafford desde a aposentadoria de Ferguson iniciará um novo ciclo. Sua entrega e amor ao trabalho são inquestionáveis, mas ainda existem dúvidas sobre como serão os capítulos futuros. Certeza, é de que a efetivação foi mais do que merecida.

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