Ninho do Urubu: Júlio César é a alma rubro-negra que falta ao time

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"Esse é diferente. Suas lágrimas sinceras são de quem viveu no seu clube de coração em um período ruim, mas sem desculpas para não lutar."


Por Bruno Guedes


Fim de jogo no Maracanã. Um sábado à tarde com ele cheio, como nos velhos tempos. Juan, então reserva na partida, vai ao encontro do goleiro Júlio César e chora ao abraçá-lo.

As lágrimas do zagueiro são as de milhões de torcedores. A dor que ele sentiu veio em forma de desabafo por tudo o que viveram no começo dos anos 2000, de um clube desestruturado e que flertava com o rebaixamento, mas nem por isso sem os verdadeiros jogadores deixando a vida em campo. Bem diferente de hoje em dia.

Júlio César arrastou milhares para uma típica tarde de futebol como antigamente porque os mesmos se viam em campo quando o goleiro entrava. A paixão durante todos os anos, os choros de indignação após as derrotas, o desespero de sair driblando todos os tricolores durante um Fla-Flu em que o seu time não reagia... Júlio é a alma rubro-negra que falta ao atual elenco.

Despedida Julio Cesar Juan Flamengo America-MG 21042018 Brasileirao Serie A(Foto: Gilvan de Souza/Flamengo/Divulgação)

O atual elenco tem o privilégio de jogar num Flamengo que sempre sonhou a torcida e a crítica especializada. Excelente saúde financeira, categoria de base jorrando talentos, com a infraestrutura entre as melhores do mundo e todos os vencimentos em dia. Mesmo assim o que entregam de volta a cada partida é desinteresse, time bagunçado e muita irritação aos rubro-negros.

Quais desses jogadores, com exceção do Juan, levaria a mesma quantidade de torcedores em sua despedida? Nenhum. Não levam nem mesmo durante os jogos corriqueiros, ainda que a elitista diretoria do Flamengo exerça sua política de exclusão social dos estádios com os preços absurdos.

No adeus, Julio Cesar dá aula de rubro-negrismo e faz torcida reencontrar a "alma" do Flamengo

Mas Júlio César, não. Esse é diferente. Transpira vermelho e preto. Suas lágrimas sinceras são de quem viveu no seu clube de coração em um período ruim, mas sem desculpas para não lutar. Nunca o conformismo pela derrota. O suor de cada jogo era fidelidade à sua paixão. A mesma do torcedor.

Os jovens de hoje talvez idolatrem o Júlio pelo que conquistou ao redor do planeta. Os mais antigos pelo heroísmo exercido na fase decadente do Flamengo dos anos 2000. Mas todos são unidos por uma única coisa: a alma rubro-negra.

Júlio César se foi. E com ele a penúltima e verdadeira identificação de um Flamengo que lutava em campo.

Bruno Guedes colunista torcedor Flamengo
Bruno Guedes é músico, apaixonado por futebol e beisebol. Brasiliense por certidão e carioca de coração, acredita no futebol brasileiro e tem Romário como o maior jogador que viu dentro das quatro linhas.

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