Filosofia de Pia na seleção feminina quebra cultura de sobrecarregar craques do Brasil

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Na primeira vez em que entrou em campo para disputar uma Olimpíada no ano em que o futebol feminino foi incluído nos Jogos, em 1996, a seleção brasileira já carregava um peso a mais. Mesmo oferecendo pouca estrutura, recursos e condições para as jogadoras, os dirigentes da CBF pressionavam por títulos. 

Ao longo dos anos, essa contradição prevaleceu e criou uma mentalidade e uma cultura baseadas na ideia de que o futuro da modalidade dependia das vitórias, “pois só assim a modalidade receberia o investimento merecido”. Só que esses resultados deveriam ser conquistados principalmente na base da “luta”, da “raça” e do “talento nato” das brasileiras. 

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“Eu trabalhava muito a cobrança delas com elas mesmas, a expectativa. Elas não tinham condições para serem campeãs, e eram cobradas pela mesma entidade que não lhes proporcionava praticamente nada para isso, que davam uniforme três, quatro vezes maior que o tamanho delas. Era uma variável totalmente na contramão”, afirmou Daniela Cury, psicóloga da seleção em 1995 e 1996. 

Os dirigentes da CBF da década de 90 não apenas deixavam de proporcionar estrutura mínima para as atletas, como muitas vezes agiam como se estivessem fazendo um favor a elas de simplesmente existir uma seleção feminina, isso num país em que a modalidade foi proibida por lei por mais de 40 anos. Então a cobrança vinha de cima, mas vinha também das próprias jogadoras, levadas a acreditar que só haveria uma mudança de patamar quando elas conseguissem conquistar títulos importantes, e não o contrário. 

E claro que esse peso era maior nos ombros das líderes do elenco: foi assim com Sissi nos anos 90, primeira grande craque do futebol brasileiro. “Sissi era muito confiante no que poderia acontecer, sempre falava que aquilo poderia sim decidir nossas vidas, que a gente tava a um passo de decidir o futuro do futebol feminino no Brasil e tínhamos que ter noção da nossa responsabilidade”, conta a ex-jogadora Solange “Soró” Bastos. “E isso não era pouco, né, era toda uma nação, toda a modalidade dependendo de nós, e a gente dependendo dela, aquela bola parada dela.”

A história se repetiu com a sucessora da camisa 10, tanto dentro de campo, com a chamada “Martadependência” no esquema que marcou a última passagem de Vadão pela seleção brasileira, quanto no quesito emocional.

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Marta contra a França na Copa do Mundo de 2019. Foto: Getty

Tanto é que o destaque da eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 2019 foi o apelo emocionado feito por Marta, que cobrou mais esforço das jogadoras mais novas e cravou: “o futebol feminino depende de vocês para sobreviver”. 

“A gente pede tanto, pede apoio, mas a gente também precisa valorizar. Tem que chorar no começo para sorrir no fim. Quando digo isso é querer mais, treinar mais, estar pronta para jogar 90 e mais 30 minutos e mais quantos minutos forem necessários. É isso que peço para as meninas. Não vai ter uma Formiga para sempre, não vai ter uma Marta para sempre, não vai ter uma Cristiane. O futebol feminino depende de vocês para sobreviver. Então pensem nisso, valorizem mais. Chorem no começo para sorrir no fim”, disse a jogadora com os olhos marejados.

À época, me incomodou o direcionamento da crítica às jogadoras, e não à CBF, cujo futebol feminino era então comandado por Marco Aurélio Cunha. Ele chegou ao cargo por indicação política, sem qualquer experiência no futebol feminino, e embora muitas vezes tenha se colocado como paladino do futebol de mulheres no Brasil, na prática não demonstrou muita vontade política nem planejamento estratégico para elevar o patamar da modalidade.

Além do descaso com as seleções de base e do pouco espaço que deu às mulheres na CBF, Marco Aurélio insistiu tempo demais em Vadão, que protagonizou uma sequência de nove derrotas consecutivas antes do Mundial e não parecia capaz de resolver os vários problemas estruturais do time. 

Também se envolveu em polêmica quando a CBF demorou e só abriu as vendas para os amistosos contra o México, no final de 2019, na véspera do jogo, o que impediu a seleção feminina de fechar o glorioso ano de 2019 com estádio lotado. 

Mas voltando à Copa do Mundo de 2019, momento de virada no futebol feminino mundial, dava para ver nas entrevistas de Marco Aurélio e Vadão que antecederam o Mundial que a aposta da CBF era mesmo na garra das brasileiras, na “raça”, na “luta”, no “talento nato”. 

Que o Brasil mostrou, especialmente contra a França nas oitavas de final, mas outros aspectos, como a falta de criação no meio, os graves problemas defensivos e o visível desgaste físico, precisavam ser resolvidos por uma atuação mais efetiva dos gestores. 

Veio então a diretriz global da Fifa para o desenvolvimento do futebol feminino, o sucesso e a visibilidade estrondosos da Copa do Mundo da França, com a Rede Globo transmitindo os jogos da seleção brasileira… e o então presidente da CBF, Rogério Caboclo, não teve saída a não ser demitir Vadão (o que ocorreu somente um mês depois do fim da competição, diga-se) e depois o próprio Marco Aurélio, finalmente trazendo pessoas com expertise na modalidade para geri-la.

Chegou a técnica bicampeã olímpica Pia Sundhage para comandar a seleção, enquanto Aline Pellegrino e Duda Luizelli, ex-jogadoras e experientes em gestão no futebol paulista e gaúcho, respectivamente, assumiram o departamento para promover mudanças profundas no futebol brasileiro. 

Aline Pellegrino Aline Pellegrino, coordenadora de competições femininas da CBF. Foto: Daniela Ramiro/FPF

Enquanto Pelle e Duda trabalharam para fortalecer o calendário em nível nacional, com a criação de novas competições adultas e de base para fomentar a formação de novas jogadoras e de uma liga mais estruturada, Pia promoveu uma revolução dentro da equipe principal. 

Em dois anos de trabalho, a treinadora vem implementando sua filosofia de jogo (organização tática sueca aliada ao “samba style” das brasileiras), batendo na tecla da parte física das jogadoras, fazendo o time jogar mais compacto, arrumando o sistema defensivo e otimizando o poderio ofensivo brasileiro - é só ver o que Ludmila fez no jogo com a Holanda

Uma das principais atacantes da Europa, Lud vinha sendo criticada nos últimos anos por não conseguir repetir na seleção os bons desempenhos vistos no Atlético de Madrid, no bagunçado esquema de Vadão. Diante das holandesas, ela saiu do banco para mudar o panorama do ataque brasileiro e foi premiada com um golaço. Ao fim do jogo, Ludmila creditou a melhora ao trabalho e à confiança passada por Pia, que a ajudou a ser mais decisiva.

Ludmila - Holanda 3 x 3 Brasil - seleção feminina Olimpíadas Tóquio 2020 Ludmila comemora seu com contra a Holanda com Debinha. Foto: Sam Robles / CBF

Mas o meu ponto aqui é na mudança de mentalidade. Finalmente as jogadoras estão usufruindo de uma estrutura digna feita por uma gestão responsável. Elas não precisam mais “ganhar apesar das adversidades”. Vai se construindo um cenário em que elas têm toda a retaguarda de que precisam para darem o melhor de si, sem perrengue, sem improviso. Não é “na base do talento e da raça”. É trabalho. Feito por quem entende da coisa.

Pia costuma dizer que Marta é uma grande jogadora, mas que seu objetivo é fazer o Brasil ter “várias Martas”. Isso passa pelo campo, e para usar novamente o exemplo do jogo com a Holanda, tivemos a jovem Angelina entrando muito bem no lugar de Formiga e Geyse, substituta de Marta, entrando para criar chances perigosas no ataque. 

Mas passa também pelo clima na seleção. Marta agora sabe que pode - e deve - dividir responsabilidades. E a leveza de sentir que o time, as vitórias e, no fim das contas, o “futuro do futebol feminino” não depende mais unicamente de sua canhota é visível na camisa 10, mais sorridente e cantante nas entrevistas. Ela mesma admitiu que “chega mais leve” para Tóquio.

“As pessoas começaram a entender e aceitar que não necessariamente tem que ter resultados para existir mudanças na modalidade”, afirmou à CBFTV, batendo na mesma tecla após a vitoriosa estreia contra a China. 

“Não adianta a gente ficar se cobrando a vida inteira, achando que a culpa é nossa por isso ou aquilo. No que depender da gente, sempre, temos que dar o nosso melhor, fazer o nosso trabalho, falar na hora que pode falar. Nossa voz tem que ser ouvida, claro, mas sem essa cobrança de ter que obter resultado pra isso ou pra aquilo. É um trabalho que todas as outras equipes fazem também, então quem errar menos, for mais preciso nas oportunidades vai ser vencedor”, disse Marta. 

“A gente sentia esse peso porque a cultura do Brasil colocava esse peso nas nossas costas. Hoje a gente entende todo esse processo e absorve de uma maneira diferente. Então o peso não tem que estar nas nossas costas, tem que estar nas pessoas que sempre ignoraram a modalidade”, completou.

Mesmo que o ouro não venha em Tóquio, as mudanças são tão visíveis quanto fundamentais para que o futebol feminino brasileiro possa enfim ser elevado a outro patamar. Se já colecionamos medalhas importantes na base da raça, da luta, do talento individual, imagina onde podemos chegar com trabalho bem feito?