Goleadas são o “novo normal”, e o Corinthians nos ensina a lidar com elas

Placares elásticos inesperados compõem o cenário de um ano atípico e vale refletir sobre qual é a melhor maneira de lidar com tais derrotas

Antes de mais nada, torcedor corintiano, não encare o título como ofensa ou provocação. Ao contrário, é um elogio. Três dias depois de levar 4 a 0 do arquirrival Palmeiras, clube e torcida mantiveram a serenidade para reagir com um 3 a 0 contra o Sport que reafirma a recuperação liderada por Wagner Mancini na atual temporada. Deveria servir de lição.

Futebol ao vivo ou quando quiser? Clique aqui e teste o DAZN grátis por um mês!

A temporada afetada pela pandemia é mais propensa a placares elásticos que suas anteriores. O Brasileirão ainda tem sete rodadas completas (mais alguns jogos perdidos) pela frente e os seis líderes do torneio já se envolveram em nove goleadas, sendo três entre eles, a mais recente o 5 a 1 que fez o Inter ultrapassar o São Paulo na ponta da tabela.

Yuri Alberto São Paulo 1 x 5 Internacional 20 01 2021 Foto: Ricardo Duarte/SC Internacional

É raro que ponteiros tenham derrotas tão expressivas, para começo de conversa. Além do time de Diniz, o Flamengo, atual campeão, terceiro na tabela e vivo na briga pelo título, levou duas pancadas de seus rivais diretos – 4 a 1 em casa para o São Paulo e 4 a 0, fora, para o Atlético-MG.

A última vez em que os seis primeiros distribuíram três goleadas entre si foi em 2015, ano em que Corinthians e Grêmio chegaram a resultados históricos contra São Paulo e Inter, respectivamente. Neste mesmo período, só em 2019, um ano especialmente ofensivo para os padrões do Brasil, os seis melhores aplicaram tantos placares elásticos contra rivais (9 em 2020, contra 21 da temporada anterior).

O levantamento considera goleadas apenas as vitórias por 4 gols ou mais e pelo menos 3 de diferença, ou seja, 3 a 0 e 4 a 2, por exemplo, estão excluídas da lista. Sob este critério, os números mostram que 2020 está fora da curva de normalidade do futebol nacional. Se formos expandir o olhar para além do G6 do Brasileiro, o próprio Corinthians (8º) fez 5 a 0 no Fluminense (7º); o Flamengo levou 5 a 0 do Independiente Del Valle; e o Grêmio caiu para o Santos com um 4 a 1, entre outros possíveis exemplos.

Fora do Brasil o cenário não é muito diferente. Só na Premier League, Liverpool (7 a 2, Aston Villa), Manchester United (6 a 1, Tottenham) e Manchester City (5 a 2, Leicester) já levaram as suas goleadas no meio da briga pelo título. Até o Bayern, atual campeão da Liga dos Campeões, foi carimbado com um 4 a 1 para o Hoffenhein na Bundesliga.

Aston Villa 7-2 Liverpool Foto: Getty Images

Pode ser fruto do calendário apertado, os estádios vazios, a preparação atabalhoada e longe do ideal ou qualquer outro motivo, mas as goleadas inesperadas compõem o cenário de um ano atípico. Não significa dizer que o torcedor, irritado e humilhado por ver seu time apanhar, não possa ou não deva se desesperar. Cada um reage da maneira como preferir.

Os pontos principais aqui são dois:

  1. Em uma temporada instável como essa, goleadas são mais “normais” do que costumam ser, seu time não é o único afetado e possivelmente parte da explicação passa pelo contexto.
  2. Tendo em vista que elas devem acontecer, talvez caiba uma reflexão sobre qual é a melhor maneira de lidar com elas.

E é aí que entra o Corinthians. Depois de uma temporada sofrida para o torcedor alvinegro, seu melhor momento é quebrado pela maior goleada sofrida para o arquirrival em mais de 15 anos, justamente quando ele está na final da Libertadores. E olha que poderia ter sido mais, tamanho o domínio alviverde.

Luiz Adriano Palmeiras Corinthians Brasileirão 18 01 2021 Foto: Cesar Greco/Palmeiras

Quando o juiz apitou, Fabio Santos foi aos microfones, disse que o time “fez tudo ao contrário do que Mancini pediu” e que tem de “sentir a derrota”, mas que há um objetivo e o grupo “não pode se abalar”. Fora de campo, exceção feita a um desabafo mais forte do apresentador Neto, foram raras as manchetes subindo o tom contra Mancini. Não teve ‘intervenção” ou fala mais dura de dirigente, não houve protesto da torcida na frente do CT.

Uma derrota desse porte, que teria o poder de abalar uma recuperação sólida, foi encarada como um “desvio”, que exige correção de rota, mas não um cavalo de pau que coloque o time em outra direção.

Mais artigos abaixo
Matheus Vital, Mosquito e Cazares Corinthians Sport Recife Brasileirão 21012021 Foto: Rodrigo Coca/Corinthians/Divulgação

A resposta veio dias depois, com uma vitória convincente contra o Sport. A goleada não vai passar, e os palmeirenses vão lembrar por muitos anos da segunda-feira em que enfiaram 4 a 0 no Corinthians no Allianz Parque, ainda mais se terminarem a temporada campeões da Libertadores ou da Copa do Brasil (ou dos dois).

No presente, no entanto, a goleada histórica não parece ter sido capaz de impedir que o Corinthians siga em processo de recuperação dentro de campo. A Libertadores, que parecia impossível quando o time de Tiago Nunes ou Coelho patinava e se sentia ameaçado pelo rebaixamento, está ao alcance das mãos. Todo mundo podia aprender algo com isso.

Fechar