Primeira Liga: o fim do torneio que nasceu para dar certo só na imaginação

Comentários()
Mailson Santana/Fluminense FC/Divulgação
A competição, que nasceu como boa ideia, tropeçou antes de completar o seu primeiro ano, colecionou bizarrices e cambaleou até acabar como fracasso

Após reunião realizada na sede do América-MG, nesta terça-feira (25), os clubes que fazem parte da Primeira Liga deram um ponto final ao torneio que levou o nome da organização. Foram duas edições, em 2016 e 2017, que mostraram ascensão e queda de um projeto que se colocou como redentor do futebol brasileiro e acabou se tornando mais do mesmo. Uma tentativa audaciosa de independência que evidenciou o quanto, antes de qualquer coisa, é preciso mudar a mentalidade dos dirigentes.

“A principal definição é de que a Primeira Liga não vai mais organizar uma competição, pois entende que o calendário do futebol brasileiro já está superlotado”, diz parte do comunicado emitido pela organização. Mas a verdade é que, ainda que o calendário tenha se tornado um obstáculo cada vez maior, velhas manchetes do esporte, como desunião de dirigentes e interesses próprios começaram a manchar o torneio mesmo em sua primeira edição.

Prólogo: a revolta Fla-Flu e sonho de independência

Vanderlei Luxemburgo Flamengo 03042015

A ideia de uma liga começou a surgir no início de 2015. O Coritiba, com o aval da CBF, quis reeditar a extinta Copa Sul-Minas, pegando carona também no sucesso da Copa do Nordeste como alternativa de aumento no público, renda e exploração das marcas em relação aos estaduais nordestinos. Quase que ao mesmo tempo, Flamengo e Fluminense romperam relações com a FERJ, no Rio de Janeiro, e se juntaram ao grupo. A Copa Sul-Minas- Rio foi o embrião do que viria a ser a Primeira Liga.

Os desentendimentos da dupla Fla-Flu com a federação do estado chegaram ao ápice em três episódios inesquecíveis. Revoltado pela suspensão recebida por ter criticado a FERJ, Vanderlei Luxemburgo, então técnico rubro-negro, colocou uma mordaça na boca em protesto e disparou: “Não vão me calar, meu movimento vai continuar, se quiserem me tirar do Campeonato, se quiserem me tirar do Carioca, que me tirem”. No clássico que ocorreu dias depois, jogadores de ambas as equipes ficaram perfilados e taparam as respectivas bocas, como forma de apoio a Luxemburgo, além de usarem uma faixa de luto no uniforme. Após ser expulso naquele duelo, o atacante Fred, ainda no Fluminense, disparou: “o Campeonato Carioca tem que acabar!”.

Criação, desentendimentos, bizarrices e Flu campeão

Fluminense Primeira Liga 2016Marcos Júnior fez o único gol da final em 2016 (Foto: Mailson Santana/Fluminense/Divulgação)

Em setembro de 2015, 15 clubes [América-MG, Atlético-MG, Athletico, Avaí, Chapecoense, Coritiba, Criciúma, Cruzeiro, Figueirense, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Joinville e Paraná] assinaram a ata de fundação. Nascia ali a Primeira Liga, que apesar de negar no discurso oficial a intenção de ser um novo pontapé na história dos Brasileirões era tido, por grande parte da opinião pública, como a chama que iniciaria um novo período em nosso futebol de clubes.

O otimismo era latente, até porque a ideia não era de todo ruim. Entretanto, o tempo foi passando e os dirigentes foram se desentendendo – inclusive os de Fluminense e Flamengo, com os tricolores descontentes com o maior volume de cotas de TV para o rival. Em dezembro daquele mesmo ano, o então CEO Alexandre Kalil deixou o cargo alegando “complô” de cinco clubes.

Quer ver jogos ao vivo ou quando quiser? Teste o DAZN com um mês grátis!

A CBF aceitou, desaceitou e depois voltou atrás na decisão para autorizar a realização da Copa da Primeira Liga. Naquele janeiro de 2016, entretanto, diminuiu a importância do certame ao classificá-lo como “Torneio Amistoso”. O sistema de disputa separou 12 times em três grupos antes dos enfrentamentos de mata-mata. Uma das bizarrices, causadas pelo conflito de datas, foi a realização de um Gre-Nal que contou tanto para o Gauchão quanto pela disputa incipiente. No final das contas, o Fluminense foi campeão após bater o Athletico por 1 a 0. A grande dúvida era sobre a importância com a qual aquele título seria relembrado futuramente.

A queda

Não demorou para vir a resposta: em 2017, já no segundo ano de realização do torneio, alguns dos maiores clubes em disputa deixaram a Copa da Primeira Liga de lado. Participaram com times mistos e nem mesmo apareciam com o treinador principal, como no caso do Grêmio – que não teve Renato Gaúcho em alguns duelos. A decisão foi disputada entre Londrina e Atlético-MG para um público pouco maior a 15 mil pessoas. O Tubarão levou a melhor nos pênaltis e ficou com o último título somente após duas edições. Em 2018, por causa do aperto no calendário devido à Copa do Mundo, a taça sequer foi colocada em disputa. O final era iminente.

Legado histórico

Dirigentes criação Primeira Liga 2015Dirigentes dos clubes fundadores reunidos ainda em 2015 (Foto: Nelson Perez/Fluminense/Divulgação)

Embora tenha semelhanças isoladas com a criação do antigo Clube dos 13 e até mesmo com a transformação do antigo Rio-São Paulo no torneio que passaria a ser o Brasileirão, no processo realizado entre as décadas de 60 e 70, o roteiro de ascensão e queda da Copa da Primeira Liga possui história independente e com prazo de validade relâmpago. Mas que deixa evidente: antes de querer mudar a estrutura, é preciso mudar o próprio pensamento. Não é possível fazer o futebol brasileiro de clubes evoluir quando cada instituição olha apenas para o próprio umbigo.

Fechar