Erros de Neymar e do Brasil e heroísmo do futebol feminino ficam ainda mais claros nas listas da Fifa

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Nenhum brasileiro está entre os finalistas do prêmio The Best nas categorias do futebol masculino

Header Gabriel Pazini

Nem entre os jogadores nem entre os técnicos. O Brasil não tem um representante sequer entre os finalistas nas categorias masculinas do prêmio The Best, da Fifa, que elege os melhores do ano. "Apenas" o futebol feminino representa as terras tupiniquins, com Marta e Vadão disputando honrarias.

As listas da entidade máxima do futebol mundial divulgadas nesta terça-feira (24) deixam ainda mais claros os erros de Neymar e do Brasil e também o heroísmo feminino em um país que não lhe dá o devido valor.

O futebol brasileiro merece não ter representantes entre os finalistas. Tanto entre os jogadores quanto entre os técnicos, todos os finalistas foram superiores a Neymar e Tite.

Os erros de Neymar

Cristiano Ronaldo, apesar de apagado nas semifinais e final da Champions League e na eliminação portuguesa na Copa do Mundo, brilhou com o Real Madrid, sendo decisivo e vital para o tricampeonato europeu não apenas como o artilheiro da competição pela sexta temporada seguida (15 gols), mas também sendo absurdo em vários momentos, como nos confrontos com PSG e Juventus. Além disso, superou seus números na temporada anterior, quando acabou eleito o melhor futebolista do planeta. Já na Rússia, ele teve um final ruim, mas um início espetacular.

collage Messi Ronaldo

Lionel Messi, por sua vez, foi apagado com uma Argentina completamente bagunçada no Mundial e sofreu uma eliminação vexatória na Champions, mas teve uma ótima temporada em um contexto geral por seu clube. Artilheiro e líder de assistências de La Liga, liderou o Barcelona no doblete doméstico e também ganhou a Chuteira de Ouro. O gênio mostrou seu talento absurdo e teve excelentes números, além de viver um 2017/18 vitorioso. E ainda teve grandes momentos na UCL, como nos embates com o Chelsea, quando jogou demais e foi mágico.

Já Eden Hazard não teve grande temporada no Chelsea, mas fez uma Copa absolutamente fantástica, enquanto Kevin de Bruyne foi sensacional no dominante Manchester City e brilhou contra o Brasil na Rússia. Mohamed Salah, por sua vez, sofreu no Mundial e na final da Champions League, atrapalhado por uma triste lesão no pior momento possível, mas foi mágico e histórico no Liverpool, encantando todo o planeta na Premier League e também na Champions.

Harry Kane, por outro lado, terminou sem títulos, mas foi novamente absurdo no Tottenham, além de liderar uma jovem Inglaterra na Copa do Mundo em que foi artilheiro, fazendo história, encerrando um longo jejum e fazendo seu país voltar a ter confiança e esperança em sua seleção. 2018 já foi muito bom e 2022 promete. Enquanto isso, Varane foi fundamental nas conquistas históricas de Real Madrid e França e, apesar de surpreendente, merece sua presença entre os finalistas. Um dos melhores zagueiros do mundo, foi um dos melhores do ano.

Sobre o trio Antoine Griezmann, Kylian Mbappé e Luka Modric, comentei com detalhes na semana passada e expliquei porque o craque do Atlético de Madrid é quem merece o posto de melhor jogador do mundo.

2018-07-16 Antoine Griezmann(Fotos: Getty Images)

Ao contrário de todos eles, Neymar não foi brilhante. Foi excepcional, tanto no desempenho quanto nos números, na "concorrida e ótima" Ligue 1, que seu PSG tem a obrigação de vencer, tamanha diferença para seus adversários. O craque está muito acima do nível da fraca liga nacional que disputa. No entanto, no jogo mais importante da temporada, sumiu contra o Real Madrid na Champions League. Já na Copa do Mundo, deixou a Rússia menor que chegou.

A escolha de trocar o Barcelona pelo PSG cada vez mais se prova um grande erro de Neymar. O camisa 10 se envolveu em ainda mais polêmicas, passou a ser muito mais criticado e não encantou quando mais se esperava, vendo CR7 brilhar no embate entre PSG e Real.

No Mundial, ainda que a questão física tenha tido um peso considerável no começo do torneio, o atacante brasileiro também não encantou e ficou marcado mais pelas polêmicas do que pelo desempenho (decepcionante no geral) em campo. E, como em Paris, foi duramente criticado por suas atitudes.

Neymar Brasil saída concentração após eliminação Copa do Mundo 07 07 18(Foto: BENJAMIN CREMEL/AFP/Getty Images)

Neymar é um craque inquestionável, mas foi muito aquém do esperado na última temporada, se envolveu em polêmicas demais, teve atitudes decepcionantes como suas atuações nos jogos em que mais se esperava dele e ficou marcado por elas. Ele foi inferior aos dez finalistas do prêmio The Best e viu seus erros ficarem ainda mais claros e refletirem em sua ausência da lista.

Tite também de fora

O Brasil também não teve representantes entre os treinadores, com Tite ficando de fora dos finalistas. E, como Neymar, com merecimento.

O trabalho do técnico da Seleção é excelente, com um saldo muito positivo no geral. A eliminação para a Bélgica não deixou um cenário de terra arrasada, como nas Copas anteriores, e a expectativa para 2022 é muito boa, com uma nova geração repleta de jogadores talentosos e muitos ótimos nomes da atualidade que continuarão no time.

Tite Brasil saída jogadores hotel após eliminação Copa do Mundo 07 07 18(Foto: BENJAMIN CREMEL/AFP/Getty Images)

No entanto, Tite falhou na Rússia por sua insistência em erros muito claros. Roberto Firmino deveria ter entrado na vaga de Gabriel Jesus já na última rodada da fase de grupos, por exemplo, e ao longo do Mundial, o treinador cometeu erros nas substituições em quase todos os jogos, inclusive contra a Bélgica.

Os finalistas da Fifa, por outro lado, viveram situações distintas.

Allegri manteve a hegemonia impressionante da Juventus na Itália, continuando seu trabalho espetacular, e foi eliminado de forma polêmica pelo tricampeão Real Madrid na Champions. Segue sendo um dos melhores técnicos do mundo.

Deschamps é o atual campeão mundial. Guardiola fez história com um Manchester City inesquecível e dominante na Inglaterra. Klopp recolocou o Liverpool no lugar que merece, com grande campanha na Premier League e na final da Champions, encantando o mundo com um futebol ofensivo e bonito. Zidane comandou o histórico tricampeão europeu Real Madrid, mais uma vez comprovando o nível e o tamanho de seu trabalho. Valverde, por sua vez, em seu primeiro ano, dominou a Espanha com o Barcelona. Já Simeone levou o Atlético de Madrid ao título da Liga Europa.

Deschamps & Zidane

Cherchesov fez o que ninguém esperava, transformando uma desacreditada Rússia, eliminando a Espanha e levando a anfitriã às quartas de final da Copa do Mundo. Roberto Martínez e Gareth Southgate fizeram história com Bélgica e Inglaterra, respectivamente, levando seus times às semifinais. Zlatko Dalic, por sua vez, fez ainda mais com a finalista Croácia, comandando um feito épico e emocionante.

Tite merece aplausos por um grande trabalho, mas cometeu erros e ficou aquém de todos os treinadores citados. O tupiniquim realmente não merece estar entre os finalistas do prêmio The Best.

E mais que deixar claros os erros de Neymar e Tite, a ausência de brasucas nas duas listas é um mais recado para o futebol brasileiro. Desde antes do 7 a 1 e depois dele, seguimos recebendo sinais que preferimos ignorar.

Neymar Brasilien 06072018

O Brasil sempre vai revelar grandes e excelentes jogadores, promessas do futebol mundial admiradas por todo o planeta. A geração de Vinícius Júnior, Malcom, David Neres, Richarlison, Paquetá, Rodrygo e tantos outros está aí para provar isso, mas não muda o fato de precisarmos de mudanças.

É necessário mudar nossa cultura e a mentalidade de resultados, e modificar nosso calendário ridículo, em que se joga horas antes do início e pouco mais de um dia após o fim da Copa do Mundo, por exemplo, e em que milhares de jogadores ficam sem emprego e o sustento de suas famílias depois de apenas três meses (ou nem isso) de temporada. É preciso melhorar o nível técnico e tático baixo do Campeonato Brasileiro, acabar com a corrupção na CBF e nas federações estaduais, com os cartolas mantendo o lamentável status quo do futebol nacional e o loop eterno de erros, entre vários outros problemas.

O heroísmo feminino

No entanto, se não teve representantes no futebol masculino, o Brasil mais uma vez está representado no futebol feminino. Você pode não saber disso, já que boa parte da imprensa sequer noticiou, mas a Seleção Brasileira feminina conquistou a Copa América pela sétima vez na história recentemente.

Marta Brazil(Fotos: Getty Images)

Foram sete vitórias em sete jogos, 31 gols marcados e apenas dois sofridos. O inquestionável e bom desempenho ao longo do último ano colocaram o técnico Vadão e a craque Marta entre os finalistas em suas categorias no prêmio The Best com todo o merecimento, ainda que não sejam favoritos.

Praticamente sem apoio, sem o mínimo de estrutura e quase totalmente abandonado, lembrado basicamente durante os Jogos Olímpicos e um Mundial ou outro, o futebol feminino continua heroico e vitorioso no Brasil.

Sermos representados no prêmio da Fifa apenas no futebol feminino também é mais uma lembrança de que a modalidade merece mais apoio do que tem recebido.

Os recados, mais uma vez, foram dados. Para Neymar, para Tite e para o futebol e o povo brasileiro. Resta ver se serão aproveitados desta vez.

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