Dor, horror, lágrimas, amor, beleza, Palestina, Malvinas e Messi: a relação entre Pink Floyd e Argentina

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Goal Brasil
Ex-líder de uma das melhores bandas de todos os tempos, Roger Waters tem uma ligação especial com o país sul-americano

Header Gabriel Pazini

Lionel Messi e a seleção argentina fizeram Roger Waters queimar seus olhos com lágrimas de alegria. Não foi com um golaço ou uma jogada espetacular do camisa 10 ou algum de seus companheiros, uma grande e emocionante vitória ou qualquer acontecimento dentro de campo.

Um dos maiores músicos de toda a história, famoso por ter sido o líder do Pink Floyd, uma das melhores bandas de todos os tempos, chorou de alegria porque a Argentina cancelou o amistoso com Israel na semana passada.

Polêmica, a partida causou protestos em todo o mundo, especialmente na Argentina e na Palestina. Os próprios jogadores hermanos não queriam jogar e, por toda a situação e também por medidas de segurança, o jogo acabou cancelado.

Defensor da causa palestina, Waters promove um boicote contra Israel e celebrou o fato de a Argentina desmarcar o jogo. 

"Dois anos atrás, os fãs do Celtic! Ontem, a seleção argentina de futebol. Agora, Eric Cantona. Obrigado, lágrimas queimam meus olhos", publicou o músico em seu Twitter, também se referindo ao ex-atacante francês, que se juntou a ícones da música em Londres, em um concerto para a Palestina. O ex-baixista do Pink Floyd ainda desejou "amor aos irmãos e irmãs da Argentina".

No entanto, a relação entre Roger Waters e Argentina não é de agora. Na verdade, tem muito tempo.

Um disco absurdo

A história começa em 1983, quando o álbum The Final Cut foi lançado. Aquele que seria o último disco com a formação clássica do Pink Floyd, para muitos é, na realidade, praticamente um trabalho solo de Roger Waters.

Apesar de não ter alcançado o mesmo sucesso de outros álbuns da banda como The Dark Side of the Moon, The Wall e Wish You Were Here, o disco é absolutamente fenomenal, emocionante e dos mais importantes da década de 1980.

Roger Waters Buenos Aires Argentina

As composições, letras e melodias são sensacionais e tocantes. Solos de guitarra e saxofone, piano e teclado belíssimos, de cantos calmos a gritos desesperados, bombas explodindo, violinos, ótimos efeitos sonoros e críticas com diálogos e risadas ao fundo. The Final Cut é um espetáculo.

Escute todo o álbum

A relação com a Argentina? Praticamente todas as músicas do álbum citam diretamente a Guerra das Malvinas, entre a Inglaterra e o país sul-americano, que durou pouco mais de dois meses e ocorreu um ano antes do lançamento do disco.

Waters tinha o sonho de ver um mundo sem guerras e, especialmente, não ver a Inglaterra envolvida em um conflito bélico. O baixista, afinal, perdeu seu pai, Eric Fletcher Waters, na Segunda Guerra Mundial, quando ele tinha apenas cinco meses de vida.

Não à toa, na faixa The Post War Dream, que abre o disco, Waters questiona: "É para isto que o papai morreu? Foi por você? Foi por mim?". Seu pai ainda dá nome a outra faixa do álbum: The Fletcher Memorial Home.

Roger Waters Buenos Aires Argentina(Fotos: JUAN MABROMATA/AFP/Getty Images)

Para o baixista, a Guerra das Malvinas era uma traição pessoal de seu país. Waters chora os mortos, faz questionamentos, aponta culpados, e critica Margaret Thatcher, então Primeira Ministra britânica, "carinhosamente" chamada de Maggie nas canções de The Final Cut, e Leopoldo Galtieri, na época o ditador argentino, citado como bêbado e fascista na faixa Get Your Filthy Hands Off My Desert.

O músico não tomou lado na guerra, ao contrário do que parte da imprensa internacional noticiou e ele fez questão de desmentir. Como milhões de pessoas e milhares de famílias, ele "somente" lamentou a dor, o horror, as lágrimas e as perdas causadas por mais um conflito.

O excelente álbum ainda tem condecorações de guerra na frente de sua capa e um general com uma faca nas costas no verso.

Mais lágrimas de alegria

A relação entre Pink Floyd, mais precisamente, Roger Waters e a Argentina, porém, não acaba com o disco de 1983.

Se você andar pelas ruas de Buenos Aires, não precisará se esforçar para observar monumentos e faixas lamentando as mortes e a tragédia da Guerra das Malvinas.

Não à toa, quando Waters viajou até a Argentina em 2012 para uma série de shows no país, ele conversou com a então presidente Cristina Kirchner e, entre vários outros tópicos, falou sobre o conflito de 1982.

Já em março deste ano, o músico foi homenageado com a Rosa da Paz na Embaixada Argentina em Londres por ter sido vital no processo de identificação de quase 100 soldados argentinos enterrados nas Malvinas, no Cemitério de Darwin.

Eles estavam em lápides com os dizeres: "soldado argentino conhecido apenas por Deus". Até este ano, as famílias destes soldados não sabiam onde seus entes queridos estavam enterrados, mas após exames de DNA nos túmulos, mais de 90 das 121 pessoas ainda não "conhecidas" foram identificadas para aliviar, ainda que tardiamente, o sofrimento das famílias.

Waters foi fundamental neste processo. Além dele, o ex-capitão do Exército Britânico, Geoffrey Cardozo, que conduziu os enterros após o fim da guerra, em 1982, o ex-soldado Julio Aro e a jornalista Gabriela Cociffi também receberam a Rosa da Paz pela mesma razão.

Se na bonita e tocante relação de Waters com a Argentina, a seleção liderada por Messi lhe fez chorar de alegria na última semana, o músico já fez centenas de famílias chorarem um sentimento inexplicável com seu belo ato digno do reconhecimento recebido e emocionou, traduziu o sofrimento e deu voz a milhões de pessoas com o fantástico The Final Cut.

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