Chamusca diz que má gestão do futebol brasileiro afasta treinadores do país

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Péricles Chamusca
Al Faisaly / Divulgação
Na terceira temporada a frente do Al Faisaly, da Arábia Saudita, técnico ressalta a importância do projeto esportivo e pede melhorias no Brasil

Se hoje no Brasil os treinadores ainda buscam estabilidade para trabalhar, longe das terras canarinhas o brasileiro Pericles Chamusca, que faturou a Copa do Brasil com o Santo André e passou por clubes como Coritiba, Botafogo, Goiás entre outros, encontrou a tranquilidade necessária para desenvolver seus projetos. Aos 55 anos, ele comanda o Al Faisaly, da Arábia Saudita, pela terceira temporada seguida e já soma recordes à frente do clube. 

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No último campeonato, o time de Chamusca chegou ao maior número de pontos já conquistados em uma edição da liga saudita e atualmente, em quinto lugar na tabela de classificação, briga por uma vaga na Champions da Ásia, mesmo com um orçamento mais modesto em relação aos grandes clubes do país. 

"Cheguei no Al Faisaly na situação de tirar do rebaixamento, fizemos uma campanha muito boa dentro da expectativa do primeiro ano. Nós terminamos em sexto. Ficamos em uma posição inédita para o clube. No segundo ano ficamos em quinto lugar e agora a ideia é ficar entre os quatro e classificar a equipe para a Champions da Ásia". 

Goal: Como tem sido essa experiência na Arábia Saudita e como foi a adaptação ao país? 

Eu já tinha trabalhado no Catar por três anos, cheguei aqui e a cultura é parecida, então foi rápida a minha adaptação. Em relação ao futebol, aqui na Arábia Saudita o cenário é muito mais parecido com o Brasil, temos muitos torcedores, estádios cheios, um cenário de grande competição. O Catar tem 75% da população estrangeira, eles têm dificuldade de colocar torcedor no estádio. Aqui é grande, populoso, tem muito mais jogadores, jovens em formação e isso facilita o desenvolvimento do futebol. 

Goal: Logo quando você chegou na Arábia Saudita passou por uma situação bem inusitada, você foi emprestado ao Al Hilal para a reta final do campeonato. Como foi isso?

No primeiro ano, no final da temporada, o Al Hilal ainda tinha chances de ser campeão da Liga, eles tiveram uma caída de performance grande e ainda estavam jogando a Liga da Ásia, eles fizeram uma proposta para o nosso clube, estávamos numa situação confortável e o clube aceitou o empréstimo. Foi uma situação financeira boa, pagaram 800 mil doláres só para um mês de empréstimo. A gente teve a oportunidade de disputar 2 jogos da Champions da Ásia, garantimos o Al Hilal em primeiro do grupo, que depois acabou sendo campeão. Foi bom a gente participar dessa campanha do título e ainda brigamos até a última rodada na Liga. A gente conseguiu no espaço curto de tempo fazer a equipe voltar a jogar em alto nível.

Goal: Acredita que se tivesse chegado antes poderia ter levado o time ao título?

O primeiro jogo foi na verdade o jogo que decidiu, chegamos 48 horas antes, é difícil dizer, afirmar que a gente ganharia, mas a gente teria mais chances até pela resposta que o grupo deu com uma semana de trabalho. Não só focando na parte psicológica, que era importante naquele momento, mas até de metodologia, mudança tática na equipe. Eu tive uma grande vantagem, o Carlos Eduardo era uma grande liderança no clube e me ajudou muito nesse momento. 

Goal: Você chegou no final da temporada, com pouco tempo de trabalho, dá para um treinador arrumar o time em tão pouco tempo assim? O que é preciso ser feito?

O primeiro a se fazer é o diagnóstico do que está acontecendo. No Hilal, a equipe era muito boa, muitos jogadores de qualidade. No momento, eles tinham perdido o Carillo por lesão, um jogador muito importante. O nosso trabalho foi reconstruir psicologicamente a equipe porque estava em um momento ruim, desenvolver a confiança, implementar a intensidade de treino, a gente percebeu que eles estavam sentindo falta. Num calendário de muitos jogos, a comissão anterior optou por trabalhar em cima de recuperação e isso trouxe uma segurança em relação as lesões, mas em compensação ficaram muito tempo sem treinar com muita intensidade. A volta da intensidade trouxe mais dinâmica para a equipe e voltaram a ter o futebol do início da temporada com Jorge Jesus. 

Goal: Seu nome é sempre lembrado pelo marcado árabe e outros lugares, a torcida do Al Hilal também fala de você com muito carinho...

A gente fica feliz de ter o nosso nome lembrado, recebemos uma proposta agora recente de um clube grande dos Emirados Árabes, não houve acordo, o momento não era oportuno, mas a gente já começa a enxergar que existe uma valorização muito boa do trabalho e, claro, queremos passos maiores e esse ano é importante para fechar o ciclo com um grande trabalho, classificando para a Champions da Ásia e com a possibilidade de brigar pela King Cup, que a gente possa ir mais longe, a gente sempre cruza com o Hilal no início, mas desa vez a gente está na chave contrária, estamos só encontrar o Al Hilal no final. 

Goal: Você vem de várias experiências fora do Brasil, no Catar, Emirados Japão... Você pensa em voltar para cá?

A gente sempre tem essa expectativa de voltar, eu já tive momentos que voltei, mas o que tem acontecido é voltar, não encaixar uma proposta do meu interesse e eu acabo recebendo propostas para sair. Acredito que o mercado brasileiro é um mercado instável para treinador. Quando você tem mercado externo normalmente você prioriza a continuidade fora do país porque você tem um respeito maior aos contratos, uma atmosfera mais profissional de organização.  O Brasil tem muitos problemas em relação a isso. Problemas financeiros nos clubes, problema de gestão, o treinador com quatro derrotas já está saindo, essas coisas afastam um pouco. Os treinadores que têm mercado externo acabam optando por continuar fora do país. A vontade sempre existe, mas no Brasil você não tem tempo.

Goal: A dificuldade de desenvolver um trabalho a longo prazo é o grande desafio para um treinador no Brasil?

No Japão, você tem quase dois meses de preparação para iniciar a competição. No Brasil, o tempo é muito curto, você já começa sendo cobrado, então todo esse processo inibe o profissional que tem mercado externo a voltar ao país. A questão do calendário, muito apertado, você treina menos, a possibilidade de reverter dentro da temporada é menor pelo tempo de treino que você tem, é difícil você fazer o que eu fiz fora, trabalhei quatro anos em um clube no Japão, aqui já estou na terceira temporada no mesmo clube. Eu passei por momentos de dificuldade de resultados, mas eu continuei o trabalho e no Brasil isso não existe. No momento que você tem a dificuldade você já perde essa possibilidade de continuidade, o clube nunca consegue desenvolver um trabalho a longo prazo e o treinador está sempre patinando para tentar implementar um trabalho. 

Goal: Você acredita que isso tem dificultado o desenvolvimento do futebol brasileiro? 

Já existem dados, informações mostrando que troca de treinador assim é desfavorável para os clubes, questões financeiras, descontinuidade de trabalho. O que tem acontecido No Brasil é transferência de responsabilidade, sempre o treinador assina a conta. Esse formato parece que acalma naquele momento, tira a pressão da diretoria, mas de uma certa forma você joga o lixo para baixo do tapete. Todo processo termina sendo negativo para o futebol, isso é um ponto que o Brasil vai ter que evoluir em termos de gestão para que a gente consiga evoluir de maneira profissional. O Brasil tem que andar.

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Goal: Se há um Chamusca na Arábia, temos outro por aqui. Como você analise esse momento da carreira do seu irmão Marcelo Chamusca e este novo desafio no Fortaleza

É merecido. A gente acompanha aqui de longe, ele já vem fazendo grandes trabalhos há algum tempo. Ainda é o único treinador que já subiu de todas as divisões, ele fez o acesso em todas e o nível de trabalho que vem desenvolvendo encaixa bem para esse momento no Fortaleza. Ele já conhece o futebol, acho que foi perfeito esse momento da chegada dele. 

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