Da amizade inicial à guerra nos gramados: entenda a rivalidade entre Brasil e Argentina

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DOUGLAS MAGNO/AFP/Getty
Confira como a amizade futebolística entre Brasil e Argentina se transformou em um dos maiores clássicos do mundo!

Paulo Dybala talvez seja o principal jogador convocado por Lionel Scaloni, técnico interino da Argentina, nestes amistosos realizados no início de outubro. O meia-atacante de 24 anos joga ao lado de Alex Sandro - autor do segundo gol da Seleção nos 2 a 0 sobre a Arábia Saudita - na Juventus e inclusive sabe falar português!

Apesar de defenderem lados opostos no clássico entre as seleções de Argentina e Brasil, marcado para esta terça-feira (16), é difícil imaginar que alguma coisa aconteça e que Dybala e Alex Sandro, por exemplo, virem arqui-inimigos.

O cenário acima exemplifica um pouco como era um Brasil vs Argentina nos primórdios do futebol. A relação entre os países costumava ser muito cordial nos anos em que a arte de chutar uma bola já começava a ganhar força. Na Argentina, o Esporte Bretão chegou primeiro (1867) do que no Brasil (1895). Mas como a nossa Seleção foi criada apenas em 1914, foi nesse exato ano que aconteceu o primeiro embate entre ‘brasucas e hermanos’.

O livro “Brasil x Argentina: Histórias do Maior Clássico do Futebol Mundial”, escrito pelo jornalista Newton César de Oliveira Santos, relata em detalhes minuciosos a construção deste grande confronto. Em contato com a Goal Brasil , Newton falou um pouco sobre como partidas marcadas pela cordialidade se transformaram em verdadeiras guerras campais, marcadas por confusões e, claro, muita habilidade nos gramados.

 O guia completo para entender a rivalidade! (Foto: Tauan Ambrosio/Goal.com)

“Em termos políticos e culturais, do final do Século XIX até o início do Século XX, o relacionamento entre os países era bem cordial. A Argentina estava bem melhor do que o Brasil, ela estava independente antes, tinha uma economia melhor”, explica o autor da publicação. “Argentinos e uruguaios já se enfrentavam em seleções desde 1902 e só não enfrentavam o Brasil porque a Seleção Brasileira, pra valer, só foi formada mesmo em 1914. Os confrontos anteriores foram em combinados de times do Rio de Janeiro, São Paulo... Então, Julio Roca, general que havia sido presidente da Argentina, convidou a Seleção Brasileira da época para jogar lá, e ofereceu uma taça, que passou a ser conhecida como Copa Roca, justamente como um sinal de união dos povos”.

Primeiro jogo: Brasil ganhou quando mais importou

A disputa da primeira Copa Roca foi marcada para o dia 20 de setembro de 1914. Só que um violento temporal atrapalhou os planos, pois atrasou a chegada da Seleção Brasileira – que teve que fazer escala em Montevidéu. Para não jogar fora toda a expectativa criada, o primeiro embate foi um amistoso realizado naquela tarde de setembro, em Buenos Aires.

Com dois gols de Carlos Izaguirre e um de Aquiles Molfino, o time que já vestia as tradicionais camisas em azul e branco venceu o Brasil por 3 a 0. Apesar do placar, a equipe brasileira foi bastante elogiada, assim como o goleiro Marcos Carneiro de Mendonça. Sete dias depois, com direito a realização de um jogo amistoso contra o Columbian, o reencontro valeria taça: a primeira decisão envolvendo os rivais!

Copa Roca de 1914: quando importou de verdade, o Brasil ganhou! (Foto: Divulgação/CBF)

No mesmo campo do Gimnasia y Esgrima, no bairro de Palermo, o Brasil começou o jogo do dia 27 trocando bem os passes para os mais de 17 mil espectadores – entre eles políticos e cartolas da mais alta importância. O primeiro e único gol aconteceu aos 13’ do primeiro tempo, quando Rubens Salles acertou um chute à meia altura no canto do goleiro Rithner. Com a vantagem, os brasileiros levaram perigo em bons contra-ataques, mas também sofreram pressão dos argentinos antes do apito final. Finalizado o encontro, nada de reclamações: cordialidade pura na vitória da Seleção, que ficou com a taça da primeira Copa Roca!

II Guerra, Copa de 50 e aumento de competitividade: rivalidade esquenta!

Perante o cenário apresentado acima, é impossível não se perguntar: mas então, como iniciou toda essa rivalidade que nos foi passada ao longo de gerações? “Na minha análise, a rivalidade fica muito pesada entre o final da década de 1940 até o final da década de 1990”, explica Newton. A conjuntura da época formou o pano de fundo para um jogo histórico que aconteceu em 1946, pelo Sul-Americano de Seleções.

“Aquele campeonato sul-americano aconteceu em 1946, mas tem um contexto: final de segunda guerra, concentração das coisas aqui na América do Sul”, explicou o autor do livro. “Politicamente, a gente já estava em lados opostos. O Brasil já tinha uma base americana no Nordeste (...) Na Argentina, as coisas ficaram mais divididas, com o país pendendo mais para o nazismo. Tanto é que um monte de nazistas fugiu para a Argentina. No pós-guerra, a Europa estava precisando de mantimentos e Brasil e Argentina eram concorrentes em matéria prima, mercados. Foram vários fatores”.

A briga após a final do Sul-Americano de 1946 marcou a ruptura diplomática entre os países! (Foto: Reprodução)

Embora o Campeonato Sul-Americano (atual Copa América) de 1946 fosse disputado em pontos corridos, a última rodada reservou, coincidentemente, uma final entre Brasil e Argentina. A Albiceleste venceu por 2 a 0, mas no final do apito houve muita confusão em campo. E o resultado de tudo isso, foi nítido fora dos gramados.

“Houve um estremecimento muito grande entre os dois países e as federações de futebol. Tanto é que havia viagens, excursões, de times argentinos para o Brasil nos anos seguintes, e essas viagens foram suspensas”, explica Newton. Poucos anos depois, a Copa do Mundo seria realizada em território brasileiro. Mas como os argentinos acreditavam que a sede deveria ser lá, resolveram boicotar o torneio.

Dentro de campo, os resultados desportivos também iam aumentando a importância da disputa. Enquanto a Argentina colecionava títulos na América do Sul, o Brasil viveu a sua Era de Ouro no futebol, com os títulos mundiais de 1958, 1962 e 1970. A Copa de 1978, e a eliminação tupiniquim após a polêmica goleada da Albiceleste sobre o Peru também acirrou os ânimos.

Alex Sandro Paulo Dybala Alex Sandro e Dybala: juntos no clube, separados nas seleções (Foto: Getty Images)

Com o início do maior número de transferência dos melhores jogadores de ambos os países para o futebol, a partir de 1990, Newton acredita que essa rivalidade diminuiu bastante, embora os jogos ainda apresentem um largo cardápio de cartões e reclamações: “Deu uma murchada porque os principais jogadores de ambos os países começaram a jogar na Europa, e muitos deles viraram amigos nos mesmos times. Então a rivalidade ficou muito mais com torcedores e imprensa do que com jogadores”.

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