Mais forte dentro e fora de campo e alvo de apelo nas ruas para jogar: o experiente Ganso

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Meia 'cobra' mais chances no Sevilla, admite que nunca duvidou de si próprio e avisa que 'ainda tem muita lenha para queimar'

"Brasileiro?", me pergunta um garçom argentino de um restaurante especializado em carnes em Sevilla.

"Sim, sou do Brasil", respondo, antes mesmo de escolher uma mesa.

"O que passa com o Ganso? Por que não joga? É o jogador que mais me agrada ver no estádio", emendou o funcionário apaixonado pelo Boca Juniors e simpatizante do Sevilla.

Não soube explicar, tendo em vista os bons números do meia brasileiro na temporada: nove jogos, quatro gols e três assistências. Na manhã do dia seguinte, o próprio Ganso também não conseguiu ir além do "é opção da comissão técnica" como justificativa, porém revelou receber o mesmo tipo de abordagem dos torcedores nas ruas. 

Em entrevista exclusiva ao Blog Ora Bolas , o ex-jogador de Santos e São Paulo, hoje com 28 anos, até "cobra" mais oportunidades no time espanhol, mas, ao mesmo tempo, faz questão de valorizar os seis anos afastado de lesões e, principalmente, o momento especial que vive no âmbito familiar. Um olhar que às vezes passa batido quando analisado de fora.

Nunca duvidou de si mesmo, apesar de reconhecer que "sempre" foi alvo dos mais diversos tipos de pitacos: "precisa virar volante", "poderia entrar mais na área adversária" ou "falta chutar mais". Além disso, garante que tem qualidade para triunfar na Europa e brinca com o fato de ser experiente (não confundir com "velho"), reforçando que "ainda tem muita lenha para queimar".

O gol contra o Maribor na semana passada, que foi importante para o Sevilla na Liga dos Campeões, pode servir como o "empurrão" que faltava para deslanchar na Espanha?
Se analisarmos os números, o meu início de temporada foi muito bom. Nove jogos sem perder, quatro gols e três assistências. Não é por falta de gol que a minha carreira não vai deslanchar aqui. Falta jogar mais, preciso jogar mais, até para pegar o mesmo ritmo do grupo.

Citei o gol mais pelo simbolismo do momento, por você ter sido o centro das atenções e talvez poder dizer "estou aqui!"...
[Risos] É difícil falar "estou aqui". Me dedico todos os dias nos treinos. Os torcedores quando me encontram na rua dizem: "Pô, você precisa jogar, tem que estar no time". Dou risada e respondo: "A única coisa que posso fazer é me dedicar nos treinos e, quando tiver oportunidade, entrar e tentar fazer o meu melhor".

O que falta para ter mais chances?
Olha, é difícil responder. É uma decisão da comissão técnica, é questão de opção. Preciso continuar com o que já venho fazendo: dedicação nos treinos e buscar sempre o melhor quando receber as oportunidades.

Em que estágio da carreira se encontra? Está satisfeito?
Da parte do futebol, como disse antes, queria estar jogando mais. Jogar mais e estar presente no time é o que quero, é o que estou buscando. Já no lado pessoal, está sendo muito bom, com a minha família e os meus dois filhos, que estão aprendendo inglês e espanhol. Aqui tenho mais tempo com eles, não tem concentração, as viagens são mais curtas...

Às vezes, quando analisamos o momento do jogador, esquecemos de olhar o lado fora de campo...
É o mais importante. Se você está bem com a família, dentro de campo vai correr tudo naturalmente.

Ganso Sevilla Granada LaLiga

Lá atrás, quando começou a carreira no Santos, esperava estar no estágio de hoje?
Primeiro o jogador quer ser profissional, em segundo chegar à seleção e, depois, ter uma carreira na Europa. Mas isso você pensa quando tem 18 ou 19 anos, porque os maiores jogadores estão na Europa e você também quer o mesmo. Cheguei aqui com 26 para 27 anos... É difícil responder. Teoricamente, todos pensam que, com 27 anos, você já está velho para chegar ao futebol europeu e jogar. Fico feliz por ter vindo, principalmente por causa da minha família. Hoje tenho muito mais tempo com a esposa e os filhos, aqui podemos aproveitar mais a vida.

Todos dão pitacos e têm sugestões em relação ao seu futebol: deve virar volante, precisa entrar mais na área, falta chutar...
Sempre foi assim. Muitos falaram: "Agora que vai para Europa, precisa jogar mais recuado, porque não tem dinâmica de jogo e intensidade para chegar ao ataque". Pelo contrário. Hoje estou provando que posso jogar na minha posição, chegando para fazer gols e dando assistências. Tenho que jogar mais na frente mesmo, e não recuado como muitos falavam.

Por que acha que é alvo de tantos palpites?
Acho que é porque gostam de mim, né? Se existe preocupação comigo, é porque gostam da minha pessoa e do meu lado profissional. Bom, espero que seja por isso [risos].

Te incomodou ou ainda te incomoda o fato de alguns falarem que você poderia ter ido mais longe na carreira?
Não, não me incomoda. As coisas aconteceram da forma que tinham de acontecer. É óbvio que a gente quer chegar sempre o mais longe possível... Mas não estou velho [risos]. Estou mais experiente. É isso, estou mais experiente [risos]. Tenho muita lenha para queimar ainda, espero chegar o mais longe possível na minha carreira. 

Paulo Henrique Ganso Sevilla 21042017
(Foto: CRISTINA QUICLER/AFP/Getty)

Torcedores e jornalistas têm o costume definir o que é bom ou ruim e certo ou errado para os jogadores. Mas, na verdade, ninguém melhor do que o próprio jogador para fazer estes julgamentos...
Sem dúvida. Não dá para ficar apenas escutando as pessoas e colocar na cabeça que é preciso fazer isso ou aquilo. É preciso tomar decisões na vida. Às vezes dá certo, às vezes dá errado, e isso acontece com todas as pessoas. A nossa vida é assim. Mas, como disse antes, espero ir o mais longe possível.

Teria mudado algo na sua carreira?
Não. Todas as decisões foram tomadas no momento que deveriam acontecer. A vida me ensinou muita coisa. Talvez se não tivesse acontecido tudo o que aconteceu, não teria evoluído. Tudo aconteceu como tinha que acontecer. As lesões me tornaram mais forte, dentro e também fora de campo. Hoje sou muito mais forte mesmo, porque a gente cresce bastante nas dificuldades.

Em algum momento duvidou de si mesmo?
Não, não... Mas passaram muitas coisas que me fizeram caminhar um pouco para trás.

Por exemplo?
Lesões, principalmente. A lesão é a parte mais difícil na carreira de um jogador. Sofrer uma grave lesão e conseguir voltar a jogar em alto nível é muito difícil, não é para qualquer um.

Quem não joga futebol profissionalmente não consegue ter a mesma visão...
Não, não tem mesmo. Só quem é profissional mesmo. O torcedor enxerga diferente porque é movido pela paixão. Agora, quando você conhece de perto uma pessoa que está lesionada e vê tudo o que está acontecendo em volta, consegue entender o que passa pela cabeça dela, até porque não é só o corpo, é a mente também. Tudo isso é importante. Quando você não está bem fora de campo, dentro de campo também não vai render, não adianta.

Sente que algumas pessoas ainda desconfiam do seu lado físico por causa das antigas lesões?
Não, nem aqui e nem no Brasil. Não desconfiam do lado físico, e também não desconfiam do lado jogador mesmo. Quando cheguei ao futebol espanhol, teve quem disse: "Será que ele vai conseguir jogar no Sevilla?". Hoje acontece o contrário, pedem para que eu jogue.

Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?
Foram as lesões mesmo. Depois também teve a mudança de clube no Brasil [Santos para o São Paulo]. É difícil chegar num rival e se tornar tão querido pelos torcedores. Mas as lesões foram os momentos mais complicados. Lesões que ficaram no passado, graças a Deus [risos]. Já são seis anos sem nada, faz muito tempo. Repito: graças a Deus [risos].

E o momento de maior alegria?
Tive vários momentos alegres, em cada clube tive passagens especiais. No Santos, por exemplo, com os títulos, como a Libertadores. No São Paulo, conquistei apenas a Sul-Americana, isso sem falar daquela Eusébio Cup [risos]. Brincadeiras à parte, o melhor momento no São Paulo foi a minha chegada. Não esperava ser tão bem recebido, a minha apresentação teve mais de 40 mil torcedores.

ganso São Paulo vs River Plate Libertadores 2016 16 01 2017
(Fotos: Getty Images)

Se considera o jogador brasileiro mais criativo da sua geração?
Vocês [jornalistas] que têm de falar. Preciso fazer o que faço de melhor dentro de campo, e a partir disso vocês podem analisar. Cada um tem uma opinião. Uns vão falar que sou eu, outros vão falar que é outro, e logo mais surge outro nome...

Como foi lidar com tantos elogios? Maestro, mágico...
Fui aprendendo a lidar, principalmente agora que estou mais experiente. Antes, quando era jovem, a cabeça era outra. Estou muito mais tranquilo agora, mas ainda espero fazer muitas coisas boas em campo.

Teve uma conversa com o Tite em Sevilla no começo do ano. Como foi?
Perguntou como eu estava, disse que a primeira temporada na Europa é sempre mais complicada mesmo... Na ocasião, eu tinha acabado de ter a minha filha, e ele brincou perguntando se estava dormindo bem [risos]. Foi uma conversa mais sobre o dia a dia e a família.

Como encarou ter sido alvo de interesse do treinador da seleção mesmo sem fazer parte do grupo de convocados?
Mostra que ele [Tite] é diferente, como treinador e pessoa. Independentemente de eu estar ou não na seleção, chegou aqui e quis conversar comigo. Isso é muito importante para um jogador, faz bem para todos.

E o meio-campo da seleção brasileira... Está gostando de ver?
A seleção está muito bem, fez uma Eliminatória praticamente passando por cima de todo mundo. Está jogando bem, jogando bonito, do jeito que o povo brasileiro gosta de ver.

Ainda cabe o Ganso ali?
[Risos] Estou trabalhando, né? Quem sabe... Mas é difícil agora, está muito em cima [da Copa do Mundo].

Mas não digo apenas em relação à Rússia, falo para o futuro mesmo...
[Risos] Estou novo, sou novo. Para o futuro dá para pensar sim, sem dúvida.

Voltar à seleção é uma meta?
Não, não... Deixa acontecer naturalmente, agora só quero pensar no meu momento no Sevilla.

Em toda janela de transferências na Europa nós escutamos que o Ganso deve sair, pode sair...
[Risos] Já devem estar começando a falar que o Ganso vai sair, aliás.

Paulo Henrique Ganso Sevilla 21042017
(Foto: CRISTINA QUICLER/AFP/Getty)

As especulações ou até mesmo as sondagens atrapalham?
Não. Na Europa é assim mesmo, na hora que a janela abre tudo pode acontecer. O jogador que está firme no clube pode sair, aquele que não está jogando pode começar a ter mais oportunidades e logo sair também. A vida de jogador na Europa é assim mesmo, a cada seis meses tudo pode mudar.

Já quis sair do Sevilla?
Não, não pensei em sair. A primeira coisa que penso é que tenho qualidade para jogar aqui. A hora que a oportunidade aparecer, vou aproveitar e jogar. Agora, se continuar sem jogar, daqui a seis meses posso ter outro pensamento, é outra história.

O que esperar do Sevilla na segunda parte da temporada?
O Sevilla vai brigar para ficar entre os quatro primeiros do Campeonato Espanhol, o nosso objetivo é disputar a Liga dos Campeões da próxima temporada.

É "menos difícil" ser campeão da Liga dos Campeões ou do Campeonato Espanhol?
[Risos] Não tem isso, não tem... Agora a Liga dos Campeões é mata-mata, é um novo campeonato. A dificuldade é a mesma.

O que achou da contratação do Guilherme Arana?
Já joguei contra ele. É muito bom jogador, tem as suas qualidades. Pô, o menino só tem 20 anos [risos]. Olha como o tempo passa rápido... Vem para o futebol europeu com uma idade boa. Foi duas vezes campeão nacional com o Corinthians, então chega com uma certa experiência. Já é um grande jogador, mas tenho certeza que vai crescer muito mais aqui.

Destacou a juventude do Guilherme Arana... Saudades daquele surpreendente início de carreira no Santos?
Antes de começar aquela temporada [de 2010], o Dorival Júnior juntou todo o grupo e disse: "Aproveitem bem este ano, porque vai deixar saudades". Isso está na minha cabeça até hoje, porque realmente deixou saudades.

Ganso

Santos ou São Paulo: onde criou maior identificação?
No São Paulo, talvez. Quando você sai de um rival, no caso o Santos, e vai o São Paulo, a torcida [santista] fica um pouco chateada e triste. Os santistas gostam muito de mim, mas ficou aquele sentimento de "poxa, ele não precisava ter saído".

Considerando a mudança conturbada de clube, a passagem pelo São Paulo foi até melhor do que esperava?
Sim, foi muito mais do que imaginava. Muito mais. Não esperava que fosse tão bem recebido e tão bem tratado como fui no São Paulo. Foi diferente de tudo o que já vivi.

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