Mourinho não entendeu o que é e o que representa o Manchester United

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Getty/Goal composite
O treinador português teve sucesso apenas na primeira temporada e fez o pior trabalho de sua carreira

Header Tauan Ambrosio

Quando chegou à Inglaterra para treinar o Chelsea, em 2004, José Mourinho também iniciou uma amizade com Sir Alex Ferguson que perdura até os dias atuais. Exatamente por isso, o escocês que esteve na área técnica de Old Trafford por quase 27 anos, e transformou os Red Devils em uma das maiores potências do futebol mundial, deu apoio total ao português.

Mourinho e United viviam momentos parecidos. Os dois estavam em busca de voltar a ser o que eram em um passado até mesmo recente. Após um período muito turbulento pelo Real Madrid, o português foi repatriado pelo Chelsea em 2013 e fez um bom trabalho ao levar os Blues até o título da Premier League na temporada 2014-15 (o terceiro de sua carreira, sempre pela equipe londrina). Entretanto, perdeu o vestiário no ano seguinte – mais uma vez em sua terceira temporada à frente de um time - e foi demitido em dezembro de 2015, com os Azuis próximos da zona de rebaixamento.

Chegou ao Manchester United na esteira de passagens decepcionantes de David Moyes e Louis van Gaal após a aposentadoria de Ferguson, em 2013, e teve sucesso em sua primeira temporada (2016-17). Ainda que a Copa da Liga Inglesa seja apenas o terceiro título em importância na Inglaterra, o triunfo na Europa League parecia abrir as portas para a reconstrução do Manchester United como potência e de José Mourinho como um dos melhores técnicos da atualidade. Não foi o que aconteceu.

Em primeiro lugar, porque o futebol jogado não era nem condizente com a capacidade de um elenco com excelentes jogadores ou com a tradição do clube. Depois, porque durante a sua segunda temporada os bons resultados, que costumam justificar um futebol pragmático e chato, não chegaram. O United foi vice-campeão inglês no ano em que o City foi imbatível, só que muito dos pontos somados foram na conta de algumas defesas milagrosas do goleiro De Gea. Considerando os clubes na disputa dos cinco principais torneios domésticos da Europa, nenhum goleiro precisou fazer mais defesas do que o espanhol (115).

Mohamed Salah Liverpool Manchester United 16122018O clássico contra o Liverpool foi o último jogo de Mourinho no United... um retrato de seu trabalho no clube (Foto: Getty Images)

Nesta temporada 2018-19, o que era ruim ficou pior. Com 17 rodadas disputadas na Premier League, a última vez que o Manchester United havia somado apenas 26 pontos havia sido em 1990-91. E após a derrota por 3 a 1 para o Liverpool, com direito a uma aula de futebol do arquirrival no último jogo sob o comando de Mourinho, a defesa dos Red Devils só não havia sido mais vazada (29 tentos contra) do que as de Fulham, Cardiff, Burnley e Southampton - equipes que brigam contra o rebaixamento.

Ou seja: nem mesmo a força defensiva, característica mais forte das equipes sob o comando de Mourinho, passava confiança.

Mesmo assim, o português seguia destilando altas doses de arrogância durante as entrevistas coletivas. Os argumentos, entretanto, foram diminuindo e Mourinho usou até mesmo conquistas recentes de outras equipes para não perder a pose: “o grande êxito do Atlético (de Madrid) no ano passado é o meu êxito de dois anos atrás”, chegou a dizer, ao falar do título de Europa League conquistado pelo United em 2016-17.

Só que Mourinho deve ter esquecido que enquanto o Atlético de Madrid quer viver glórias inéditas em sua história, o United o contratou para levar os Red Devils de volta ao posto de protagonista. Dentre outras afirmações polêmicas, o luso classificou o vice-campeonato do último ano como “sucesso” e afirmou que a missão do seu United era terminar a atual temporada como quarto colocado na Premier League – ao ser demitido do cargo na última terça-feira (18), os Red Devils ocupavam a sexta posição, longe do G4.

Seja pelo futebol que sua equipe jogou em campo ou a falta de resultados bons que justificassem a sua marra, José Mourinho demonstrou, em sua passagem de três temporadas por Old Trafford, não ter entendido muito bem o que é e o que representa o Manchester United. A torcida é para que tanto ele quanto o gigante de Old Trafford se recuperem, agora separados, para honrarem a história construída por cada um.

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