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Vasco da Gama

Luxemburgo volta ao Vasco para provar ser o que já foi: um dos maiores treinadores do Brasil

08:00 BRT 10/05/2019
Vanderlei Luxemburgo - Real Madrid 2005
Auxiliar em São Januário no ano de 1982, o 'pofexô' já representou - com títulos e bom futebol - tudo o que havia de mais moderno em nosso jogo

Em sua primeira entrevista coletiva como novo treinador do Vasco da Gama para 2019, Vanderlei Luxemburgo comemorou: “eu não quero mais discutir no Instagram”, disse em tom de desabafo/brincadeira e prometeu que voltará a ser “o Luxemburgo que vocês questionaram por muito tempo”.

Já haviam passado um ano e sete meses desde o seu último trabalho, em 2017, no Sport Recife. Há tempos o treinador que mais vezes foi campeão brasileiro (cinco títulos, mesmo número atingido por Lula no Santos de Pelé, que dominou a Taça Brasil na década de 60) buscava uma oportunidade na elite do nosso futebol. Neste meio tempo, foi presença constante em programas esportivos e criou até mesmo um canal no YouTube para falar de futebol.

Ora, mas se estamos falando de um ex-treinador de Seleção Brasileira, um dos mais vitoriosos na história do nosso futebol de clubes, como Vanderlei Luxemburgo ficou tanto tempo longe da área técnica? Os leitores adolescentes que estiverem lendo este texto talvez não lembrem, ou sequer haviam nascido, quando os projetos do professor Luxa eram sinônimos de sucesso. Nos últimos anos, o treinador chegava aos clubes com muita expectativa e até mesmo marra, mas nem os resultados ou o futebol de suas equipes ficavam à altura do que era esperado. E o histórico mostra que era possível esperar muita coisa.

E começou no Vasco!

Luxemburgo foi lateral-esquerdo e não teve oportunidades no Flamengo, em uma época na qual não havia nome melhor do que Júnior para a posição. Passou boa parte de sua carreira como atleta no banco de reservas, e desde aquele tempo já começava a absorver os conhecimentos que usaria no futuro.  Em 1982, foi auxiliar de Antônio Lopes no Vasco que conquistou o Campeonato Carioca sobre o Flamengo. Mas foi em 1989, ao assumir o comando do Bragantino, que mostrou o quanto era diferente. Inicialmente, para quem não conhecia o seu trabalho, o seu grande diferencial estava na vestimenta: optava por camisas sociais ao invés do padrão de casacos esportivos. Mas o que fazia a diferença era a sua capacidade para ler jogos, armar times e influenciar psicologicamente os seus jogadores.

O Bragantino ficou na segunda divisão paulista de 1966 até 1988. No primeiro ano na elite a equipe treinada por Luxemburgo fez bela campanha, e na segunda conquistou o título paulista de 1990. Jamais um clube havia levantado o estadual de São Paulo com tão pouco tempo na elite. O bom desempenho o levou ao Flamengo, por quem jamais escondeu sua torcida, em 1991. Os resultados, entretanto, não lhe ajudaram. Mas Vanderlei demonstrou o olhar apurado para fazer um diagnóstico que hoje em dia é inquestionável: os clubes cariocas já estavam perdendo muito de seu protagonismo para os de São Paulo.

Encerrada a primeira passagem pela Gávea, precisou rapidamente reconquistar o terreno perdido. Fez isso através de campanhas dignas com Guarani e Ponte Preta, mas alçou ao estrelato de vez quando foi escolhido para comandar um Palmeiras cada vez mais audacioso por causa do patrocínio assinado com a Parmalat em 1993.

Sabe o famoso 'Falso 9'? Não foi Guardiola que viu Messi e teve a invenção que revolucionou a história do Barcelona. Também não foi Vanderlei Luxemburgo, uma vez que a alternativa já havia sido usada no passado por equipes icônicas - com a Hungria dos anos 50. Entretanto, seguindo uma tendência atual, aquele Palmeiras que seria campeão brasileiro em 1993 não tinha centroavante fixo: Evair usava a camisa 9, mas recuava e enganava os zagueiros adversários para as entradas em velocidade de Edílson (o Capetinha) e Edmundo pelos lados.  Antes de levantar aquele Brasileirão, o Alviverde também havia encerrado um incômodo jejum de 17 anos sem títulos. Sob o comando de Luxa, seria bi estadual e brasileiro em 1994.

Especialmente entre os anos 90 e início de 2000, Luxemburgo representava não apenas o que de mais moderno exista no futebol brasileiro. Não é exagero dizer que estava entre os melhores do mundo. A sua única invenção duvidosa foi a de usar ternos no calor brasileiro, mas as equipes treinadas por ele (que assim como acontecia já na Europa buscava interferir em todo o departamento de futebol de seus clubes) eram conhecidas por se adaptarem com perfeição às várias situações do jogo: tinham a posse de bola, mas também sabiam contra-atacar com perfeição.

O carioca de Nova Iguaçu não sabia apenas ler o jogo: conseguia, mais do que qualquer outro, influenciar no psicológico de seus atletas. Pesquise ou pergunte a muitos dos últimos grandes jogadores do nosso país qual foi o melhor treinador que eles tiveram em suas carreiras: quem trabalhou com Luxemburgo em seu auge provavelmente irá dizer o seu nome – casos de craques como Rivaldo, Alex ou Edmundo.

Desde que a Copa do Brasil nasceu em 1989, como segundo torneio nacional em importância, apenas uma vez uma equipe conquistou os três campeonatos nacionais existentes em nosso calendário. Em 2003, o Cruzeiro treinado por Vanderlei foi campeão mineiro, da Copa do Brasil e conquistou a primeira edição do Brasileirão de pontos corridos somando 100 pontos. É algo único até este momento. Para ficarmos apenas nos títulos da Série A, ele também levou Corinthians (1998) e Santos (2004) ao título.

Instruções para Zidane, no Real Madrid (Foto: Getty Images)

Em 2005, surpreendeu o Brasil ao ser anunciado como treinador do Real Madrid dos Galácticos. Comandou a equipe que tinha  Zidane, Ronaldo Fenômeno, Raúl e Roberto Carlos entre as temporadas 2004-05 e 2005-06. Era uma época em que os Blancos trocavam de treinadores como quem trocava de roupa (nos anos anteriores, Vicente Del Bosque e Jupp Heynckes não conseguiram ficar no cargo mesmo após conquistarem a Champions League). Em pouco menos de um ano de trabalho somou 75 pontos na Liga Espanhola, cinco a mais em relação a o que o Barcelona bicampeão havia feito no mesmo período. Mas adivinha quem estava no banco madridista quando Ronaldinho Gaúcho acabou com o jogo, vencido pelos catalães por 3 a 0, sendo aplaudido até mesmo pela torcida madridista no Bernabéu? Ele mesmo. Luxemburgo empatou os dois jogos que vieram depois e a vitória por 1 a 0 sobre o Getafe, na 14ª rodada, não foi o bastante para evitar a demissão através das mãos de Florentino Pérez.

Depois daquela passagem pelo Real Madrid Vanderlei Luxemburgo nunca mais foi o mesmo, porque o Vanderlei Luxemburgo até ali era um dos melhores treinadores do mundo. E o Luxa pós-Real Madrid não voltou a ser nem mesmo o melhor do Brasil. Conquistou títulos e até fez boas campanhas no Brasileirão, mas jamais voltou a se encaixar na sombra que ele mesmo havia criado para si próprio.

No Vasco, onde ainda engatinhava quando recebeu a sua primeira chance para trabalhar em clube grande na área técnica, ele agora quer provar que pode ser tão influente quanto um dia já foi. O Gigante da Colina também vive situação parecida, após os rebaixamentos da última década. Entre a saída e o retorno de Luxemburgo a São Januário muita coisa mudou no futebol brasileiro. Hoje, o cenário mostra dois gigantes que buscam recuperar o prestígio que ficou no passado. A boa notícia para ambos é que o treinador usou o tempo que teve disponível para se atualizar com o que tem acontecido no futebol.

“Tentei me atualizar, não ficar dando murro em ponta de faca. O futebol se atualizou, como minha casa se atualiza. Na minha casa, quando minha filha nasceu, mudou. Minha neta, também”, disse em sua apresentação.

A reposta nós veremos em campo.

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